Política

ELEIÇÕES 2016

Retrato eleitoral de um regime político em crise

O que mostram as pesquisas eleitorais? O que estas eleições importam em meio à grave crise política do país?

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

sexta-feira 26 de agosto| Edição do dia

Hoje começou o horário eleitoral gratuito, com os jogos das alianças eleitorais e a desigual distribuição de tempo para favorecer os partidos da ordem (e excluir a esquerda) o quadro pode e deve sofrer alterações. No entanto, a primeira fotografia do início dessa corrida eleitoral é bastante desanimadora para o regime político. Tudo que parecia sólido anos atrás parece ter se desmanchado no ar. O PT sofre eleitoralmente o desgaste dos ataques que Dilma aplicou e o ataque diário da mídia. Mas quem pensava que esta era a eleição tucana também se surpreende com o que as pesquisas têm apontado.

O retrato, com todos os matizes permitidos em um país continental e em eleições municipais que exacerbam traços locais da política, é, mesmo assim um cenário que exemplifica o que temos chamado de “crise orgânica” recorrendo à categoria de Gramsci.

A crise de representatividade atinge aqueles que são mais identificados com a “ordem”, abrindo espaço a novas ideias à esquerda e a direita. Pode ser que a evolução do quadro eleitoral minimize este retrato quando chegar a prova dos 9 nas urnas, mas a ocorrência de uma violenta oscilação eleitoral, como a que vimos em 2014 com os votos de Marina, é antes uma expressão dessa crise que uma negação da mesma.

As eleições como medição das forças e das saídas para um regime em crise

Com a iminente consolidação do golpe institucional com a votação do impeachment no Senado o campo de batalha das forças políticas do país se desloca parcialmente de Brasília aos municípios. Através de seus políticos de turno os empresários medem, indiretamente, a correlação de forças entre as classes e suas frações. Mas em uma situação de crise como a que vivemos há algo de “vale tudo” no ar.

O impeachment está longe de resolver a crise. Novos movimentos e convulsões no “partido judiciário” alarmam para continuidade, se não exacerbação da crise, com divergências entre o ministério público e o STF [saiba mais sobre esta crise lendo esta matéria], e a novidade da abertura de inquérito contra Lula. Por outro lado, se vê movimentos tucanos contra o governo Temer e já começam a aparecer com importante destaques nos grandes jornais do país ameaças de ruptura, reais ou para aumentar a pressão para ataques contra os trabalhadores, o regime está embaralhando suas cartas e cada pequeno cacique, de toga ou púlpito parlamentar se joga no campo como um pequeno césar.

Deste modo os tucanos paulistas, com sede ao pote, se dividiriam entre Serra e Alckmin em uma prévia de 2018. Sua divisão se expressa através de Doria e Matarazzo como vice de Marta, a mais notória das centenas de trânsfugas petistas país à fora (sobretudo prefeitos tentando reeleição, como é o caso de Rodrigo Neves em Niterói no RJ e Cartaxo em João Pessoa na Paraíba). País à fora grande, médios e pequenos caciques partidários trocaram de legenda e encaram essas eleições como uma oportunidade ímpar para suas ambições de 2018.

A mãe de todas batalhas: São Paulo

O maior colégio eleitoral do país é a mãe de todas as batalhas. Nele os tucanos divididos apostam suas fichas oficiais num tipo de candidatura que eles e outros partidos patronais tentaram emplacar pelo país, pequenos “Macris”, empresários com pouca experiência na política. Até o momento sem sucesso, seja com Doria e seus patéticos 6% nas últimas pesquisas ou até mesmo no melhor colocado Nelson Marchezan Jr de Porto Alegre com 12% (isso com a ajuda do forte PP gaúcho que vai de vice).

O PMDB de Temer joga suas fichas de 2018 parcialmente com Marta, sendo sua aposta principal que Temer sobreviva até o final do mandato golpista sem chegar odiado e a dura batalha carioca, onde só o pesado dinheiro (de origens questionáveis) levantado pelo agressor Pedro Paulo pode lhe retirar do patético quinto lugar.

O PT tem uma batalha importantíssima em São Paulo, seu mais “moderninho” prefeito amarga um terceiro lugar com Erundina. Repressor da juventude em junho de 2013 junto ao tucano Alckmin e com dificuldades na periferia onde a lembrança de Marta ou Erundina em muito superam suas ciclofaixas, tem uma dura batalha à frente. Terá que fazer a experiente Marta perder base e roubar por voto útil contra Russomano os votos de Erundina.

Na cidade que sozinha pesa com quase 10% dos eleitores do país joga-se a mãe das batalhas para medir quem consegue melhor capitalizar o tremendo descrédito do PT, mais acentuado na capital paulista que praticamente em qualquer lugar do país. E por hora nada parece indicar que serão os tucanos ou alguma expressão mais “orgânica” do regime.

Um PT gravemente ferido pode se recuperar escondendo o golpe ou por voto útil?

