Teoria

REVOLUÇÃO

Restauração Burguesa e crise capitalista: por que queremos debater revolução?

No próximo domingo, 31, ocorrerá na Casa Rosa, em Campinas, um curso de formação a respeito do conceito “revolução”, desde a teoria marxista e seus desdobramentos históricos. Com este texto, pretendemos introduzir questões importantes que permearão nosso debate.

Vitória Camargo

Coordenadora do CACH - Unicamp

sexta-feira 29 de julho| Edição do dia

A queda do muro de Berlim e a restauração capitalista nos ex-Estados operários burocratizados no leste europeu, com o fim da URSS, significaram o início de uma contra-ofensiva do imperialismo no século XX e estendida ao século XXI, que denominamos “Restauração Burguesa”. As contrarreformas econômicas, sociais e políticas do neoliberalismo de Thatcher e Reagan são a cara da ofensiva reacionária que se seguiu aos “Estados de bem-estar social” frutos do “boom” do pós-guerra. A partir das derrotas e desvios sofridos pela classe operária, como foram as derrotas aos ascensos revolucionários de 1968-81 e os desvios colocados pela burocratização stalinista na URSS e as revoluções que já nasceram traídas, a Restauração Burguesa impôs uma correlação de forças favorável ao imperialismo e que significou o triunfalismo capitalista no campo ideológico, por um lado, e ataques profundos à vida dos trabalhadores, por outro.

Discursos como os do “fim da história” e “fim do trabalho”, a exaltação do indivíduo e do consumo marcaram a ideologia predominante principalmente na década de 90, mas também no início dos anos 2000. Com ela, aprofundou-se o desemprego, a precarização do trabalho e a miséria da vida da classe operária, com “subcontratos de trabalho”, terceirização e multiplicação de fenômenos como as favelas. As conquistas arrancadas pela classe trabalhadora no período que seguiu a Segunda Guerra Mundial, de crescimento econômico, foram revertidas, e o FMI deu as caras para implementar ajustes.

Ao mesmo tempo, a Restauração Burguesa colocou uma contradição importante ao capitalismo. Enquanto bradava o fim de uma classe trabalhadora e o capitalismo como modo de produção triunfante na história das sociedades, o proletariado enquanto classe crescia e se desenvolvia – vide o gigante chinês. Os trabalhadores assalariados passaram a constituir a maioria da população, isto é, trata-se de um patamar de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção nunca antes alcançado na história, de modo desigual e combinado nos países centrais e periféricos. Estamos falando do desenvolvimento objetivo da classe operária internacional.

A partir de 2002, tem início um subperíodo da Restauração Burguesa marcado pelo crescimento econômico com base às “bolhas imobiliárias”, aos ativos financeiros e à exportação de commodities, da qual surge a categoria dos “países emergentes” ou “BRICS”, com destaque para a China. Na América Latina, esse crescimento econômico foi acompanhado do chamado “ciclo pós-neoliberal”, caracterizado por fenômenos reformistas como o lulismo no Brasil e seu projeto de conciliação de classes, que fortaleceu a burguesia – “nunca antes na história desse país os bancos lucraram tanto” –, mas também permitiu concessões que melhoraram em certo nível as condições de vida dos trabalhadores.

Com a queda do Lehman Brothers em 2008 e o início de uma nova crise capitalista, produto da incapacidade de reprodução desse modo de produção, abre-se uma nova fase mundialmente e se colocam novos desafios para o marxismo revolucionário e a classe trabalhadora. Por um lado, uma profunda crise de subjetividade do proletariado, que viu durante toda a ofensiva neoliberal setores de sua própria classe se voltarem contra ela, a partir das burocracias nos sindicatos, por exemplo. Por outro, seu desenvolvimento objetivo e o capitalismo em crise. Ao mesmo tempo, a luta na França contra a Reforma da Previdência em 2010 e, em outra magnitude, fenômenos como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis e Junho de 2013 no Brasil desenhavam um novo dinamismo na luta de classes internacional e no cenário de crise capitalista, com a juventude cumprindo um papel central.

Por que queremos falar de revolução?

Grandes empreendimentos da burguesia como os projetos de partido pós-neoliberais, que cumpriram um papel importante na contenção das massas, e a própria União Europeia têm demonstrado sua falência, marcado pelo giro à direita na superestrutura política da América Latina, com destaque ao golpe institucional no Brasil, pela crise dos refugiados na Europa e pelo referendo de saída do Reino Unido da União Europeia, por exemplo. A ordem, o establishment e os partidos tradicionais a ele pertencentes têm sofrido um rechaço de massas, muito visível no Brasil, com a crise política e os escândalos de corrupção, mas também em países centrais onde não à toa surgem fenômenos importantes à direita e à esquerda, como Trump e Sanders nos Estados Unidos. Vivemos um período propício ao surgimento de novas formas de pensar e sentir, no qual a classe dominante burguesa não consegue solucionar as contradições capitalistas com seus métodos usuais.

Hoje, deve ser imensamente mais difícil convencer jovens e trabalhadores de que o capitalismo deu certo. Vimos toda uma margem de conquistas ser ceifada pela crise dos capitalistas. Sofremos com o desemprego, com a polícia racista, com o preço do feijão, com um sistema de saúde caótico, com a privatização dos nosso direitos... Fenômenos novos e apaixonantes da luta de classes rompem o cenário internacional indicando os limites da restauração burguesa. A luta dos operários franceses junto à juventude contra a reforma trabalhista, o movimento negro norte americano com o símbolo “Black Lives Matter”, a luta dos professores e da população de Oaxaca são alguns sinais de reorganização do movimento de massas que apontem para um outro futuro que não mais nos reserve miséria, exploração e opressão.

Diante disso, é tarefa dos revolucionários oferecer uma alternativa à essa realidade, a partir das lições tiradas da experiência histórica acumulada da classe operária. Não começamos do zero. Debater e estudar o conceito de revolução hoje vai no sentido de fortalecer a ideologia que pode, combinada à atuação e à educação na luta de classes, alcançar vitórias em prol dos explorados e oprimidos e por fim a esse modo de produção que favorece a minoria burguesa. As ideias marxistas e as experiências históricas, como a Revolução Russa, o primeiro Estado operário da história, devem ser patrimônio da classe trabalhadora, sujeito histórico capaz de emancipar a humanidade, e da juventude a ela aliada.

Convidamos a todos para aprofundar esses debates neste domingo, às 14h, na Casa Rosa.

Contato para bibliografia:
Marie (19) 983541320
Flávia (11) 959245592




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