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Revolução francesa: Dos ecos da Marselhesa ao grito da revolução permanente

Paula Schaller

Imagem: Mar Ned - Enfoque Rojo

Revolução francesa: Dos ecos da Marselhesa ao grito da revolução permanente

Paula Schaller

“...É a nós que pretendem mergulhar
De volta à antiga escravidão.
O quê! Sofreremos que essas tropas estrangeiras
Ditem a lei em nossos lares,
E que essas falanges mercenárias
Derrotem nossos valentes guerreiros?...”
(a “Marselhesa”).

Uma espécie de mito amplamente aceito entre os historiadores conta que o filósofo alemão Immanuel Kant, que se diz ter sido tão pontual que os habitantes de Koenigsberg (capital da Prússia Oriental) ajustavam seus relógios de acordo com o dele, atrasou sua regular caminhada vespertina quando recebeu a notícia da tomada da Bastilha, e toda a cidade soube que um acontecimento importante havia acontecido. De qualquer forma, real ou não a anedota funciona como articuladora de uma potente imagem histórica: a Revolução Francesa fez saltar o tempo histórico e seu alcance foi mundial.

Desde que em 14 de julho de 1789 uma insurreição do povo parisiense tomou a Bastilha, um símbolo da repressão absolutista, e com mais força a partir do regicídio de Luis XVI, o velho mundo feudal começou a se quebrar, iniciando um ciclo histórico que deriva na ascensão da sociedade burguesa moderna. Considerada por seus contemporâneos e seus herdeiros como a Grande Revolução, deixou legado o hino da luta dos oprimidos do mundo – como ocorreu com as estrofes da “Marselhesa” até sua substituição pelas da Internacional –, e forneceu o espelho comparativo da luta revolucionária subsequente, cuja dinâmica social e política seria incapaz de reiterá-la.

O fato é, à medida que a sociedade moderna estivesse mais assentada, a luta já não opunha a nação como um todo sob a direção revolucionária burguesa contra as forças sociais da antiga ordem, mas, cada vez mais abertamente, as classes sociais modernas entre si. A seguir, analisaremos porque a Revolução Francesa foi, pelos mesmos motivos, o modelo arquetípico da revolução burguesa clássica e o ponto mais alto de uma juventude revolucionária que a burguesia já não podia mais retomar.

As contradições do Antigo Regime

Está claro que, embora a Revolução Francesa não tenha sido um fenômeno isolado e sim parte de um ciclo mais geral que incluiu revoluções precedentes [1], ela foi mais fundamental do que qualquer uma de suas contemporâneas e contribuiu decisivamente para gerar os cimentos de uma nova ordem. Como nenhuma outra revolução até então, desencadeou movimentos a favor e contra os princípios adotados, promovendo o programa dos partidos liberais moderados, radicais e democráticos em todo o mundo.

Para começar, a própria gravitação da França no século XVIII explica sua magnitude: na época da revolução, 1 em cada 5 europeus eram habitantes do reino francês, o mais populoso dos Estados europeus, se excluirmos o Império Russo. Organizado de maneira estamental, dos seus aproximadamente 25 milhões de habitantes, cerca de 96% pertencia ao Terceiro Estado, que era constituído por um amplo e heterogêneo conglomerado social composto por camponeses (cerca de 85% da população), artesãos, pobres urbanos, pequenos, médios e grandes comerciantes burgueses etc. Juntos, compartilhavam sua condição legal de não privilegiados: pagavam toda a carga tributária da monarquia e o sustento do clero e da nobreza, os 3% restantes da sociedade.

A partir do século XVIII, o reino francês passou por um desenvolvimento que o posicionou como o maior concorrente da Grã-Bretanha pela hegemonia europeia. Porém, diferentemente dela, sua política externa não foi determinada pelos interesses da expansão capitalista, que estava limitada pelas relações sociais feudais e por uma monarquia absoluta que continha a ascensão das várias camadas burguesas. O “exclusivismo da nobreza” característico do Antigo Regime francês foi um fator central na dinâmica da revolução. A nobreza, cuja autonomia política dos séculos anteriores havia sido prejudicada pela centralização política operada pela monarquia absoluta, agarrava-se com unhas e dentes aos seus privilégios fiscais e ao exclusivismo no acesso ao governo. O Exército, a Igreja e a alta administração do reino permaneceram fechados a uma burguesia que, em mais que só alguns casos, possuía mais riqueza do que muitos dos nobres que a distanciavam devido à sua condição de origem.

