Educação

OCUPAÇÕES GOIÁS

Relato de uma apoiadora: "ESTADO DE EXCEÇÃO EM GOIÁS!!!"

Relato de Mariana Lopes Barbosa publicado em seu facebook na madrugada desta segunda, 26. Estudantes e apoiadores das ocupações em Goiás denunciam invasão de escolas sem mandato, agressão de menores, atuação sem identificação policial e prisões arbitrárias nesta segunda em escolas ocupadas no Estado.

terça-feira 26 de janeiro de 2016| Edição do dia

"Polícia batendo em estudante secundaristas. Esse relato é o que aconteceu ontem. Hoje estão fazendo o mesmo em mais 3 escolas ocupadas simultaneamente!

Claramente uma ação orquestrada pelo estado com PM e diretores das escolas. Ajudem a divulgar. O Brasil precisa saber o que está acontecendo aqui, a mídia local não divulga. Escrevo esse relato aos prantos, como, aliás, estive em boa parte do dia de hoje. Escrevo porque acho que todos devem saber o que está acontecendo no Estado de Goiás, escrevo por proteção, já que a perseguição começa a se instaurar, escrevo para tentar aliviar a dor de ver aquelas crianças espancadas.

Às 07:00 da manhã recebi o relato de estudantes do Colégio Estadual Ismael Silva de Jesus de que a polícia havia entrado na escola às 05:40, quebrado várias coisas lá dentro, agredido vários deles e saído. Logo em seguida, chegaram várias pessoas da comunidade e um carro de som que já começava a anunciar as matrículas na escola. As pessoas da comunidade entraram no colégio e agrediram mais ainda essas crianças e as expulsaram de lá. Eles permaneceram na porta, abraçados, resistindo à todas essas agressões. Quando cheguei ao colégio já tinha um advogado do movimento lá e alguns outros apoiadores, que estavam tentando acalmar xs meninxs, comprando lanche para elxs e ajudando a pegarem seus colchões e mochilas para levarem para outra escola. Havia também duas viaturas da PM na porta, algumas pessoas da comunidade (bastante agressivas), o diretor e o sub-secretário de Educação. Conseguiram um frete e colocaram todos os colchões, mochilas e objetos pessoais delxs na caçamba de uma pampa. Saímos em comboio para levar esses objetos para uma outra escola e depois levar xs meninxs ao Ministério Público para denunciar as agressões. Éramos três carros: o do frete, o de um professor e o que eu estava. Ao passarmos por uma rua um pouco mais afastada da escola e bem vazia, nossos carros foram fechados por mais três carros, sem nenhum tipo de identificação policial, nem nos veículos e muito menos uniformes ou distintivos nos policiais. Fecharam a gente, sairam de seus carros com arma na mão mandando a gente descer e colocar a mão na cabeça. Assim fizemos. Nos trataram com muita truculência. Gritaram com as crianças, não nos deixaram pegar nossos celulares para avisar o advogado, revistaram os carros, revistaram nossas bolsas, jogaram as cosias dxs meninxs no asfalto. Depois, tiraram todos os colchões do frete, revistaram todas as mochilas que estavam lá dentro (e nem eram dos estudantes que estavam conosco), fizeram perguntas intimidatórias e ameaçaram: disseram que houve denúncia de furto e depredação da escola e que seríamos acusados por isso. Mas não encontraram nada! O que tinha lá eram esses objetos! O que fomos fazer lá foi ajudar essas crianças e adolescentes que haviam apanhado a fazerem uma denúncia, a levar quem precisasse no hospital e a levar suas coisas a uma outra escola. Como não tinham encontrado nada, perguntamos se então estávamos liberados. Eles disseram que estávamos convidados a irmos à delegacia. Perguntamos se podíamos não aceitar o convite e responderam que se nos negássemos a ir, PODERÍAMOS SER ENCAMINHADOS A FORÇA, e nesse momento um deles retirou algumas algemas do bolso. Fomos então, acompanhando os carros dos policiais para o 22º CIOPS, no Jardim Curitiba. Lá pegaram nossos nomes completos, endereços e telefones e nos entregaram mandados de intimação para prestarmos depoimentos nos dias 02 e 03 de fevereiro. Detalhe: os menores também receberam intimações! Saindo da delegacia, um pouco mais tarde, orientados pelos advogados, fomos finalmente ao Ministério Público onde as crianças e adolescentes relataram sobre as agressões que sofreram e posteriormente foram encaminhados para o IML para fazer exames de corpo de delito. Apresentamos também a denúncia da abordagem que nos fizeram.

Estamos mobilizando todo tipo de apoio neste momento. As perseguições políticas começaram com o claro intuito de criminalizar apoiadores maiores de idade. Mas vão criminalizar o quê? Criminalizar pessoas que iam às ocupações diariamente levar comida, cozinhar, fazer oficinas? Que crime podem me acusar? De ter ido ao Ismael e em tantas outras escolas discutir com as meninas sobre violência contra a mulher? De ter feito comida pra eles vários dias e levado doações que recolhíamos de diversos apoiadores espalhados na cidade? De oferecer ajuda quando apanharam? De dar uma carona ao Ministério Público? Confesso que ainda estou muito chocada com tudo o que aconteceu, estou profundamente triste e assustada. Espancar crianças é muito baixo, é muito cruel. Mas o que tem me dado força é a solidariedade de pessoas não só daqui, mas do Brasil inteiro que já estão se mobilizando, porque lutar pela educação não é crime! Porém, sobretudo, e desde o começo, o que me emociona e dá forças mesmo é ver a garra dessas crianças e adolescentes, que tem tocado essa luta histórica em Goiás, passando por todo tipo de problemas nas ocupações e agora por mais isso, mas ainda assim permanecem firmes e nos ensinam diariamente tanta coisa bonita que nos traz de volta a esperança."

Estudante machucado após invasão e relato acima.




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