FÚRIA NEGRA

Reunião virtual do Quilombo Vermelho MG discute os desafios dxs negrxs e trabalhadorxs nos EUA e no Brasil

As negras e negros anticapitalistas do Quilombo Vermelho MG se reuniram virtualmente no último sábado, tendo como convidado Marcello Pablito, que é fundador do coletivo, trabalhador da USP e organizador do livro “A Revolução e o Negro”. Expressamos aqui um síntese das principais discussões.

terça-feira 23 de junho| Edição do dia

Atividade de fundação do Quilombo Vermelho. São Paulo, 2017. Foto: Juan Chirioca

Colaboradores do Esquerda Diário junto aos e às companheiras da juventude Faísca Revolucionária, do grupo de mulheres Pão e Rosas, do movimento Nossa Classe e do MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores), os negros e negras do Quilombo Vermelho apostam na luta negra anticapitalista. Com aquela reunião pretendiam entender o processo em curso nos Estados Unidos, assim como seus impactos e especificidades em outros países em geral e no nosso em especial, para refletirem melhor quais as vias de transformar radicalmente uma realidade massacrante para o conjunto dos oprimidos e explorados em plena pandemia. Assim foi aberta a atividade por Maria Eliza (Maré), estudante da UFMG e militante do grupo, que introduziu brevemente o tema antes que Marcello Pablito desse uma verdadeira aula de questão negra e marxismo.

Com a presença de trabalhadores da indústria, da educação, da saúde, informais, juventude secundarista, universitária, de cidades da região metropolitana como Belo Horizonte, Contagem, Betim, Ribeirão das Neves, Santa Luzia e também do interior, como Juiz de Fora e Varginha, toda a atividade foi marcada por ricas discussões. As perguntas e os apontamentos e reflexões passaram por diferentes conceitos teóricos, análises de conjuntura e situação nacional e internacional, assim como exemplos dos locais de trabalho e estudo e de batalhas com as quais os negros e negras precisam tirar as lições, sejam elas historicamente mais distantes, como as revoluções do século passado, ou mesmo as lutas mais recentes.

Por exemplo, foram citadas muitas vezes as lutas e greves das trabalhadoras terceirizadas da USP, processos dos quais Pablito fez parte enquanto trabalhador do bandejão e diretor do Sindicato dos Trabalhadores daquela universidade. As exposições do fundador do grupo anfitrião da reunião, além de suscitarem excelentes discussões durante a plenária, ajudaram a aumentar o interesses dos presentes acerca da teoria e prática dos marxistas e, particularmente, dos trotskistas no que tange a questão negra.


Campanha do Quilombo Vermelho, deliberada na última Plenária Nacional do grupo

Pablito começou detalhando o que é mais importante do processo em curso nos EUA: um processo com tendências à esquerda que, por ser no coração do imperialismo, fomentam processos com tendências à esquerda nos mais diversos países do mundo. Se trata de uma luta negra que tem apoio ativo dos brancos, em um país marcado por uma história brutalmente racista, e começa a ser tomada pelas mãos da classe trabalhadora, como pudemos ver com a paralisação de portuários ou mesmo as manifestações de enfermeiras em apoio ao movimento Black Lives Matter. Isso é muito importante, porque como o Marcelo explica, os marxistas não vêm raça e classe descolados, já que racismo e capitalismo nasceram juntos. Portanto, a fúria negra é um aporte fundamental para sacodir o movimento operário, assim como é um elemento de profunda qualidade que setores da classe trabalhadora superem qualquer corporativismo e adotem a luta em defesa das vidas negras.

Isso em si é um grande desafio para o racista, xenófobo, e presidente da maior potência capitalista do mundo, Donald Trump. É também um desafio para seu capacho no Brasil, Jair Bolsonaro. O fenômeno de derrubada de estátuas é sintomático de como a luta de classes pode impactar subjetivamente e com isso colocar em cena forças mais ou menos adormecidas que, se operam um giro contundente à esquerda nos EUA, o habilitam em países tanto do “centro” quanto da “periferia”. Identificar nas figuras colonialistas como Edward Colston, Cristóvão Colombo e Cecil Rhodes os inimigos dos negros traz à tona uma história escondida e mal contada pela burguesia: o imperialismo só pôde se dar porque foi antecedido pelo colonialismo, que permitiu o acúmulo de riquezas à burguesia de países de capitalismo desenvolvido, que hoje oprimem os povos de países de capitalismo atrasado.

O que isso tem a ver com racismo? Pablito explicou:

Se a gente for recorrer à história, vamos ver que o racismo é uma ideologia que foi criada artificialmente para justificar que os negros são inferiores aos brancos e à população europeia. Essa ideologia inicialmente recorreu a argumentos religiosos, depois a argumentos científicos - entre muitas aspas [...] - e não podemos vê-la separada desse sistema [...] porque não nasceram separados.