A persistência dos privilégios de sangue era incompatível com a ascensão da burguesia, cujos intelectuais defendiam o princípio da igualdade legal. O exclusivismo da nobreza foi tão profundo que, ao longo do século XVIII, a nobreza minou permanentemente o absolutismo real, rejeitando qualquer tentativa de modernização e reforma tributária [2]. Em nenhum outro reino europeu a contradição entre seu desenvolvimento econômico e sua estrutura social e superestrutura política foi tão aguda quanto na França. Isso explica em grande parte a dinâmica da revolução.

Uma revolução antifeudal de massas

Eric Hobsbawm ressalta que, de todas as revoluções que a precederam, a francesa “foi a única revolução social de massas e imensuravelmente mais radical do que qualquer outra insurreição” [3]. Foi a revolução de um bloco social amplo e heterogêneo que reuniu todos os elementos plebeus sob a direção de várias camadas burguesas, cuja sucessão à frente do processo marcou as diferentes fases de sua radicalização. No mesmo sentido, Albert Soboul afirma que a principal característica da Revolução Francesa, “o episódio mais clamoroso, devido à sua violência, das lutas de classes que levaram a burguesia ao poder [4]”, foi ter alcançado a unidade nacional através da destruição do regime senhorial e das ordens feudais privilegiadas. A revolução teve um caráter rural e urbano e sua força motriz foi a massa de produtores diretos, os artesãos – e as várias categorias de trabalhadores manuais e os pobres urbanos – e os camponeses, a esmagadora maioria social.

É impossível entender a profundidade da revolta antifeudal de massas na França sem compreender o peso que o feudalismo representava para o campesinato. Embora na época em que a revolução ocorreu, a servidão subsistisse em poucas regiões e o campesinato era majoritariamente livre e pequeno proprietário, as relações feudais de produção persistiram através dos cânones (impostos sobre a terra que o camponês tinha que pagar à nobreza, que na época da revolução somavam cerca de 300) e os dízimos eclesiásticos que, pagos em espécie, em tempos de crise e fome como o que precedeu a explosão revolucionária, foram obtidos diretamente às custas da subsistência camponesa. A estrutura feudal apoiada no sistema de cânones e dízimos foi central para impedir que os camponeses pudessem dispor livremente dos frutos de seu trabalho. O excedente produtivo era absorvido pela nobreza, que retirava um terço de toda a renda agrícola francesa. Nessas condições, o ódio antiaristocrático atuou como fator unificador na intervenção da comuna camponesa – que já expressava uma diferenciação social interna – no processo da revolução.

O pacto impossível com o rei

A convocação da monarquia aos Estados Gerais [5], em maio de 1789, na tentativa de canalizar a situação de crise, deu uma base para a expressão política dessa aliança com a rebelião do Terceiro Estado e sua autoconvocação na Assembleia Nacional [6] para proclamar uma constituição. Isso foi acompanhado pela entrada em ação das massas parisienses que impulsionaram o processo da tomada da Bastilha para a conquista de armamento, um processo que a burguesia tentou canalizar sob a criação da milícia burguesa, logo chamada de Guarda Nacional, que no início era limitada aos proprietários (que tivessem renda, empresas ou imóveis para defender). A mesma espontaneidade revolucionária das massas levou a uma reorganização de baixo que destruiu a arquitetura social e institucional do Antigo Regime, suspendendo a cobrança de impostos, reorganizando o país sob a criação de municípios e dividindo Paris em seções que eram um canal para expressão e deliberação política das camadas populares.

Desde o início, uma dialética contraditória se revelou entre a direção inicial da grande burguesia que procurava conter o processo e a irrupção política dos plebeus. A primeira etapa da revolução – de 1789 a 1792 –, que liquidou o feudalismo estabelecendo a liberdade de comércio, a igualdade perante a lei (aboliu-se o privilégio fiscal, a vassalagem, bem como direitos senhoriais e a servidão camponesa – com pagamento aos nobres) e a constituição civil do clero, teve uma direção burguesa moderada pela média e grande burguesia comercial que mantinha o pacto com a monarquia, a nobreza e o alto clero, o chamado “partido da Corte”. Seu programa era o da monarquia constitucional e seu objetivo era sustentar as conquistas obtidas apostando na restauração da ordem social. Leon Trótski, procurando explicar o processo revolucionário russo por analogia – e diferenciação – com o francês, analisou que na Revolução Francesa havia uma dualidade de poder típica dos processos revolucionários, que em cada etapa revelava a disputa entre várias classes ou frações de classe:

