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Retrospectiva Cinema LGBT Brasileiro: entrevista com Lufe Steffen

"Considerando que muitas vezes os setores governamentais tiram o corpo fora na hora de cuidar desses assuntos (criminalização da homofobia e debate de gênero e sexualidade nas escolas), a sociedade e a classe artística acabam fazendo um papel de “guerrilha”, no sentido de tentarem informar a população, de passar uma mensagem, de furar o cerco das produções mais hegemônicas e transmitir algo que possa ser revolucionário", afirmou Lufe Steffen ao Esquerda Diário.

sexta-feira 11 de março de 2016| Edição do dia

O Esquerda Diário divulgou na semana passada a mostra “Retrospectiva Cinema LGBT Brasileiro 1995-2015: O Cinema Que Ousa Dizer o Seu Nome” e agora traz uma entrevista com o cineasta Lufe Steffen que organizou a mostra e nos conta um pouco sobre sua trajetória, produções e a cena de cinema LGBT no Brasil.

Esquerda Diário: Você poderia se apresentar e nos contar um pouco da sua trajetória no cinema?

Lufe Steffen: Sou Lufe Steffen, me formei em Rádio & Televisão em 1998 e depois estudei cinema em cursos livres e de forma autodidata. Comecei dirigindo curtas-metragens, o primeiro foi em 1997. De lá para cá foram nove curtas no total, e dois longas – que são dois documentários, “A Volta da Pauliceia Desvairada” e “São Paulo em Hi-Fi”, ambos sobre a noite gay de São Paulo.

Esquerda Diário: A "Retrospectiva Cinema LGBT Brasileiro 1995-2015: O Cinema Que Ousa Dizer o Seu Nome” é um desdobramento do livro “O Cinema Que Ousa Dizer o Seu Nome”. Como se deu a organização da mostra e os contatos com os cineastas que participam dela?

Lufe Steffen: A mostra surgiu como um projeto paralelo ao livro. A ideia era que a mostra trouxesse um curta de cada diretor entrevistado no livro. Eu já conhecia, mesmo que informalmente, ou superficialmente, os diretores, e aí depois de entrevistar cada um convidei os curtas respectivos.

Esquerda Diário: Em seu livro você entrevista 20 cineastas brasileiros que fazem seus filmes apresentando temáticas ligadas ao universo LGBT . É possível afirmar que exista uma cena independente de cinema LGBT consolidada no Brasil? Como você vê essa produção cinematográfica e quais são os entraves para seu desenvolvimento?

Lufe Steffen: Sim, é possível. Acho que essa cena nem é mais tão independente assim, pois atualmente muitos filmes de temática LGBT têm bastante suporte, recursos, infra. O tema gay deixou de ser necessariamente sinônimo de coisa underground ou “cult”. Essa produção está aí, é uma realidade, e muitas coisas legais têm sido feitas. Entraves? Acho que os filmes brasileiros em geral, independente do tema, enfrentam os mesmos entraves: obstáculos na captação de recursos, na realização e principalmente na distribuição. Hoje em dia é até relativamente fácil fazer um filme, o difícil é exibir.

Esquerda Diário: Sabemos que boa parte dos filmes assistidos no Brasil ainda são aqueles produzidos em Hollywood e que inclusive não possui, em sua maioria, protagonistas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Como você vê essa questão?

Lufe Steffen: Não acho que Hollywood esteja tão distante desses temas e desses protagonistas, não. Acho até que a indústria de cinema dos EUA consegue ser bem plural para seus temas. Mas é claro que não tem comparação com o Brasil, porque a indústria de Hollywood é imensa, então sempre vai ter espaço para todo tipo de filme e de temática. Acho que os EUA, desde meados dos anos 70, tem conseguido representar bastante coisa do universo LGBT. Diante disso, o Brasil também tem avançado, embora mais devagar.

Esquerda Diário: É possível afirmar que num país como o nosso, em que milhares de LGBTs são assassinados todos os anos e que inclusive o governo federal retirou da pauta a criminalização da homofobia e o debate de gênero e sexualidade nas escolas, o cinema pode cumprir um papel importante no combate a essas violências e supressões de direitos? Como?

Lufe Steffen: Sim, eu acredito nisso. Considerando que muitas vezes os setores governamentais tiram o corpo fora na hora de cuidar desses assuntos, a sociedade e a classe artística acabam fazendo um papel de “guerrilha”, no sentido de tentarem informar a população, de passar uma mensagem, de furar o cerco das produções mais hegemônicas e transmitir algo que possa ser revolucionário. Então tem muita gente fazendo isso, seja no cinema, na literatura, no teatro, nas artes plásticas e até na TV. E a internet acaba ajudando, porque muitos projetos amadores e / ou sem verba suficiente acabam sendo exibidos na internet e com isso alcançam um público muitas vezes espantoso. E aí, dentro disso, acredito que muita gente vai refletir e talvez mudar seu pensamento, se abrir para a realidade.

Esquerda Diário: Outra situação que vivemos no Brasil é o aparecimento superestrutural de figuras reacionárias como Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano e Eduardo Cunha que, por meio do discurso de ódio, criam um cenário de opressão e violência contra os LGBTs e outros setores da sociedade. Nesse cenário, é possível uma articulação da arte do cinema com as lutas por direitos dos LGBTs? Na sua visão como esse tipo de produção é realizada no Brasil?

Lufe Steffen: Novamente cito o que falei na resposta anterior. Tem muita gente fazendo isso, tentando combater essas figuras tenebrosas que você citou, através da arte e de vídeos na internet, vídeos de debates, de discursos, onde as pessoas defendem o empoderamento de cada indivíduo. O cinema entra nisso também. Muitos filmes, curtas ou longas, principalmente documentários, têm feito um trabalho incrível que a longo prazo terá feito a diferença. Já está fazendo. A gente não consegue visualizar direito porque estamos no olho do furacão, mas talvez daqui a 20, 30 anos, quando olharmos pra 2014, 2015, 2016, vamos perceber que tudo isso fez diferença sim. Então essas iniciativas, seja no teatro, seja no cinema, nas artes visuais, combinadas muitas vezes a seminários, debates e encontros militantes, vão criando uma espécie de “sociedade paralela”, que está vigilante nas redes sociais, no cotidiano, buscando uma democracia maior. Um país melhor. Será ingenuidade? Não sei, mas prefiro acreditar que pode ser possível. Como diz a música “Caçador de Mim”: “Nada a temer senão o correr da luta... Nada a fazer senão esquecer o medo...” Essa música sempre me estimulou e me emocionou. É isso.




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