Com essa ideia ele introduz uma reflexão que nem sempre é óbvia e tampouco está contida na concepção de muitos e muitas lutadoras antirracistas sinceras. Se apoiando nas elaborações de historiadores revolucionários como CLR James e George Breitman, presentes no livro que ele organizou junto com Daniel Alfonso e Letícia Parks, Marcello explica como surgiu o preconceito contra o negro, que é posterior à escravidão. Ou seja: primeiro, existiu a necessidade da burguesia acumular riquezas e colonizar países; depois, essa mesma burguesia criou o racismo para justificar que, para suprir à sua necessidade parasitária, a solução encontrada foi sequestrar milhões de negros, transportar através dos mares, explorar o seu trabalho de uma forma absolutamente desumana pra lucrar ao máximo, e inclusive vender essa pessoas como mercadorias muitíssimo lucrativas.

Mas o racismo não acabou com o fim da escravidão. Não atoa Malcon X dizia que não existe capitalismo sem racismo. Hoje o racismo segue servindo para justificar uma condição na qual a classe dominante lucra sobre peles negras. Se manifesta na desigualdade de salário, de condições de moradia, saneamento, educação. E, para além de investir em criar um consenso de que seria natural essa desigualdade entre pessoas negras e brancas, a burguesia precisa ainda de um aparato repressivo para garantir sua dominação. É a polícia e o exército, pilares do Estado do burguês, que existem com a única função de proteger a propriedade privada dos capitalistas em detrimento de assassinar vidas negras e trabalhadoras.


Zona Autônoma de Capitol Hill, uma área cercada pelos manifestantes que não permitem a entrada da polícia e se auto-organizam. Junho de 2020. Foto: Forbes.

A reivindicação de fim da polícia é um ponto alto do processo que se dá nos EUA, porque mostra que uma considerável parte dos manifestantes compreendeu do que se trata essa instituição e que, portanto, não é possível reforma-la. O partido democrata tenta esvaziar o conteúdo radical dessas reivindicações, mas está lidando com um movimento negro que explodiu pela primeira vez no governo de Barack Obama, o presidente democrata negro que seguiu oprimindo os negros daquele país. Esse movimento negro está confluindo com uma juventude pró-socialista que faz agora uma experiência com outra figura democrata: Bernie Sanders, que não passa de um reformista com um discurso mais radical e que agora se curva à candidatura de Joe Biden – um político abertamente capitalista.

Para nós no Brasil essas ideias, que têm tomado movimento e aumentando o contato entre teoria e prática, são cruciais. Porque aqui mais do que nunca é preciso dar um basta ao racismo, e, portanto, lutar contra o capitalismo, seu Estado e suas instituições. A começar pelo executivo, com Bolsonaro e Mourão. Para nós não basta um impeachment que dê lugar ao exército brasileiro, responsável por um massacre dos nossos irmãos haitianos. O povo negro, trabalhador, o conjunto dos explorados e oprimidos precisam decidir, por isso lutamos por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que substitua Bolsonaro e Mourão.

Essa proposta existe porque também não confiamos no Congresso ou no Judiciário. Os governadores e prefeitos, por mais que se digam contrários a Bolsonaro (e no caso de Romeu Zema em MG, nem isso) nunca moveram uma palha para garantir condições de renda e saneamento para os negros se protegeram do coronavírus. Ao contrário, são os que enviam suas polícias para assassinar os negros nas periferias dentro de suas casas, e isso inclui aqueles do PT e do PCdoB no nordeste. Entendemos que, se levarmos até as últimas consequências a luta antirracista, não seremos nós a confiar ou alimentar a confiança em todos esses setores.

Como pontuado por um militante do Quilombo Vermelho que é trabalhador de uma indústria em Contagem, lutar contra o racismo também deve significar batalhar em cada sindicato pela unificação dos trabalhadores negros e brancos, o que burocracias sindicais e estudantis como a CUT, CTB e UNE acabam não fazendo na prática. Por isso é preciso retomar essas armas para as mãos da classe trabalhadora e dos estudantes para defender as demandas dos mais explorados e oprimidos: igualdade salarial, fim da terceirização, fim do vestibular, etc.

Isso faz parte da estratégia que, historicamente, foi a que mais se mostrou capaz de conduzir as lutas dos trabalhadores e trabalhadores e do povo à vitória, e mostra o contrário do que dizem alguns setores do Movimento Negro quando alegam que não se pode misturar luta negra e luta socialista. Negar aos negros o direito de se organizarem politicamente em seus sindicatos, entidades, partidos de esquerda – sobretudo se tratando daqueles revolucionários e comunistas – e expressarem suas concepções em todos os espaços possíveis, por exemplo em manifestações, como aconteceu recentemente em BH, serve apenas à burguesia. Nesse sentido, os negros não devem diminuir suas aspirações, ao contrário, devem se apropriar do marxismo como a arma que é para a ação revolucionária, afim de derrotar esses sistema e abrir caminho para o fim de toda exploração e opressão.