No tempo da grande Revolução Francesa, a Assembleia Constituinte, cuja espinha dorsal era representada pelo Terceiro Estado, concentrou em suas mãos o poder, sem que, entretanto, houvesse suprimido todas as prerrogativas do rei. O período da Assembleia Constituinte foi uma fase crítica da dualidade de poderes, período este que terminou com a fuga do rei para Varennes e que só foi formalmente liquidado com a proclamação da República. A primeira Constituição francesa (1791), baseada na ficção da independência absoluta dos poderes legislativo e executivo, em relação um ao outro, dissimulava, ou tentava esconder aos olhos do povo, a realidade de um duplo poder: o da burguesia, definitivamente entrincheirada na Assembleia Nacional, depois da tomada da Bastilha pelo povo, e o da velha monarquia, ainda apoiada pela alta nobreza, pelo clero, pela burocracia e pela casta militar, sem falar das esperanças na intervenção estrangeira. Nas contradições desse regime preparava-se a sua inevitável derrocada. Não havia saída senão o aniquilamento da representação burguesa pelas forças da reação europeia, ou, então, a guilhotina para o rei e a monarquia. [7]

Rumo à democracia plebeia

A persistência monárquica em conspirar com a aristocracia e a reação absolutista estrangeira que travou a guerra contra a França revolucionária [8] acelerou o processo, impedindo a via do pacto que a grande burguesia buscava e radicalizando a revolução. A dinâmica da dualidade de poderes, onde o rei exerceu continuamente seu direito de veto, dificultando a tarefa legislativa da Assembleia (enquanto conspirava a favor da guerra), desenvolveu-se de uma nova maneira desde a insurreição das massas parisienses que, em agosto 1792, invadiram o Palácio das Tulherias contra a conspiração monárquica. Foi quando a “Marselhesa” se tornou popular, um hino da guerra revolucionária que ficou conhecida porque foi cantada pelos representantes de Marselha que participaram da insurreição. Trótski disse sobre essa irrupção popular:

Que admirável espetáculo – odiosamente caluniado – o dos esforços das camadas plebeias para se elevarem do subsolo social e das catacumbas e penetrarem na arena interdita, onde pessoas de perucas e de calções decidiam os destinos do país. Parecia que os próprios alicerces, desmoronados pela burguesia cultivada, se reanimavam e se punham em movimento, e que da massa informe surgiam cabeças humanas, que se estendiam mãos calejadas, que ressoavam vozes roucas embora viris. Os distritos de Paris, cidadelas da Revolução, viveram a sua própria vida. Foram reconhecidos – seria impossível não reconhecê-los, que remédio! – e transformaram-se em seções. Mas invariavelmente derrubavam as barreiras da legalidade e recebiam um fluxo de sangue fresco trazido pelos elementos das baixas camadas, ao permitirem ingresso em suas fileiras, contra os ditames da lei, aos párias, aos pobres, aos sans-culottes. As municipalidades rurais, ao mesmo tempo, transformaram-se em abrigo da insurreição camponesa, contra a legalidade burguesa, que protegia a propriedade feudal. Desta maneira, por baixo da segunda nação, brotava uma terceira. [9]

A burguesia, que inicialmente não havia desejado a ruína da aristocracia, teve que seguir até o fim com a destruição da velha ordem, pressionada pela contrarrevolução e pela guerra, aliando-se às massas urbanas e rurais. As massas parisienses revolucionaram as assembleias de seção e entraram massivamente na Guarda Nacional, expandindo e popularizando sua base social. Como sintoma do novo estado de ânimo político das massas, a seção parisiense do Butte des moulins emitiu uma declaração dizendo: “Enquanto a pátria está em perigo, o soberano (o povo) deve estar à frente dos exércitos, à frente dos exércitos, dos negócios, em todo lugar [10]”. Assim irrompeu a democracia popular, a “democracia revolucionária das cidades”, dirá Trótski [11], que impulsionou a revolução e o governo da Convenção Nacional, uma assembleia eleita que concentrou as funções legislativas e executivas.

