Teoria

REVOLUÇÃO RUSSA | 99 ANOS

Revolução russa: diante da democracia de base [os sovietes] a intervenção do partido bolchevique foi uma solução ou um problema?

Será que o decisivo e o importante da Revolução Russa foram os sovietes? E que o partido teria sido o elemento que distorceu o processo revolucionário?

Christian Castillo

@chipicastillo

terça-feira 25 de outubro| Edição do dia

Quando se pensa na revolução russa o papel dos conselhos de operários, camponeses e soldados, ou seja, os sovietes, é um elemento praticamente consensual na esquerda em geral, seja em termos do dinamismo daqueles órgãos democráticos, seja pelo seu significado no desenvolvimento da revolução. Mesmo certa esquerda, crítica da revolução russa, consegue ver com bons olhos os sovietes.

No entanto, muitos companheiros que se localizam pela esquerda, especialmente em momentos de ressaca política e golpe institucional como hoje no Brasil, como parte do seu processo de decepção e desencantamento com relação ao Partido dos Trabalhadores [PT], tendem a ficar sensíveis ao seguinte raciocínio anti-partido: sim, os conselhos de trabalhadores e soldados foram importantes na revolução russa, mas o problema foi o partido bolchevique. Foi o partido que atrapalhou e impediu que os sovietes seguissem sendo a cara da revolução. A Revolução Russa teria se bastado com os trabalhadores e sua auto-gestão.

Ou por outra: os sovietes são democracia de base, tudo que queremos, mas o partido bolchevique veio e se impôs, usurpou, manipulou - cada um escolhe a palavra preferida dentro do objetivo de separar “o joio do trigo” naquele processo revolucionário – os sovietes. Ou seja, a ideia é “demonstrar” que ontem como hoje a forma partido é o problema. E apenas a democracia pela base, por si mesma, é a solução. Partido só atrapalha.

Os argumentos a seguir, de Christian Castillo, procuram dar conta dessa questão.
E como se trata de um debate mais que atual no nosso país recomendamos enfaticamente sua leitura. [Gilson Dantas]

“Um argumento, de longa tradição histórica [...] é formulado por aqueles que dizem que apoiam a tomada do poder pelos sovietes, que avaliam que os sovietes são fantásticos, são grandes organismos de auto-organização onde participam os operários, os camponeses, os soldados; mas, dizem eles, o problema foram os bolcheviques. Foram os bolcheviques que procuraram reduzir toda essa potência, essa multiplicidade de tendências, de aspirações e ações emancipatórias das massas, à ditadura do proletariado, e mais ainda à ditadura do partido.

Vamos contestar esse argumento a partir de dois pontos de vista. Em primeiro lugar, imaginar que os sovietes podem assumir o poder sem partido revolucionário corresponde a desconhecer as lições de todas as experiências revolucionárias do século XX.

No século passado realmente houve efetivamente diferentes situações revolucionárias onde as massas tenderam a levantar organismos do tipo soviético. Por exemplo, na Alemanha, um ano após a Revolução Russa, os operários armados desfilavam por Berlim e formaram organismos semelhantes aos sovietes russos, mas estes mesmos sovietes, ao serem dirigidos pelos conciliadores, não permitiam, às vezes, sequer a presença da ala revolucionária dirigida por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Estes sovietes conciliadores foram perdendo peso depois de serem contidos e terem aceito sua incorporação como parte do Estado burguês, na proposta de um “Estado misto”, parlamentar e, ao mesmo tempo, soviético, proposta dos dirigentes da Social-Democracia. Depois a burguesia alemã pôde passar ao contra-ataque. Tivemos vários organismos desse tipo como, por exemplo, os conselhos operários em Turim, na Itália, em 1920, mesmo que não tenham chegado a alcançar envergadura nacional.

Também tivemos este tipo de organismo na revolução boliviana no ano de 1952, quando a COB se transformou em uma espécie de soviete e o poder estava nas mãos das milícias operárias e camponesas; no entanto eles não tomaram o poder, permitiram que Victor Paz Estenssoro, o representante do movimento nacionalista revolucionário (MNR) assumisse a dianteira. Uma vez que a classe operária não concluiu a tomada do poder, um ano e meio depois, foi deflagrado o contra-ataque burguês, o exército se rearmou, e todas as posições ganhas se transformaram em memórias, não se marchou para uma revolução socialista, e sim para o aborto dessa revolução por parte da direção nacionalista.

