Mundo Operário

Relato de trabalhador da UNICAMP sobre as condições precárias de trabalho do HC

sábado 20 de junho| Edição do dia

Frente ao maior número de casos confirmados no Brasil desde o início da pandemia, Bolsonaro e Mourão seguem com seu discurso negacionista, com aval de grande parte dos militares, escarregando a crise nas costas dos trabalhadores. A oposição ao governo, travada pelo STF e os governadores, tampouco apresentam uma saída para a crise sanitária. Ao mesmo que Dória tenta passar uma imagem de “responsável” frente aos projetos de Bolsonaro, reabre os comércios de São Paulo, numa tentativa de agradar os capitalistas.

Nesse cenário, os trabalhadores da saúde vêm sendo cada vez mais precarizados em todo o país. Esses profissionais, que são linha de frente nessa batalha, colocando todos os dias suas vidas e de suas famílias em risco, não recebem sequer EPIs adequados, enquanto Bolsonaro e Doria asseguram os lucros dos patrões.

Nas declarações a seguir, um trabalhador do Hospital de Clínicas da Unicamp expõe a situação em que os profissionais estão sendo submetidos sob a reitoria de Marcelo Knobel.

"Bom dia a todos. Venho através desse áudio revelar tudo que tem se passado dentro da nossa universidade. No hemocentro, o gastrocentro, o HC e o Caism, o que está acontecendo é um descaso total com todos que trabalham na universidade. EPIs estão sendo limitados. Você tem um número limitado de máscaras que pode usar. A limpeza, a Centro, que é uma empresa terceirizada, os funcionários dela estão usando máscara de pano, pois não estão fornecendo os EPIs necessários. Já vi funcionários da Centro limpando lixo de banheiro sem máscara e muito menos uma luva na mão. São pessoas humildes, as que trabalham na centro, todo mundo sabe. Mas vamos chegar no pior: funcionários dentro do HC, dentro do Hemocentro, sem usar máscaras. Cadê nossas máscaras N95? Onde foram param? A gente não tá tendo proteção, funcionários estão adoecendo, alguns estão sendo afastados, outros ainda estão em estado grave em outros hospitais fora de Campinas. Então cadê nosso reitor, a CIPA, o CCIH, onde foi parar esse povo? A gente não tem EPI, não tem apoio, tem funcionários adoecendo… Não só pelo covid, mas também emocionalmente, entrando em depressão. O hospital tá pagando hora extra… a pessoa pega um plantão de 12h e fica 12h na enfermaria de covid pra ganhar hora extra, dia após dia. Essa pessoa vai se contaminar, pegar o bicho. O reitor, a vice reitora, o povo do administrativo não vão pegar, porque eles estão em suas casas fazendo seu trabalho, tudo de boa, só que quem tá na linha de frente tá lá dando a cara pra bater. Cadê nossa insalubridade? Cadê nosso risco?. Então as universidades paulistas estão deixando a desejar. Cadê o dinheiro que veio? Vi que teve um milhão e duzentos mil de doação de dinheiro para EPI. Onde ta esse dinheiro? O que a gente escuta de chefia, supervisão, diretoria é o seguinte: as máscaras cirúrgicas estão contadas para usar durante um plantão. Isso é ridículo. Nós da linha de frente estamos abandonados, jogados. Não temos apoio de ninguem, ta tudo fechado, DGRH, DPD, partes de administrativo… Nada. Estão todos em casa. Mas tem funcionário com mais de 60 anos na linha de frente, na enfermagem, que tá trabalhando. Essas pessoas estão se expondo, e também os que estão fazendo hora extra, que estão achando que o dinheiro pode salvar a vida dele, mas não vai. O covid mata rápido, é um vírus cruel. Então a gente tem que lutar, a gente que trabalha na área da saúde. Não tem ninguém com a gente, nós estamos abandonados. Nós da área da saúde, também a área da limpeza… A diretoria ta toda em casa ganhando dinheiro no bem bom, enquanto a gente tá ralando e tentando salvar vidas."

"Marcelo Knobel, você tá na sua casa aí no seu conforto. Quando você fez sua campanha de reitor você andou a Unicamp inteira. Hoje te convido a ir lá no gastrocentro, no HC, no Caism, no hemocentro, e enxergar a situação que a gente tá passando. Não é só falta de EPI não, é falta de funcionário. Fica aí pagando hora extra a 100% pros funcionários fazerem hora extra na enfermaria de covid, depois no outro dia a pessoa faz de novo… Se contamina, leva pra família…
Põe a mão na sua consciência, pois quando você veio pedir voto você entrou em tudo quanto é lugar aqui dentro. Hoje eu duvido que você entre. Duvido, Marcelo, que você vai entrar na área da saúde. Nós estamos com o nosso salário achatado acho que em 18%... Você não deu nada de aumento pra gente. E quem tá aqui na linha de frente? A enfermagem. Fomos nós que entramos em greve, reivindicamos, fizemos tudo aquilo e você deu F4 pra gente sabe? Agora vem aqui dar um rolê, vem dar um passeio. Entra lá na UTI do HC sem máscara, vai lá ver os pacientes que estão com covid. Veja como está o setor de limpeza, os elevadores, vai ver tudo. Se você tivesse humanidade… Mas acho que você não tem nada disso. Você tá na sua casa, quando tem as reuniões do Consu é tudo por vídeo conferência e tal… Você sabe quantas vezes eu lavo a minha mão lá na universidade? Você sabe quantas vezes eu passo álcool em gel? Agora, você tá na sua casa recebendo seu salarião aí e eu to aqui ó, com meu salário baixo, com muitos anos de universidade. Só tive duas referências em todo esse tempo que estou aqui. Tem funcionário que não ta nem a metade do tempo que eu to aqui e tem uma referência por ano, ganhando o triplo do meu salário. Se você tá dormindo tranquilo, beleza, mas ta faltando enfermeiro, ta faltando técnicos, ta faltando tudo aqui. E vai faltar muito mais ainda porque é muita gente que vai adoecer. Coloca a mão na sua consciência, sai da sua toca e vem ver o que ta acontecendo dentro da Unicamp. Vem aqui, aparece, que eu quero te dar um abraço. Mas eu sei que isso você não vai querer, porque eu to na linha de frente."




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