Sociedade

HIV

Resultados promissores em pesquisa com HIV e a distorção da mídia

Há alguns dias a mídia burguesa coloca que a cura do HIV está próxima. O que está acontecendo?

Rafaella Lafraia

São Paulo

quarta-feira 5 de outubro| Edição do dia

Comecemos esta nota com um dado relevante: atualmente, mais de 38,8 milhões de pessoas vivem com o vírus HIV e dados de estudos recentes afirmam que cerca de 2,5 milhões de pessoas ainda se infectam com o vírus anualmente em todo o mundo. Estes dados são de extrema importância e revelam o quão danoso é o desserviço das mídias burguesas quando vão noticiar, de forma destorcida, descobertas científicas feitas por pesquisas que englobam doenças como estas.

Há alguns dias a mídia burguesa coloca que a [cura do HIV está próxima >http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/pesquisa-britanica-pode-estar-perto-de-descobrir-cura-para-hiv-20224405]! Óbvio que tal notícia é algo que chama atenção de todos – como apresentado [aqui >http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/cientistas-britanicos-podem-ter-encontrado-a-cura-para-o-hiv] ou este [aqui >http://g1.globo.com/hora1/noticia/2016/10/portador-do-virus-hiv-e-curado-no-reino-unido-e-anima-pesquisadores.html], mas, como colocado anteriormente, a notícia não representa a realidade da pesquisa científica. A [ausência de sinais aparentes do vírus HIV no sangue de um paciente inglês >http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,apos-tratamento-experimental-britanico-de-44-anos-elimina-virus-hiv-da-corrente-sanguinea,10000080079] que após o tratamento RIVER (sigla em inglês para Reseach in Viral Erradication of HIV Reservoirs) não significa, como forma automática, a proximidade da cura da doença, mas sim avanços nos estudos e resultados promissores, pois este é prematuro e necessita de análises mais aprofundadas.

O trabalho realizado por grupos de pesquisadores das faculdades de Oxford, Cambridge, University College London e Imperial e King´s College, envolvem 39 pacientes com infecção do vírus HIV há pouco tempo. Essa informação já é relevante por si só, pois devido ao pouco tempo de infeção, estes pacientes têm seus sistemas imunológicos pouco debilitados e possuem poucos “reservatórios” de vírus. Outro dado importante, não apresentado nas notícias é que todos estes pacientes recebem o coquetel retroviral, mas parte do grupo recebe um medicamento a mais que tem a função de “forçar” o vírus a emergir de partes do corpo onde estão “escondidos”. Além disso, este grupo também receberá duas vacinas experimentais para fortalecimento do sistema imunológico para que este consiga “atacar” as células infectadas. Este estudo já é realizado há seis anos e seus resultados finais estão esperados para o ano de 2018, pois é necessário realizar análises detalhadas de amostras de sangue destes pacientes.

Não é a primeira vez que resultados científicos são distorcidos pela mídia, basta lembrar da febre da clonagem com o resultado promissor do resultado obtido com a ovelha Dolly. Mas, como os próprios cientistas na época colocaram, era realmente um resultado maravilhoso, mas os dados mostravam que precisava-se avançar e muito, já que a ovelha clonada vinha com a idade da ovelha “irmã”.

Estas distorções dos resultados científicos é resultado do próprio deslocar da ciência de outras áreas do conhecimento – resultado de um sistema que departamentaliza conscientemente as áreas de produtividade e conhecimento para impedir que a população tenha acesso a informações de relevância para seu desenvolvimento e bem-estar, podendo participar e colaborar com tais, que ficam restritos somente aqueles que tem acesso (em outras palavras a classe dominante que tem renda). Não podemos permitir que as pessoas não possam participar e decidir de importantes estudos científicos e que, para tal, elas precisam de mais tempo para poderem participar. Em um mundo no qual o sistema vigente nos exige mais de oito horas de trabalho – pois inclui-se, também o deslocar e se preparar para tal – afasta a classe trabalhadora da participação e informações deste conhecimento.




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