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Retrospectiva Meio Ambiente: de Brumadinho à crise Amazônica, os sintomas de uma catástrofe iminente

terça-feira 24 de dezembro de 2019| Edição do dia

Desde o início até o final do ano de 2019 a questão ambiental esteve em evidência tanto nacional quanto internacionalmente. A assustadora recorrência de enormes tragédias ambientais aponta para o caráter cada vez mais iminente da catástrofe ecológica que a perpetuação da exploração predatória capitalista reserva a humanidade e ao meio ambiente. Apenas em território nacional tivemos: o criminoso rompimento da barragem de Brumadinho; o explosivo recorde de queimadas na floresta amazônica; e o inexplicável vazamento de óleo nas praias do Nordeste.

Em cada um desses episódios mais uma vez testemunhamos a demagogia por parte dos políticos, que muitas vezes discursam em nome da sustentabilidade, enquanto estão atrelados aos interesses dos capitalistas do agronegócio, da mineração e das indústrias. Os próprios capitalistas tentam emplacar um discurso de “capitalismo verde”, ao mesmo tempo que são os responsáveis diretos pelas grandes tragédias ambientais.

Por outro lado, também assistimos a emergência do obscurantismo da extrema-direita internacional, que no debate da questão ambiental prega posições anti-científicas, como o terraplanismo e a negação do aquecimento global. Trump e Bolsonaro são os principais porta-vozes desse discurso explícito de devastação ambiental.

Coube a juventude, que enxerga nitidamente o futuro distópico que se avizinha, contrapor tanto a demagogia dos políticos tradicionais quanto o obscurantismo da extrema-direita, alertando para a urgência do tema através das mobilizações conhecidas como “Greves pelo Clima”.

Como vemos, foi um ano bastante movimentado no debate da questão ambiental e particularmente intenso em um setor de massas que começou a ver como a luta contra a degradação ambiental é uma luta vinculada ao anticapitalismo, superando os limites de campanhas centradas nas corretas e mesmo necessárias, mas completamente insuficientes medidas de alteração no consumo individual. Tratemos de recuperar os principais episódios deste ano:

Brumadinho: a reincidência do crime ambiental

Logo no começo do ano e no início da gestão Bolsonaro ocorreu a tragédia de Brumadinho, em que mais uma vez a irresponsabilidade da mineradora Vale, sedenta por assegurar os lucros de seus acionistas, provocou a morte de mais de 270 pessoas com o rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão. A mesma empresa que já carregava a terrível responsabilidade pelo maior acidente ambiental da história do país, com a queda da barragem em Mariana há 4 anos, conseguiu reincidir em seu crime, numa demonstração do verdadeiro desprezo da mineradora e seus acionistas pelo meio-ambiente e pelas vidas humanas, a maioria de trabalhadores efetivos e terceirizados mortos no que é também o maior acidente trabalhista da história. Documentos revelam que a cúpula da Vale tinha conhecimento dos riscos de rompimento da barragem e os impactos consequentes.

Brumadinho se soma a Mariana como dois enormes marcos do desastre que a exploração mineral posta sob gestão de empresas privadas (e privatizadas), voltadas unicamente para obtenção em primeiro do lugar do lucro pode acarretar tanto para o meio ambiente quanto para a vida dos trabalhadores e da comunidade local. Passado quase 1 ano desse crime, não houve a punição dos executivos da companhia, diretamente responsáveis pela tragédia. Esse crime não pode passar impune. É preciso lutar pela reestatização da Vale sob gestão dos trabalhadores e controle popular, única forma de assegurar que as imensas riquezas provenientes da extração mineral estarão a serviço dos interesses gerais da população.

Relembre os principais fatos dessa tragédia capitalista junto de nossas matérias:

Vale sabia desde 2017 sobre risco de ruptura na barragem em Brumadinho

Além de rastro de lama e mortes donos da Vale devem milhões para a Previdência Social

Em MG, manifestantes protestam contra a Vale e exigindo justiça pelas mortes em Brumadinho

Brumadinho escancara: as universidades devem estar a serviço dos trabalhadores!