Após uma etapa inicial de disputa com o setor liberal moderado da burguesia portuária expresso no Partido da Gironda, a ala radicalizada da pequena burguesia expressa nos jacobinos se impôs, com Maximilien Robespierre e Jacques Danton [12] à frente. Essa etapa correspondeu ao regicídio de Luis XVI e à sanção da constituição republicana de 1793 – baseada no sufrágio universal masculino –, a mais avançado da época. Sua força motriz eram os sans culottes, pobres e trabalhadores manuais urbanos, que agiam sob a direção da pequena burguesia urbana – enquanto a impulsionavam –, dando uma perspectiva à luta travada pelos camponeses no mundo rural. Ao longo de cinco anos, em todas as etapas críticas da revolução houve revoltas dos camponeses franceses, que se recusavam a se acomodar entre os proprietários feudais e os burgueses, e os sans-culottes os libertaram das amarras do feudalismo quando deram suas vidas pela República. Como disse Trótski, “As municipalidades rurais, ao mesmo tempo, transformaram-se em abrigo da insurreição camponesa, contra a legalidade burguesa, que protegia a propriedade feudal”. A partir da convenção dominada pelos jacobinos, surgiu o Comitê de Salvação Pública em abril de 1793 – a ditadura jacobina – como organismo que centralizou as funções do governo no contexto de levante massivo pela guerra revolucionária contra a dupla reação interna e externa. A aliança com as massas populares foi expressa em medidas jacobinas, como a política de controle geral de preços para evitar a fome, a abolição sem indenização de todos os direitos feudais existentes, o confisco e a venda da terra dos emigrantes e a abolição da escravidão nas colônias francesas [13]. Esta última, que marcou uma reviravolta em relação à política anterior da Assembleia Nacional, que havia rejeitado os pedidos dos negros de São Domingo (atual Haiti) exigindo igualdade de direitos políticos com os brancos, condicionados não apenas pela radicalização do processo francês mas pela própria luta anticolonial das Antilhas – que por sua vez foi estimulada pelo processo francês. Mas a conquista da sua liberdade não dependeu de nenhum decreto francês [14], e sim veio após uma rebelião heroica, após a qual em 1804 a Revolução Haitiana se tornaria a única rebelião de escravos triunfante em toda a história da humanidade a conquistar a independência.

Mas a etapa mais radical, popular e democrático da revolução, a que expressava a “revolução dentro da revolução”, sustentava-se em uma aliança social contraditória que revelava que, se a pequena burguesia tivesse aceitado uma aliança social com os sans culottes, ela não teria assumido seus objetivos sociais nem métodos políticos. Os jacobinos se apoiavam nas massas populares não proprietárias (ou propriedades muito pequenas) e se conectaram com as necessidades e o estado de ânimo dessas massas nas condições impostas pela situação revolucionária geral. A planificação econômica exigida pelos sans culottes, cuja ideologia tendia ao igualitarismo social, foi implantado sob pressão das massas menos por concepção do que pelas necessidades impostas pela defesa nacional para alimentar, equipar e abastecer a população em armas nas condições impostas pelo bloqueio e pelo cerco da França. Mas a contradição acabou perfurando a base popular da ditadura jacobina, que finalmente caiu com o golpe de Estado do 9 termidor do novo calendário revolucionário (27 de julho de 1794), iniciando um processo de reação social e política (baseado nas conquistas centrais da revolução), que mais tarde levou ao restabelecimento do império por Napoleão Bonaparte.

Do jacobinismo burguês à revolução permanente

A Revolução Francesa foi uma revolução burguesa porque possibilitou a destruição da velha ordem econômico-social, proclamou a liberdade de empresa e lucro e varreu os obstáculos que restringiam o desenvolvimento capitalista. Sua mecânica social – isto é, a relação entre sua direção, suas tarefas e métodos – era burguesa pelas tarefas que levou adiante (varrer as amarras feudais) e pela sua direção política, que era a de várias camadas burguesas, entre as quais foi a pequena e média burguesia urbana que deram os golpes decisivos na velha ordem. É claro que a burguesia conquistou o desempenho das tarefas necessárias ao desenvolvimento burguês de maneira revolucionária, jacobina, dirigindo uma aliança revolucionária com o artesão, os pobres urbanos e os camponeses, que atuaram como força motriz do processo. Nesse sentido, a revolução camponesa e popular estava no centro da revolução burguesa e a impulsionou. A burguesia se colocou à frente desse “terceiro Estado” e atuou como representante dos interesses do conjunto da nação. Nesse sentido, Trótski afirma em sua obra Balanço e Perspectivas que: “A grande revolução francesa é, de fato, uma revolução nacional. Digo mais: aqui a luta mundial da ordem social burguesa por dominação, poder e vitória indivisa dentro da estrutura nacional se manifesta em sua forma clássica.” E continua:

