Educação

DISCRIMINAÇÃO NA USP

Relatos de assédio moral e homofobia na prefeitura da USP

sexta-feira 17 de abril de 2015| Edição do dia

Yuna Ribeiro, trabalhadora da prefeitura do campus e diretora do CDB (Conselho Diretor de Base) do Sintusp conta como começou a mobilização dos trabalhadores da prefeitura do campus, que já dura 10 dias, contra o assédio moral, a homofobia e as condições precárias de trabalho. Dois de seus companheiros, vítimas de assédio e homofobia, que não quiseram se identificar narram a rotina de ofensas que sofriam.

ED – Como começou a mobilização da Prefeitura?

Yuna – Começamos a receber algumas denúncias nas reuniões de unidade. Aí o corpo de funcionários decidiu que pediríamos uma reunião com o prefeito, pra tentar resolver essa situação. Foi recusado pelo prefeito realizar uma reunião com os funcionários. Ele disse que a gente deveria fazer isso com uma comissão da reitoria. Os funcionários não aceitaram essa situação porque eles dizem que é uma questão da prefeitura, que ele como prefeito teria condições de ouvir os funcionários, dizer quais são as atitudes que podem ser melhoradas, tanto em relação às chefias, quanto em relação às condições de trabalho.
Antes disso tudo os funcionários isoladamente tentaram de diversas formas falar com os responsáveis, procuraram o RH (Recursos Humanos) pra tentar resolver de alguma forma, procuraram o prefeito diretamente por e-mail, pra tentar conversar com ele, e não tiveram resposta. Procuraram o vice-prefeito pra tentar conversar e aí também foram ameaçados de advertência.

Diante disso tudo os funcionários resolveram que, como ele não queria conversar com a gente, a gente ia paralisar.

ED – Como se dava o assédio sobre vocês?

Trabalhador A - Por ele (chefe)ser uma pessoa homofóbica, pelo meu jeito de ser, pela minha orientação sexual, ele começou a me expor a situações de humilhação. Já falou que eu tinha idade mental de quinze anos, quando ajudei o Sesmt (Serviço de Engenharia, Medicina e Segurança do Trabalho) com as lembranças do outubro rosa ele virou pra mim e disse: - Nossa, é um lixo o que vc faz!

Quando fui falar com o vice prefeito ela (chefe) me ameaçou dizendo: - Você não pode falar com o vice prefeito, você tem que se reportar a mim. Isso já te vale uma advertência. Eu sei que você não tá bem, mas tem que trabalhar tem que produzir, senão você vai tomar advertência, também. É visível a sua insatisfação com a gente, que você não está bem, então você avalia e se a sua situação é tão ruim, peça as contas!

Cheguei ao fundo do poço, fui procurar tratamento psiquiátrico, terapêutico, psicológico para suportar meu ambiente de trabalho. Eu sou tão infeliz aqui que a minha intenção é ir embora quero ter paz, nem que eu fique o dia inteiro limpando sujeira de rato, eu quero ter paz, sem ninguém me importunando
Mas eu não vou pedir demissão porque é uma vaga que eu conquistei, eu não fui pedir emprego pra ela.

Trabalhadora B – Começou dele (chefe) tratar assim: Eu não posso conversar com a Yuna que eu tenho caso com ela, se eu converso com a Marcia eu tenho caso com ela, converso com não sei quem tenho caso... Essa daí só conversa com mulher.

Chegou uma hora que passou da brincadeira, de você levar na brincadeira. Aí eu pensei “isso daí já tem um pouco de maldade”. Um dia, ele acabou de passar por mim, enquanto eu conversava com uma menina e disse: - Aí, tô falando! Outro caso!

Fiz uma reclamação e a outra chefe entrou na minha sala dizendo: Tá vendo, a B disse que o chefe chamou ela de sapatão! Meus colegas disseram: chamou de sapatão sim, porque chamou na nossa frente! Eu acho injusto eu ter que me reportar a ele.

