Educação

DESMONTE DA USP

Relatório de R$ 5 milhões encomendado por reitoria da USP orienta desmonte e privatização

Marcello Pablito

Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo do Sintusp

domingo 19 de agosto| Edição do dia

Conforme denunciado pela Associação dos Docentes da USP (Adusp), a consultoria privada McKinsey&Company elaborou o documento “Criando as bases para a USP do Futuro”, feito em caráter confidencial e obtido somente após uma medida judicial.

Por trás da tarja que dizia “confidencial”, o documento, que custou nada menos que R$ 5 milhões de reais e foi bancado por empresários, traz justamente as propostas que fariam valer tal “investimento” desses capitalistas nada desinteressados.

“Excelência acadêmica” quer dizer conhecimento privado a serviço dos lucros capitalistas

São os valores de uma universidade cada vez mais elitista e privatista. Com metas pautadas em atingir os rankings internacionais – cujos critérios nada tem a ver com uma universidade a serviço dos trabalhadores e do povo pobre, mas são calcados em um produtivismo que só interessa aos grandes empresários – a USP que a McKinsey e Zago e Agopyan (ex-reitor e reitor, respectivamente) querem é uma universidade que funcione de mãos dadas com a iniciativa privada. Isso se sintetiza, por exemplo, na “aspiração” de número três apontada no documento: “Ser uma referência em pesquisa por meio de um modelo sustentável e impulsionado por parcerias público-privadas”.

Outros pontos colocam esses objetivos de forma menos escancarada, como o ponto 9, no qual dizem querer “Alocar recursos financeiros de acordo com a relevância das unidades, em linha com os objetivos de excelência acadêmica”. Ou seja, unidades historicamente consideradas menos “relevantes” pela reitoria, o governo e o mercado – como podemos lembrar, por exemplo, de declarações feita por Alckmin sobre a “inutilidade” das pesquisas de sociologia – sofrerão ainda mais precarização do que hoje.

O financiamento privado da universidade, que confere a ela um caráter atrelado aos interesses da iniciativa privada e de maior elitismo e racismo, também é um dos pontos fundamentais do documento. No ponto 10, dizem buscar “Ser uma Universidade financeiramente sustentável com pelo menos 30% de receitas próprias”. Por “receitas próprias” querem dizer verbas que não sejam públicas e venham do governo, portanto, que só podem provir do setor privado. Mais a frente, o relatório diz: “USP é muito dependente de repasses do governo, enquanto universidades públicas na Europa e nos EUA têm fontes mais diversificadas”. Em diversos outros momentos, esse mantra da “parceria” com o setor privado é exaustivamente repetido.

Outro elemento que reforça isso é que apontam, no item “Proporção de internacionalização e intencidade (sic) de cooperação com o setor privado” que consideram que o “setor privado tem uma participação relativamente pequena em pesquisas da USP”. Isso se encaixa perfeitamente com os ataques feitos pelo governo golpista de Temer, que ameaça extinguir as bolsas de pós-graduação da CAPES.

Para atrair o financiamento privado, é claro, deve-se focar, como o próprio relatório aponta, em “Trabalho com problemas e oportunidades atuais e relevantes para a iniciativa privada, aumentando o impacto das pesquisas”. Traduzindo, querem transformar a universidade num apêndice das empresas, desenvolvendo conhecimento tecnologia para uso privado e geração de lucro, deixando de lado qualquer necessidade real dos trabalhadores.

Ataques aos direitos dos trabalhadores com precarização e terceirização

O estudo da McKinsey está relacionado aos “parâmetros de sustentabilidade” da USP, mais conhecido popularmente como “PEC do fim da USP”, aprovado no Conselho Universitário em 2017. As recomendações do relatório indicam que a USP teria muitos gastos com “atividades meio”, ou seja, não relacionadas ao ensino e pesquisa, e poucas relacionadas às atividades fim. A ideia deles seria de que a universidade deve fechar postos de trabalho e terceirizar todo tipo de trabalhadores que não sejam docentes ou técnicos de laboratório e outras atividades ligadas diretamente à pesquisa, reforçando o rebaixamento salarial dos postos de trabalho mais precarizados, que hoje já sofrem com uma exploração brutal, como no caso dos trabalhadores do bandejão, onde trabalho e tenho acompanhado casos trágicos de inúmeras doenças e problemas de saúde causados pela carga desumana de trabalho imposta cotidianamente.

De acordo com suas recomendações, essa barbárie deve ser ainda pior, pois recomendam Terceirizar atividades básicas ainda realizadas por funcionários próprios, garantindo captura de ganhos com restaurantes e com auxiliares de serviços básicos”. Ou seja, piores salários, mais sobrecarga, menos direitos trabalhistas, maiores dificuldades de organização sindical. Quanto à “captura de ganhos”, talvez seja justamente aí que os “investidores” desse relatório esperam obter seus retornos, lucrando com a destruição da universidade. É interessante questionarmos como poderão reduzir custos introduzindo uma gorda fatia de lucro para empresários que irão explorar a atividade. A resposta está na diferença entre o salário de um trabalhador efetivo da USP e o que ganha um terceirizado hiper-explorado, ao lado dos quais travamos dezenas de lutas ao longo dos anos contra os absurdos impostos pela USP ao lado das empresas terceirizadas.

Com tais “orientações” em mão, em 2017 a USP elaborou um projeto para atingir a sustentabilidade financeira (Parâmetros de Sustentabilidade) e submeteu esse projeto à votação no CO debaixo de literalmente o sangue de trabalhadores e estudantes que protestavam no dia da votação. Nesses parâmetros está contida uma série de ataques. Congelamento de contratações e de salários, diminuição do quadro funcional seguindo a proporção 60/40 de funcionários e professores (60% de funcionários, 40 % de professores). Atualmente, essa proporção é de 14 mil funcionários para 6 mil professores, aproximadamente. Ou seja, a meta é fechar milhares de postos de trabalho e o prazo para a primeira fase da implementação dos “parâmetros” é até 2022 – o relatório McKinsey recomenda novos PIDV (Plano de Demissão Voluntária). Além disso, o aumento dos salários fica obrigatoriamente vinculado ao crescimento do ICMS ao invés da inflação, que é o que sentimos no bolso e desvaloriza nossos salários, e a diminuição do comprometimento das receitas com a folha de pagamento (que a reitoria diz estar comprometida em quase 100%). Além disso, o governo do estado deveria repassar 9,57% da totalidade da arrecadação desse imposto, por lei, às universidades estaduais paulistas, o que não ocorre há muitos anos.

Esses são apenas alguns poucos pontos entre o vasto repertório de destruição e privatização da universidade proposto pela McKinsey e que a reitoria vem adotando prontamente. Se baseia em um modelo de educação cada vez mais excludente e racista, que se volta para os lucros de um punhado de capitalistas em detrimento das necessidades da população que quer ter acesso não apenas à universidade como um local de estudo, mas também ao Hospital Universitário, ao colégio, aos diversos serviços que a USP deveria prestar ao povo. Nos colocamos em defesa dessa perspectiva e dessa luta, por uma universidade a serviço dos trabalhadores e do povo pobre, e contra os planos de desmonte e privatização dos governos e reitorias.




Tópicos relacionados

Hospital Univeristário da USP   /    Luta contra ajustes na USP   /    Universidade   /    Educação   /    USP   /    Política

Comentários

Comentar