O gigantesco esforço que a sociedade burguesa necessita para resolver radicalmente as contas com os senhores do passado só pode ser alcançado ou através da poderosa unidade de toda a nação que se revolta contra o despotismo feudal, ou através de uma evolução acelerada da luta de classes dentro desta nação em vias de emancipação. O primeiro caso ocorreu entre 1789 e 1793; toda a energia nacional que se foi acumulando na tremenda resistência contra a velha ordem, dirigiu-se completamente à luta contra a reação. [15]

Por que ela foi capaz de se colocar à frente da nação e atuar como um tribuno do “interesse geral”? Em primeiro lugar, deve-se notar que mesmo em sua “juventude histórica” a burguesia foi revolucionária por necessidade e não por opção. Viu-se empurrada aos métodos radicais porque o pacto com a nobreza e a monarquia que tentou inicialmente se mostrou impossível, com frações burguesas cada vez mais radicais se sucedendo no poder, em uma dinâmica de dualidade de poderes que impulsionou a dialética do processo até 1794. Mas, essencialmente, a burguesia conseguiu ser a representante dos interesses universais porque dirigia um bloco social que não podia desenvolver interesses sociais autônomos em relação a ela. O processo de diferenciação de classes não havia avançado ainda para que emergisse o seu antagonista social direto, o proletariado, como sujeito com interesses autônomos. Não existia um proletariado como tal, mas produtores urbanos que, no estágio da organização da produção e do trabalho, não eram social (ou subjetivamente) diferentes dos pequenos proprietários das oficinas. Isso tornou impossível o surgimento de trabalhadores ou produtores diretos como atores politicamente independentes, e de fato eles agiram sob o programa da pequena burguesia, defendendo a propriedade (com o ideal utópico de uma nação de pequenos proprietários e lojistas).

Aqueles que levantaram essa questão mais cedo foram os seguidores de Gracco Babeuf [16] com a conspiração dos iguais [17] que, em 1795, lançaram seu “Manifesto dos plebeus”, onde disseram: “Já podemos afirmar que os pobres desfrutam, como os ricos, da igualdade comum perante a lei; é uma simples sedução política. Não é uma igualdade mental o que o homem faminto ou necessitado precisa: ele tinha essa igualdade no estado natural”. A proposta para a abolição da propriedade privada burguesa pairava, mas com o limite da ausência de uma classe que pudesse efetivamente expressar e executar esse programa.

A mecânica expressa na Revolução Francesa foi transformada com o avanço do capitalismo e seu correspondente processo de diferenciação de classes, o que ficou evidente na forma que assumiu a luta de classes do século XIX. O proletariado já seria um ator importante o suficiente tanto em termos sociais como para espantar a burguesia, que, segundo Marx, “teria seu inimigo não apenas à frente, mas também atrás [18]”, e por isso ela se tornaria medroso e covarde, pactualista com a antiga nobreza. Enquanto a burguesia negou a re-edição de uma saída jacobina, a classe operária já era significativa o suficiente para entrar no processo com suas próprias demandas (“conquistando o terreno para lutar por sua emancipação, mas não a própria emancipação”, dirá Marx [19]), mas ainda era fraca para hegemonizar a revolução e direcioná-la para a construção de uma nova ordem social. Como expressão simbólica dessa situação transitória, o movimento revolucionário europeu do século XIX continuou a cantar a “Marselhesa” como um grito de guerra: burgueses republicanos, operários ou camponeses, todos cantavam da mesma forma. Assim, os revolucionários da Comuna de Paris de 1871 morreram cantando o mesmo hino que os soldados que os mataram.

Toda a atividade política e a elaboração teórico-política de Marx e Engels nessa época estiveram ao serviço de equipar o proletariado com novas táticas e um programa para a revolução sob as novas condições impostas pelo desenvolvimento da luta de classes. Em sua famosa “Mensagem do Comitê Central para a Liga dos Comunistas” de 1850, que partia do balanço do ciclo revolucionário aberto em 1848, eles declararam:

(...) nossas tarefas consistem em tornar a revolução permanente até que seja eliminada a dominação das classes mais ou menos possuidoras, até que o proletariado conquiste o poder do Estado, até que a associação dos proletários se desenvolva, não só num país, mas em todos os países predominantes do mundo, em proporções tais que cesse a competição entre os proletários desses países, e até que pelo menos as forças produtivas decisivas estejam concentradas nas mãos do proletariado. (...) Seu grito de batalha tem de ser: a revolução permanente. [20]]