Um dos mais notórios fenômenos que as pesquisas revelam, visível a olhos nus nas eleições do país é a crise do PT. O PT tem três candidatos competitivos nas principais cidades do país todo, em Recife onde lideram, em Porto Alegre em segundo lugar com Raul Pont (18%). Com muito suor poderão tornar Haddad um terceiro. O retrato deve fazer soar alarmes tão altos como os buchichos do novos passos do golpista, autoritário e arbitrário Moro.

Como retrato das primeiras pesquisas feitas antes do horário eleitoral, antes dos primeiros debates na TV ainda há margem para o PT se recuperar. Mas o “suor” que terá que colocar para fazê-lo, seja minimizando o golpe para tentar atrair um setor favorável ao impeachment (como tentou Haddad, ou tenta Grana na importante Santo André no ABC paulista), ou buscando oferecer-se como alternativa de esquerda mais moderada que o PSOL, o PT parte de muito atrás.

Perdeu candidatos para outros partidos, abriu mão de outros tantos na defensiva e onde concorre, na primeira fotografia das pesquisas está atrás do PSOL e às vezes até mesmo do “golpe-friendly” PSTU. O PT empata ou localiza-se atrás destes partidos em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba, Natal e Campinas, isso sem contar aquelas cidades onde não lançou candidato.

Está por se ver o desempenho do PT em cidades onde sempre mostrou um grande peso, mas que teve inauditas derrotas em 2014 como Contagem (onde agora aliam-se detrás do PCdoB), Santo André e São Bernardo no ABC Paulista, nestas duas últimas as pesquisas de meses atrás mostravam uma debilidade imensa que torna o vizinho Haddad competitivo.

A experiência com o PT e o empate ou liderança de alternativas de esquerda ao partido de Lula mostra parte do fenômeno de “abertura à ideias a esquerda” que falamos.

Nem o PSDB nem o PMDB estão bem para capitalizar a outra parte do fenômeno: abertura à direita

Como já mostramos acima, o PMDB não está com cenários muito fáceis em suas duas principais eleições, Marta em São Paulo e Pedro Paulo no Rio. Os tucanos também amargam dificuldades. Dos seus atuais prefeitos em cidades importantes somente Artur Virgílio lidera em Manaus. Em São Paulo exibem um dos piores resultados em sua história. O somatório tucano-petista que em tantos anos somou mais de 60% nos primeiros turnos agora soma “expressivos” 15%. Em Belém do Pará o candidato tucano à reeleição está em terceiro lugar, em Maceió estão empatados na liderança.

Lideram em Belo Horizonte com o ex-presidente do Atlético Mineiro e apadrinhado de Aécio, o que promete embolar a sucessão tucana se os dois príncipes paulistas fracassarem em suas empreitadas.

O espaço à direita, a abertura novas ideias está até o momento sendo melhor capitalizado por políticos mais tradicionalmente de direita, mais ligados a pautas conservadoras e igrejas evangélicas, como é o caso de Russomano em São Paulo (31%) e Crivella (28%) no Rio.

O tucanato se espreme entre manter suas velhas figuras e renovar-se apresentando uma cara empresarial (tipo Dória em SP, Marchesan Junior em Porto Alegre, Alex de Freitas em Contagem, etc). Seus únicos sucessos, até o momento, estão em alternativas mais profissionais como apresentar um dirigente de time de futebol ou a velha raposa manauara.

Crise do regime e oportunidades à esquerda

Evidentemente, há exceções à regra. Como o PT liderar Recife, e também ACM Neto (DEM) com imponentes (68%) liderando Salvador. Mas são exceções que confirmam a regra. Pode ser que o desenrolar do processo diminua esse quadro de crise do regime e aumento da crise de representatividade expressa nas dificuldades eleitorais do trinômio de sustentação do regime de 88: PT, PSDB e PMDB.

O eleitorado parece ansiar por novas ideias, seja elas com evangélicos e carismáticos (e direitistas) apresentadores de TV ou com novos reformismos como Freixo ou a reciclagem de um socialismo que chegou a ter Temer como vice, como é Erundina.

Não está dado de antemão que será a direita que melhor capitalizará essa situação.

É hora de tirar lições das décadas de conciliação com a direita e com os empresários que fez o PT, e foi, passo a passo abrindo caminho a ela. É hora de erguer vozes anticapitalistas. O retrato eleitoral de hoje mostra essa abertura às ideias de Bolsonaro, mas também da esquerda. O fortalecimento de uma esquerda, que, tal como a direita de Bolsonaro, não tema falar abertamente suas ideias e colocar toda sua energia para que as lutas dos trabalhadores se fortaleçam em total independência de todas alternativas dos empresários como são a Rede, PDT, PPL e outros pequenos partidos burgueses, é a chave para que aproveitemos essa oportunidade. A isso aposta diariamente o Esquerda Diário e os candidatos a vereador do MRT nestas eleições.




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