Crise da Amazônia: a fúria incendiária do agronegócio

Outro crime ambiental alarmante ocorrido este ano foi a explosão dos focos de incêndio na Amazônia. Legitimados pelo discurso de Bolsonaro, que despreza a questão ambiental, os ruralistas promoveram índices recordes de queimadas na região. A ação tão extrema dos ruralistas, que convocaram até um Dia do Fogo em apoio a Bolsonaro, provocou um episódio surreal como o “anoitecer antecipado” visto em muitas cidades do sudeste resultante do corredor de fumaça formado pelas queimadas.

A investida brutal dos ruralistas tinha como objetivo buscar capitalizar a janela de oportunidade aberta pela guerra comercial entre China e EUA, em que o agronegócio brasileiro se beneficiava da taxação da soja estadunidense pela China e tinha caminho livre para abastecer a voraz demanda chinesa. Em 2018, o primeiro ano da guerra comercial, as exportações brasileiras para a China cresceram 35% na comparação com 2017, gerando uma balança comercial positiva para o Brasil em US$ 30 bilhões. A soja foi a maior beneficiada, com uma exportação adicional de US$ 7 bilhões para a China, na comparação com 2017.

Veja mais: “O fortalecimento do espaço político do agronegócio está em curso” – Entrevista com Mariana Chaguri

Dessa forma, a Amazônia tornou-se palco das disputas geopolíticas globais, com outros atores imperialistas buscando assegurar seus interesses na região. Fruto da composição do agronegócio nacional, cuja financeirização oculta a participação do capital imperialista de diversos países. As quatro traders que dominam o país são as americanas Cargill e ADM, a francesa Dreyfuss e a holandesa Bungee. Essas 4 empresas sozinhas detém 80% do comércio de soja do Mato Grosso, mas encontram crescente concorrência da chinesa COFCA, da russa Sodrujestevo, da japonesa Mitsui e do grupo Amaggi, de Blairo Maggi, ex-governador de Mato Grosso. Essas empresas imperialistas comercializam sementes produzidas por empresas de capital europeu, como a alemãs BayerCropScience que adquirIu a francesa Monsanto. Até mesmo o supostamente ecológico capitalismo norueguês lucra com a devastação brasileira, a maior empresa de fertilizantes do mundo, a estatal norueguesa Yara, tem mais de 25% de seu faturamento mundial no mercado brasileiro.

Relembre nossas matérias sobre as disputas imperialistas na Amazônia:

A Amazônia sob o fogo de diferentes projetos capitalistas

A crise amazônica como marco para refletir o lugar do Brasil nas disputas internacionais

Fogo bolsonarista e foco imperialista na Amazônia

A partir desse marco de disputas de interesses de gigantescos conglomerados imperialistas que podemos compreender as declarações “preocupadas” e intervenções dos políticos europeus, que tiveram como principal porta-voz o presidente francês Emmanuel Macron. Soma-se a defesa dos interesses comerciais, a vontade de desgastar e confrontar um aliado de Trump e representante da internacional direitista. Enquanto os políticos europeus mantém a demagogia do discurso de “capitalismo verde”, Trump e Bolsonaro são mais explícitos na atual necessidade do capitalismo de intensificar a exploração predatória dos recursos naturais.