Negros e brancos em Mineapolis por justiça para George Floyd. Foto: Metrópoles.

Além disso, não é possível lutar contra o racismo sem envolver os trabalhadores brancos. Isso significa em primeiro lugar combater as atitudes racistas que reproduzem trabalhadores brancos para que esses desvios não impeçam a unificação com os negros. Mas de forma alguma pode passar por impedir que brancos se somem à luta antirracista. Pablito citou um emocionante exemplo que aconteceu na sua categoria enquanto ele era diretor do Sintusp, quando houve uma ofensa racista em maio a uma greve, mais com uma discussão muito profunda, e não com escracho ou algo do tipo, a trabalhadora branca se convenceu e pediu sinceras desculpas à trabalhadora negra, o que fortaleceu a relação de ambas com o sindicato e com as lutas da categoria.

Além disso, também foi discutido sobre a importância de que o povo negro tenha consciência da sua identidade e da sua história. Uma trabalhadora do comércio comentou sobre o passado negro de MG, que até hoje é um estado majoritariamente negro e marcado pelo trabalho precário e altamente perigoso na mineração. Mas não só de mortes pelo trabalho na mineração é marcada a história do povo negro mineiro, é também marcado por revoltas de norte a sul do estado, como e do Serro e de Carrancas, e é preciso trazer à atualidade essas histórias, pois, como disse CLR James “o único lugar onde os negros não se rebelaram é nos livros dos historiadores capitalistas”, e se a burguesia deturpa a história é porque ela pode inspirar milhares e milhares em um estado que foi e segue sendo “uma panela de pressão” que pode explodir em revoltas assim como os EUA.


Mariana - o primeiro município de MG foi também onde a Vale cometeu um grande crime ambiental e social em 2015. Foto: Bagagem de Bordo

A professora Zuca Falcão, dialogando com esses elementos, contribuiu com a discussão a partir de sua própria experiência como mãe de uma criança negra, professora precária e também militante marxista do Quilombo Vermelho. Comentou como as mulheres negras sentem o peso do conservadorismo da “família tradicional mineira”, da objetificação, da violência doméstica. Nas redes públicas, quanto mais precário o cargo maior a concentração de mulheres negras, como o caso dela, que não efetiva, e das ASBs. Essas trabalhadoras, quando são mães, enfrentam a precarização junto com suas crianças, com a falta de creches e de condições para garantir mais conforto a elas. Muitas estudantes mães mal conseguem completar os seus estudos para ter melhores empregos. E na educação também existem as burocracias sindicais que muitas vezes mais atrapalham que ajudam a luta dessas trabalhadoras.

Ela diferenciou os trabalhadores dos policiais, pois, como aconteceu em BH, a classe trabalhadora mais precária apoia as manifestações contra o racismo, em outros países isso também se mostrou. Enquanto os policiais estão sob mando do Estado para reprimir essas lutas e matar os filhos dos negros dentro de suas casas. As mães de crianças negras vêm casos como o de João Pedro e o de Miguel e pensam nos seus filhos. Outras mães e pais presentes na reunião, emocionados, concordaram.

Mas o marxismo a fortaleceu e pode fortalecer esse batalhão de mães, negras, trabalhadoras, pois é uma ferramenta para se unificarem. Zuca disse que conhecer as experiências passadas de sua classe, como a da Revolução Russa, a ajudou a pensar suas batalhas cotidianas no seu local de trabalho para não se resignar, e terminou dizendo que apesar da preocupação com sua filha, tem convicção de que esse batalhão de mães que perderam seus filhos vai se levantar contra esse sistema e juntas vão colocar tudo abaixo e construir outra sociedade, por isso se dedica à militância junto a seus companheiros e companheiras diariamente.

Após esse relato inspirador, Marcello Pablito fez sua saudação final, dizendo que neste momento dramático, em que os capitalistas não estão em guerra contra o vírus mas contra a classe trabalhadora, é preciso confiar nas nossas forças e não partir do zero, mas ao contrário: prezar pela apropriação teórica e histórica para ter uma atuação prática que dê passos à frente. O Quilombo Vermelho e o MRT estão a serviço disso, no dia 1º de julho o Esquerda Diário estará a serviço da luta dos aeroviários da LATAM, que estará deixando na rua milhares de famílias, e também a serviço da paralisação internacional de trabalhadores de aplicativos.

Odete Cristina, dirigente do Quilombo Vermelho, encerrou a atividade com um chamado a que todos os presentes, negros e brancos, se organizassem, seja no Quilombo Vermelho, seja no Comitê do Esquerda Diário em MG, pois essa força e essa organização é o que pode fazer os capitalistas pagarem pela crise que vivemos e fazer justiça por todos os mortos pela pandemia, pelas balas da polícia e pelo lucro dos patrões.

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