ED – Decidida a paralisação, como ela foi recebida pelo prefeito?

Yuna – Paramos e ficamos um dia parados pra ter alguma resposta de reunião. Ele só marcou a reunião com uma comissão de funcionários que foi feita com a comissão da reitoria e a presença do prefeito.

Nessa reunião o prefeito não se posicionou em nenhum momento, ele ficou omisso, e a comissão da reitoria propôs que a gente voltasse a trabalhar nas mesmas condições e que eles iriam enquanto isso apurar o caso. Nós levamos isso na reunião de unidade, a reunião de unidade decidiu que a gente não tem condições de aceitar que os funcionários voltem a trabalhar sujeitos às mesmas condições e que não tinha como apurar o caso com eles estando coagidos pelos mesmos chefes e aí a gente continuou paralisados.

ED – Hoje (dia 16), a PM ocupou a prefeitura pra impedir o piquete dos funcionários. Como isso foi sentido pelos trabalhadores?

Yuna – Hoje em especial a gente se viu numa situação em que institucionalmente a gente se sente assediado porque a gente chega no nosso local de trabalho e o nosso local de trabalho tá ocupado pela PM. A gente é obrigado a fazer a nossa reunião de unidade, que sempre é feita de maneira tranquila, com todos os funcionários com direito a voz, onde a discussão é ampla, e hoje a gente teve que fazer essa discussão com a presença da PM, massivamente dentro da prefeitura. Muito dos policiais posicionados na beirada do portão, voltados pra nós, segurando suas armas, numa postura ameaçadora, querendo coagir os funcionários de alguma maneira, para se sentirem pressionados a trabalhar, mesmo nas condições que a gente tá reclamando e falando que não temos mais condições de voltar se for pra continuar dessa forma.

Então aí, mais uma vez, a gente vê que o assédio não é só de cada caso, mas é da instituição toda contra qualquer forma de resistência e de disposição dos trabalhadores pra lutar por melhorias

ED – Como vocês se sentiram diante da mobilização dos seus colegas?

Yuna - Acompanhando todo o caso, eu acho que no decorrer dos relatos e de todo o processo da gente registrar as reclamações para a gente encaminhar oficialmente fica cada vez mais claro como tem elementos de discriminação sexual, de homofobia, de machismo, coisas que muitas vezes são banalizadas na rotina de trabalho.
Às vezes, é difícil até pro próprio funcionário reconhecer e ver que toda aquela angústia que ele tá sentindo todo aquele peso é também porque ele é uma minoria e ele tá mais oprimido ainda. Além de ser funcionário, trabalhador, ainda por sua condição sexual e por sua opção, então esse processo tem sido muito rico desses funcionários que foram oprimidos por muito tempos e sentirem mais fortes, e do corpo de funcionários da prefeitura reconhecerem como a gente precisa avançar nessas discussões e de como está sendo importante o apoio de todos eles

Trabalhador A – Me ajuda a me sentir mais forte, da gente ter se unido pra melhorar a nossa situação, mas não só nossa mas da prefeitura inteira. É um sentimento de gratidão por meus companheiros e dá um exemplo para as pessoas que talvez estejam se sentindo acuadas e isoladas assim como eu fiquei um dia. Dar coragem e força pra elas ver que não estão sozinhas.
Tomar o nosso exemplo e fazer a mesma coisa, lutar pra ter fim esse assédio, não só na universidade mas em todos os locais de trabalho!

Trabalhadora B – O que foi muito legal é que toda a peãozada, que conhece a gente há muitos anos vieram depois me consolar. Estão, todo mundo, firmes, pra que ninguém quebre a corrente. Se foi assediado hoje ou pode ser assediado amanhã, não pode deixar isso continuar, senão a coisa piora pois eles se sentem semideuses. E quem é semideus tem vantagem em tudo? Não!
Nós temos que estar unidos pra trabalhar junto e ser feliz! A gente passa a maior parte da nossa vida aqui. E aqui nós estamos juntos!




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