Opinião

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Resposta ao dono da Riachuelo: o insuperável terror da burguesia diante da Revolução Russa

Flávio Rocha, dono da Riachuelo – acusada pelo Ministério Público de manter trabalhadores em regime de semi-escravidão na região do Seridó do Rio Grande do Norte – publicou sua opinião contrária à Revolução Russa na Folha de S. Paulo. Como poderia ser diferente?

André Augusto

Natal | @AcierAndy

terça-feira 24 de outubro| Edição do dia

Ver o artigo de Flávio Rocha aqui

Em todo o século XX a burguesia associou as tendências progressistas que ameaçavam seus interesses materiais, ou seus hábitos e costumes tradicionalmente conservadores, às revoluções.

Com muito mais clareza do que no século XIX – quando já ao final da década de 1840 mostrava ser uma classe reacionária – este tipo de associação constituía o atestado de indigência de uma classe social apodrecida, que se sabia incapaz de realizar grandes tarefas históricas, e que enxergava inclusive nas formalidades democráticas mais mínimas uma ameaça a seu regime reacionário de propriedade (citando dois “baluartes” da democracia burguesa, a Suíça só havia permitido o sufrágio feminino em 1971, enquanto nos Estados Unidos o voto de um negro, na década de 1960, podia-lhe custar a vida).

É curioso constatar, assim, que o dono da Riachuelo – que utiliza estabelecimentos de terceiros para operar confecções da própria marca, cometendo aberrações contra trabalhadores terceirizados em regime de semi-escravidão – não redigiu um artigo exclusivamente contra a Revolução Russa. Tinha algo em mente, por difícil que pareça.

Ao entornar o molho de suas opiniões conservadoras a favor do Escola sem Partido, da censura às exposições de arte (como ocorreu na exposição Queer no Santander), contra o combate à violência à população LGBT (mesmo que de forma distorcida pela Rede Globo), Flávio Rocha não encontrou melhor expediente que associar tudo ao qual se opõe com a Revolução Russa.

Essa é a homenagem que a burguesia presta, a seu modo, à maior revolução da história da humanidade: depois de 100 anos, o Outubro de 1917 ainda faz os escravistas assalariados tremerem até os ossos. E têm razão nisso.

A revolução russa foi um movimento de minoria?

É certo que debater as opiniões de um Flávio Rocha sobre a Revolução Russa exige o auto-suplício de ler até o final o que escreve. Como um cachorro cego que funga ao acaso de um lado para outro, empilha ignorância sobre os revolucionários do século XX (como se Gramsci considerasse possível, através de mudanças culturais cotidianas, alcançar o comunismo) e sobre a própria a própria mecânica de uma revolução. Como não podia deixar de ser, apoiou-se na política contra-revolucionária do stalinismo para concluir que a revolução bolchevique “desmoronou pelo isolamento e ineficiência”.

Trotsky, de forma poeticamente precisa, define que “Nenhuma receita tática poderia ter dado vida à Revolução de Outubro se a Rússia já não a levasse nas suas próprias entranhas. O partido revolucionário não pode desempenhar outro papel senão o de parteiro que se vê obrigado a recorrer à operação cesariana”. De fato, ao contrário do que diz o ignorante capitalista pernambucano, a Revolução Russa foi imposta pela história. O nível de contradição de uma formação social combinada como a russa, que reunia enormes traços do atraso feudal com o que de mais avançado havia na técnica capitalista da época, determinou o caráter grandioso da catástrofe, e exigiu ser resolvida por uma classe decidida a varrer os escombros da barbárie medieval.

Se a burguesia russa tivesse podido resolver a questão agrária, ou a questão da autodeterminação das nacionalidades oprimidas pelo czarismo, seguramente o proletariado não teria conquistado o poder em 1917. A burguesia liberal russa não queria, nem na questão nacional, nem na questão agrária, ir além de certas reformas para alterar as bases do regime de opressão e violência. Chegando demasiadamente tarde, mergulhada precocemente na decrepitude, a burguesia russa, egoísta e covarde, sem nenhuma raiz nacional e financiada com o capital anglo-francês, não levantou a mão contra a propriedade feudal da qual advinha.