Entretanto, não só a Amazônia vive o acirramento dos conflitos por terra no país. Uma herança histórica do país as disputas por terra, com o contínuo avanço do agronegócio e da fronteira agrícola, junto da expulsão e massacre dos indígenas, além da desapropriação das terras dos pequenos produtores por grileiros, teve uma inflexão no governo Bolsonaro. A política agrícola do atual governo consiste em dar instrumentos, até mesmo armas, através da legalização da posse no campo, para que os ruralistas avancem sobre as reservas indígenas e pequenas propriedades. Bolsonaro chegou ao cúmulo de delegar ao Ministério da Agricultura a tarefa de demarcação de terras, o que até o reacionário STF teve que impedir. Dessa forma, testemunhamos no ano o recorde de assassinato de lideranças indígenas, como foi o caso de Paulino Guajajara, além de outras lideranças da luta por terras. A legalização do garimpo em terras indígenas e a “reforma agrária” sob responsabilidade do reacionário presidente da União Democrática dos Ruralistas são outro projetos de Bolsonaro para o campo que prometem incendiar ainda mais os conflitos por terra no país.

DECLARAÇÃO DO MRT: Amazônia: É preciso dar um basta à sanha predatória de Bolsonaro e dos capitalistas

DECLARAÇÃO DA FAÍSCA: Não é fogo, é capitalismo

EDITORIAL: Por uma saída revolucionária e anticapitalista diante da crise ambiental na Amazônia

As inexplicáveis manchas de óleo no litoral brasileiro

Por fim, a mais recente e ainda inexplicável tragédia ambiental ocorrida no país, trata-se do aparecimento de manchas de óleo no litoral brasileiro. Desde o aparecimento das primeiras manchas de petróleo cru nas praias da Paraíba, no dia 30 de agosto, mais de 4,7 mil toneladas já foram recolhidas em mais de 972 pontos, numa área que abrange todo o litoral do nordeste até resquícios da substância encontrados em praias do Rio de Janeiro. Praias paradisíacas e reservas ecológicas, junto a sua fauna e flora, foram parte do imenso patrimônio natural impactado pelo desastre.

Ainda que a responsabilidade direta pela catástrofe mantenha-se em aberto, a atuação pífia do governo expõe mais uma vez a negligência em relação a questão ambiental. A demora na implementação de um plano de contingenciamento do vazamento - apenas 41 dias após a tragédia o ministro Ricardo Salles acionou o plano - obrigou que a própria população combatesse de forma corajosa porém arriscada e improvisada o óleo encontrado nas praias. Além disso, o governo meses antes da tragédia havia extinto os comitês de ação contra incidentes de óleo. O que dizer da declaração do Secretário de Pesca alegando que o impacto ambiental seria pequeno pois os peixes seriam inteligentes para desviar da substância?

O desastre das investigações até o momento também têm de ser lembrado. A primeira reação de Bolsonaro foi tentar faturar ideologicamente com a tragédia culpando sem provas a Venezuela pelo vazamento. Depois coube ao ministro Ricardo Salles apontar o dedo para ONGs como o Greenpeace, em mais uma tentativa de criminalização dos ativistas. A última etapa da investigação da PF apontou um navio grego como o responsável, fato já desmentido pelo Ibama.

O contraste entre o ativismo do governo Bolsonaro para assegurar a entrega das imensas riquezas das reservas marítimas brasileiras de petróleo e a paralisia no combate a uma imensa tragédia como essa escancara sua negligência em relação a questão ambiental. A exploração do petróleo que deveria ser uma questão estratégica tomada pelo conjunto da sociedade, também pela preocupação em torno da questão ambiental; através da sanha privatista e entreguista do governo perde qualquer capacidade de gerenciamento estatal. Somente uma Petrobras 100% estatal e gerida pelos seus trabalhadores sob controle popular pode assegurar que a exploração do petróleo não se voltará contra a própria população e o meio ambiente.

Relembre os principais fatos dessa tragédia e nossas principais matérias:

Governo ignora óleo nas praias do nordeste e não aciona o Plano Nacional de Contingência

Já são 695 número de localidades afetadas por óleo no Nordeste e ES

Pescadores ocupam sede do Ibama contra negligência do governo com óleos nas praias

5 tragédias do petróleo e uma possibilidade de revolta

Óleo que contaminou nordeste chega ao Rio de Janeiro e negligência de Bolsonaro é gritante

“Não temos planeta B”: a juventude se mobiliza pelo futuro do planeta

Não só de notícias catastróficas se fez o ano na agenda ambiental. Os ventos novos vieram por parte da juventude que ergueu em todo o globo enormes mobilizações, as chamadas “Fridays for Future” (“Sextas pelo Futuro”), em que denunciaram a emergência climática e cobraram ações imediatas por parte dos líderes mundiais.

