TRIBUNA ABERTA

Carta de uma mãe preta e educadora sobre a morte do menino Miguel: Repúdio, indignação e dororidade

Compartilhamos a seguir o texto de Débora Rosa da Silva sobre a dor e revolta frente a mais uma brutal morte fruto do racismo: "Uma sociedade que não protege uma criança não tem futuro".

sexta-feira 5 de junho| Edição do dia

Venho aqui expor minha dor e revolta contra mais um, entre tantos crimes de racismo que vimos sofrendo. Com a morte de Miguel de cinco anos, fruto dos princípios de malvadezas da estrutura secular de extermínio aos pretos neste país.

Venho com o corpo ainda sofrendo e sentindo o tiro de fuzil que recebi enquanto ainda me despedia dos amigos na perua escolar, sentindo os oitenta e muitos tiros perfurados em meu corpo inteiro quando estava a caminho de uma celebração à vida de um filho Preto que estava a chegar, quando ainda me debato pela surpresa do calor dos tiros que levei pelas costas enquanto brincava na segurança do lar, enquanto busco ar e sinto o peso do joelho inflado de ódio militar, ainda sofrendo o flagelo pandêmico, me vem o chão, com o corpo estendido e trêmulo, com o sangue ainda quente e sentindo a vibração do peito da mãe Preta a gritar, mesmo assim vou tentar lutar.

Contra o estado genocida que tem como base patrões e patroas assassinos. Contra o racismo que tem como seu aliado o capitalismo como metodologia para seu controle e violação da classe trabalhadora.

No frio que sinto pelo vulto da morte solitária e desprovida de proteção, vem a necessidade de lutar, lutar pelas crianças negras que nunca tiveram vez nesta triste sociedade.

Responsabilizo todos e todas que apertaram e insistem a apertar o botão para indiferença, do desprezo, da fome, do distanciamento em favelas, da falta de saneamento básico, da falta de acesso à uma escola digna, do desemprego, da falta de políticas para a cultura, do encarceramento em massa de jovens pretos, do sufocamento aos trabalhadores e trabalhadoras dos serviços, da concessão para matar das polícias e mais a do elevador da morte.

Uma sociedade que não protege uma criança não tem futuro.

Debora Rosa da Silva é mãe preta e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Mackenzie e professora da Rede Municipal de São Paulo.




Tópicos relacionados

Racismo   /    genocídio juventude negra   /    [email protected]

Comentários

Comentar