Assim, as grandes tarefas históricas como revolução agrária, a expulsão da submissão ao imperialismo, o direito à autodeterminação dos povos (e mesmo a saída da Primeira Guerra Mundial), ficou nas mãos do proletariado revolucionário: 4 milhões de trabalhadores urbanos dirigiram 100 milhões de camponeses.

A revolução significa mudança do regime social. Ela transmite o poder das mãos de uma classe, que se esgotou, às mão de outra classe em ascensão. Neste movimento histórico que independe da vontade individual do homem, a insurreição constitui o momento mais crítico e mais agudo na luta de duas classes pelo poder. A intervenção ativa das massas nos acontecimentos constitui o elemento indispensável de toda revolução (o escravista Flávio Rocha inventa a possibilidade de uma revolução sem massas). A sublevação das massas não é um empreendimento isolado que se pode provocar por capricho. Representa um elemento objetivamente condicionado ao desenvolvimento da revolução, que por sua vez é um processo condicionado ao desenvolvimento da sociedade. Na Rússia de 1917, assim como em 1905, essa atividade criadora das massas se auto-organizou nos chamados sovietes (conselhos operários, de soldados e camponeses).

Se as revoluções ocorrem independentemente das vontades individuais, a condição para o triunfo de uma revolução dos trabalhadores exige a existência de um partido capaz de orientar-se nas circunstâncias, de apreciar a marcha e o ritmo dos acontecimentos e de conquistar a tempo a confiança da imensa maioria da população trabalhadora: sem isso, a vitória da revolução russa teria sido impossível.

Tal é a relação dos fatores objetivos e dos fatores subjetivos da revolução e da insurreição. Dizer que “a revolução russa foi obra de uma minoria” é dar prova de tão pouca profundidade de espírito como a natureza pôs à disposição de Rocha.

Nosso comentarista burguês – amigo de Doria, do Papa e das Forças Armadas – receia despejar sua crítica “moralmente conservadora”, mas não consegue vencer seu apetite de classe: diz-se defensor do “Judiciário, Forças Armadas, partidos ditos conservadores, aparelho policial, Igreja e, por último mas não menos importante, a família”. Faz um desfile do programa com que Bolsonaro e os deputados votaram o golpe institucional em 2016.

Não à toa Flávio Rocha é férreo defensor da censura às artes, do Escola sem Partido, e das forças repressivas do Estado. A violência burguesa não promove nenhum incômodo ao dono de um grupo de confecções criado durante a ditadura militar em Pernambuco, e que hoje comete as maiores atrocidades contra os direitos trabalhistas de milhares de terceirizados do semi-árido do Rio Grande do Norte (como jornadas excessivas, trabalho sem carteira assinada e pagamentos abaixo do salário mínimo, denunciadas pelo Ministério Público).

O burguês amedrontado

Balançando embriagado entre conceitos que desconhece, o escravista acaba tropeçando numa ideia correta: o comunismo é a bandeira dos marxistas revolucionários. E a revolução russa é a principal experiência de emancipação da humanidade, que conferiu terra aos camponeses, “pão” à população, que esteve baseada em um governo de trabalhadores a partir dos conselhos operários, conhecidos como sovietes ("mil vezes mais democrática que a mais consolidada democracia capitalista ocidental", como dizia Lênin), que foi o primeiro Estado a garantir o direito ao aborto e ao divórcio às mulheres, a colocar fim à perseguição aos homossexuais, de planificar a economia a serviço dos trabalhadores urbanos e rurais, antes da burocratização stalinista, e abrir caminho à batalha por liquidar a escravidão assalariada do capitalismo.

O terror burguês de Flávio Rocha - escondido atrás de "palavras sábias" - vem do fato de que sabe que as revoluções voltarão a acontecer. Deve saber que nos preparamos dia a dia para não perder o momento de fazê-la triunfar, já com as grandes lições que nos legou 1917.

Trotsky lembra que um nobre, chamado Borbokin, escrevia em 1917 a Rodzianko, Presidente da Última Duma do Estado: "Eu sou um proprietário, latifundiário e não me ocorre pensar nem por um momento que tenha de perder minha terra, muito menos para um fim inacreditável: para fazer uma experiência socialista". Flávio Rocha também não consegue imaginar-se abandonando seus privilégios de exploração. Mas as revoluções sempre têm como objetivo a mesma tarefa: realizar o que não entra na cabeça das classes dominantes.




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