Principalmente na Europa, capitais como Berlim, Madri e Londres tornaram-se palcos de massivas mobilizações de dezenas de milhares -principalmente de jovens- e até centenas de milhares, como no mais recente ato em Madri, que levou 500 mil pessoas às ruas para protestar contra a COP25, a conferência climática entre os países, realizada na capital espanhola por medo da rebelião popular no Chile.

O fato da juventude se mobilizar contra a barbárie da destruição ambiental é um fato enormemente auspicioso. Além disso, a incorporação do método de greve para visibilizar suas demandas e o chamado ao conjunto das organizações da sociedade civil, inclusive chamando os sindicatos a organizar paralisações dos trabalhadores, é algo inovador que não se fizera antes e que dá mais força ao movimento.

Frente às “potencias infernais” que o capitalismo gerou e cujas consequências se tornam hoje inevitáveis, as e os jovens que impulsionam o movimento “Fridays for Future” e outras plataformas similares são cada vez mais conscientes desta realidade e, ainda que de um modo muitas vezes abstrato, denunciam o sistema capitalista como causador da crise atual.

Entretanto, falta um programa definido e uma estratégia para superá-lo. Sua perspectiva se reduz a uma denúncia e exigência aos representantes políticos capitalistas para que tomem medidas urgentes ou a abraçar as propostas dos chamados “partidos verdes”, como impostos sobre o consumo o que pode fraturar a relação dessa juventude com setores da classe trabalhadora e das massas, esse avanço ideológico é um grande passo adiante mas é preciso apontar decididamente contra os interesses e a propriedade dos mais responsáveis pela situação: as grandes corporações e multinacionais capitalistas.

Relembre os principais atos pelo mundo convocados pelo movimento Greves pelo Clima:

“Greves pelo clima”: centenas de milhares de jovens se mobilizam em todo o mundo

Centenas de milhares de jovens tomaram as ruas de Nova York contra a crise climática

Rebelião pelo clima: ações e acampamentos em dezenas de cidades ao redor do mundo

Um programa transicional anticapitalista para evitar a catástrofe

Frente a uma perspectiva absolutamente irracional diante da qual nos coloca o capitalismo, é evidente a necessidade de medidas drásticas e urgentes. Porém, estas não podem depender da boa vontade dos governos das potências imperialistas que são os principais responsáveis pelo desastre atual, nem tampouco das novas agendas impulsionadas pelas grandes corporações e pelos partidos promotores do “capitalismo verde”.

A única saída frente a catástrofe que nos ameaça é tomar o presente e o futuro em nossas mãos mediante uma planificação racional da economia mundial ou, como diria Marx, mediante “a introdução da razão na esfera das relações econômicas”. Esta só é possível se a planificação da economia se encontrar nas mãos da única classe que, por sua situação objetiva e seus interesses materiais, tem interesse em evitar a catástrofe: a classe trabalhadora.

Em nosso século, as condições da época da crise das crises, guerras e revoluções se atualizam, com a classe operária e os povos do mundo enfrentando não apenas a barbárie da guerra e a miséria, mas as catástrofes ambientais e a potencial destruição do planeta. Um projeto verdadeiramente ecológico que enfrente a crise ambiental a qual nos conduz o capitalismo só pode existir se for comunista e se a classe trabalhadora, aliada ao conjunto dos setores populares, se disponha subjetivamente à vanguarda de impô-lo mediante a luta revolucionária, contra a resistência dos capitalistas.

DECLARAÇÃO DA FT: O capitalismo destrói o planeta, destruamos o capitalismo




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