Assim, esboçam uma dinâmica permanentista do processo revolucionário (no sentido do transcrescimento da revolução democrático-burguesa em direção à revolução socialista sob a direção da classe operária) que, embora ainda não pudesse ser implantada como um todo pelos limites da época, já marcava a tendência para a irrupção do proletariado no processo histórico da revolução burguesa. Essa dinâmica se rebelou na Comuna de Paris de 1871, desenvolveu-se na Revolução Russa de 1905 e se consumou na Revolução Russa de 1917, que resolveu a contradição deixada pelas revoluções anteriores, removendo os remanescentes feudais e avançando para estabelecer um governo dos conselhos operários e camponeses com base na expropriação da propriedade burguesa. Inspirada pelos ecos da “Marselhesa”, mas sob as novas condições político-sociais da era imperialista, a classe operária revelou-se a nova portadora das heroicas bandeiras da revolução que a burguesia não podia mais reivindicar para si.

Tradução: Iaci Maria

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FOOTNOTES

[1Foi precedida por revoluções ou revoltas na Inglaterra (1688-1689), Estados Unidos (1776-1783), Irlanda (1782-1784), Bélgica (1787-1790), Holanda (1783-1787). Ver Eric Hobsbawm, La era de la Revolución. 1789-1848, Buenos Aires: Crítica, 1999.

[2A queda de Turgot, primeiro ministro de Luis XVI, depois de fracassar em seu programa de modernização econômica e fiscal, simboliza o reforço dos privilégios da nobreza sob esse reinado

[3Idem, p. 62. Tradução nossa.

[4Albert Soboul, La Revolución Francesa, Madrid: Ediciones Orbis, 1987, p. 15. Tradução nossa.

[5Os Estados Gerais eram uma espécie de assembleia estamental de caráter consultivo, que em momentos excepcionais de crise podiam convocar os reis para trata de assuntos urgentes. A última reunião dos Estados Gerais havia sido em 1614.

[6A Assembleia Nacional surgiu da autoconvocação dos representantes do Terceiro Estado (mas onde também havia membros do clero e da nobreza) como órgão legislativo, reivindicando a representação já não mais dos estamentos, mas do povo francês. A partir de 1789, foi declarada como Assembleia Geral Constituinte, sancionando a Constituição de 1791.

[7Leon Trótski, A história da Revolução Russa, Volume 1, Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017, p. 232-233.

[8De 1792 a 1797, a França enfrentou uma guerra: uma coalizão (chamada Primeira Coalizão, porque seria seguida por outras) formada pela Áustria, Inglaterra, Prússia, Espanha, Províncias Unidas da dos Países Baixos, Reino da Sardenha e Reino de Nápoles.

[9Idem, p.233.

[10Albert Soboul, op. cit., p. 75.

[11Ver Juan Dal Maso, [Trotsky: jacobinismo y revolución, no Semanário Ideas de Izquierda, 2019.

[12Maximilien Robespierre (1758-1794), foi um advogado e intelectual burguês, principal dirigente da fração mais radical dos jacobinos. Ele presidiu a Convenção Nacional duas vezes e foi o membro mais proeminente do Comitê de Salvação Pública, órgão do governo da França, de 1793 a 1795. Georges-Jacques Danton (1759-1794) era advogado e dirigente do Clube Jacobino. Ele teve uma participação marcante na insurreição de 10 de agosto de 1792 e foi membro do Comitê de Salvação Pública. Ambos foram guilhotinados após a reação termidoriana de 1794.

[13Eric Hobsbawm, op. cit., p.77

[14Que acabaria sendo revertido por Napoleão Bonaparte, que em 1801 enviou um poderoso exército para restabelecer o domínio colonial e o regime escravo.

[15León Trotsky, “Resultados y Perspectivas”, em La teoría de la Revolución Permanente (compilación), Buenos Aires:CEIP, 2000, p. 77. Tradução nossa.

[16Gracco Babeuf (1760-1797) foi um político, jornalista e revolucionário que morreu na guilhotina por organizar uma conspiração para tentar derrubar o governo do Diretório. Considera-se sua concepção teórico-política, conhecida como babuvismo, como uma das precursoras do comunismo.

[17Tentativa de levante contra o governo conservador da Convenção em 1795.

[18Ver Karl Marx, Las luchas de clases en Francia. Tradução nossa

[19Idem.

[20Karl Marx e Friedrich Engels, Mensagem ao Comitê Central da Liga dos Comunistas, p. 3.
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