Também ocorreram tendências à constituição de conselhos, desenvolvidos durante a revolução contra a burocracia stalinista na Hungria de 1956. Neste caso, os conselhos operários constituíram realmente um duplo poder, primeiro diante do governo de Imre Nagy que durou poucos dias (o governo dos supostos reformadores) e depois diante do governo daquele que tinha sido seu lugar-tenente, Janos Kadar, que se amparou no ataque russo para, em seguida, dissolver os conselhos.

Também se desenvolveram embriões de sovietes na década dos 70: nos cordões industriais chilenos, e com menor envergadura nas coordenadoras argentinas. Pode-se dizer menor envergadura porque não estavam armadas e, como disse Trotski, todo duplo poder que não está armado, na verdade é um semi-duplo poder, nunca será um verdadeiro duplo poder.

No entanto, essas revoluções foram derrotadas por diferentes vias, através da contrarrevolução, cooptação, ou pela “passivização” do movimento de massas. Pretender que se possa explicar Outubro sem os bolcheviques e sem a tomada do poder é esquecer essas lições da história. Outubro foi Outubro porque existiam sovietes mas também, especialmente, porque existiam os bolcheviques. Sem essa combinação das massas tendendo a formar organismos de auto-determinação e um partido revolucionário, que através destes organismos consiga liderar ao movimento de massas, não se repete outro Outubro.

O contraponto desse processo foram as revoluções nas quais o poder foi tomado sem que a estratégia do Estado de transição estivesse baseada em formas de democracia soviética. Por isso mesmo, as revoluções na China, Vietnã, Cuba, deram origem a regimes burocratizados praticamente desde o início, e nelas o modelo de partido único stalinista se impôs através da transferência ao novo regime da estrutura do partido-exército com a qual se tinha chegado do poder.

O segundo argumento contra a ideia que opõe o soviete ao partido revolucionário é o seguinte: no soviete existe luta de classes, portanto de tendências e partidos, antes e depois da tomada do poder. Depois da tomada do poder as contradições entre as classes não desaparecem mas tendem a ser mais agudas quanto menos desenvolvido seja o proletariado. Se estudarmos minuciosamente a história posterior à revolução, vão observar que quando falamos de hegemonia do proletariado, não estamos falando de qualquer coisa. A existência de massas que se opõem à opressão, não implica que todas se opõem a opressão com base no mesmo programa, com a mesma perspectiva, muito pelo contrário.

Os camponeses, por exemplo, que na Rússia eram a infinita maioria, não estavam de acordo com a socialização da propriedade agrária. Por esta razão os bolcheviques têm que fazer uma manobra de tomar o programa socialista revolucionário de esquerda e aceitar a distribuição da terra. Em geral os camponeses tendiam a defender a pequena propriedade, não a propriedade coletiva. E isto vai se dando à medida em que a revolução vai se desenvolvendo. Em um primeiro momento os camponeses dizem: “contra os brancos defendemos aos bolcheviques, porque com eles conseguimos derrotar os latifundiários e capitalistas e sem eles os latifundiários e capitalistas vão voltar”. E defenderam mesmo na guerra civil e isso é o que explica em parte porque na guerra civil, os revolucionários irão triunfar.

Neste sentido os bolcheviques foram grandes políticos para poderem conseguir a aliança operária e camponesa, para mostrar uma política não coorporativa do proletariado, mostrando a classe operária como classe dirigente dos camponeses e das nações oprimidas, para desencadear a energia revolucionária das amplas massas. Mas se observamos o que aconteceu em seguida na tomada do poder vamos observar como há tendências contrapostas durante todo o processo. Em 1921, por exemplo, culminada a guerra civil, os camponeses são campeões em se opor a toda medida de socialização e provocam situações extremamente difíceis para o poder operário. Inclusive a conclusão que tiram os bolcheviques é a de que é necessário voltar atrás em muita medida de supressão da propriedade privada tomada sob o “comunismo de guerra” e fazer uma nova concessão lançando a nova política econômica, a NEP. Portanto se desenvolve apenas os sovietes e não existe partido revolucionário desde antes na luta pela tomada do poder, planificando cien-tificamente, organizando a arte da insurreição, lutando contra os conciliadores, lutando para tirar as massas operárias de sua influência, e depois da tomada do poder, lutando para manter a hegemonia proletária, avaliando as voltas que é necessário dar, e também os momentos em que há de se manter firme, todo o poder soviético nos marcos de um mundo dominado pelo poder capitalista será efêmero e rapidamente derrotado”.

Este argumento consta do prefácio ao livro A Revolução Russa: 1917, o ano da tomada do poder, lançamento Iskra/Centelha, 2016. Crédito de foto: site do freebirds.com. [O título do artigo não consta do original do autor]




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