ATAQUES NA UFRGS

Reitoria da UFRGS inicia ofensiva contra terceirizados, estudantes e servidores

O aumento de mais de 700% no preço do RU para trabalhadores terceirizados e servidores decretado de modo autoritário pela reitoria da UFRGS se insere em uma bateria de ataques que vai desde a tentativa de despejo dos moradores da Vila Boa Esperança à possibilidade de atraso no pagamento dos terceirizados. Diante dos cortes violentos do governo Temer na educação pública, as universidades federais mergulham numa crise. Para Opperman a saída passa a ser atingir em cheio a comunidade acadêmica e, mais centralmente, os trabalhadores terceirizados.

quinta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Rui Opperman, atual reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mantém uma gestão marcada por medidas autoritárias. A começar pelo fato de que nem mesmo a maioria dos votos o atual reitor obteve nas últimas eleições. Opperman acabou por assumir o cargo apenas devido ao sistema de votação da UFRGS, que é completamente anti-democrático, onde não existe paridade e, menos ainda, proporcionalidade nos votos. Desse modo, mesmo rejeitados pela maioria da comunidade acadêmica, Opperman e sua turma assumiram novamente o comando da universidade.

Em reunião com os servidores da UFRGS esta semana, o reitor deu nova mostra de sua postura autoritária, inciando aquilo que certamente será uma verdadeira ofensiva contra estudantes, técnicos e terceirizados. Segundo Opperman, a partir do início do segundo semestre de 2017 será implementada uma mudança nos Restaurantes Universitários (RUs) que fará com que os servidores e trabalhadores terceirizados passem a pagar o valor absurdo de R$ 11,00 por refeição (o valor atual é de R$ 1,30). Isto significa um aumento de mais de 700% no valor cobrado!

Trata-se de um verdadeiro ataque contra os servidores. Ao mesmo tempo em que a reitoria já sinalizou que não haverá aumento de salários e nem de vale alimentação para o setor em 2018, Opperman afirmou claramente que não negociará com a categoria sobre a medida, que a afeta diretamente. Segundo a Associação dos Servidores da UFRGS (Assufrgs), a reitoria afirmou que "já bateu o martelo" a respeito desse ataque. Embora tenha sido procurado pela Assufrgs durante os últimos dias para debater a questão, Opperman afirmou que "gestão é gestão e sindicato é sindicato", deixando nítido seu caráter autoritário e sua total indisposição ao diálogo.

Situação ainda mais crítica, sem sombra de dúvidas, é a dos trabalhadores terceirizados, em sua maioria mulheres negras. Esse setor, que já recebe salários baixíssimos, além de recebê-los frequentemente parcelados, terá de arcar com o custo absurdo de sua alimentação. Desde o fim do ano passado, quando do início do movimento de ocupação da UFRGS, as trabalhadoras terceirizadas vêm denunciando suas condições precárias de trabalho, a perseguição que sofrem e os atrasos em seus pagamentos de salário, VT e VR.

Mas os ataques às terceirizadas não param por aí. A ideia de Opperman é mover uma reestruturação dos RUs, o que, além do aumento absurdo dos preços, inclui a compra antecipada de tickets para acesso aos RUs, o que significa a demissão imediata de todas as trabalhadoras responsáveis pelos caixas dos restaurantes. Serão comprado, no mínimo 6 e no máximo 50 tickets para acesso aos restaurantes. Além disso, a reitoria planeja fechar fim as cozinhas nos RUs 1, 3 e 4, com a compra de refeições já prontas. Na prática, além do aumento nos lucros da empresa que se tornará responsável pela alimentação, o fim das cozinhas significa a demissão massiva de trabalhadores terceirizados, hoje responsáveis pela alimentação da comunidade acadêmica. Trata-se de um ataque direto e violentíssimo contra o setor mais precarizado da universidade.

Se Opperman tem resistido a dialogar com os servidores e a Assufrgs, a relação com as terceirizadas, setor mais diretamente atingido com este ataque, é ainda mais autoritária. No fim do ano passado, quando as trabalhadoras se mobilizaram exigindo uma posição da reitoria que era completamente conivente com todas as falcatruas que a empresa portadora de serviços mantinha para com as terceirizadas, Opperman se negou a recebê-las para dialogar. Mesmo aceitando, muito a contragosto, debater com estudantes, professores e servidores, naquela ocasião as terceirizadas foram diretamente barradas de qualquer possiblidade de diálogo com o reitor.

Como já afirmado, trata-se de uma gestão completamente autoritária. Além de se negar em receber as terceirizadas, não ter sido eleita pela mairoia e recusar qualquer debate acerca do ataque contra os RUs, já denunciamos aqui como a reitoria vem avançando no despejo das 100 famílias da Vila Boa Esperança sem dialogar com a comunidade acadêmica. E nem é preciso dizer que, também nesse caso, Opperman e sua turma têm se negado a receber os moradores da Vila nas reuniões do Conselho Universitário.

A situação da UFRGS é um exemplo da crise das universidades federais. Os ataques de Temer (como a PEC55, que congela aumentos em investimentos na educação) e seus cortes brutais em investimentos em serviços essenciais já se fazem sentir. Diversas universidades brasileiras já se encontram em uma situação financeira caótica. Na UFRGS, Opperman já sinalizou esta crise. Contudo, para solucioná-la, a reitoria pretende descarregá-la, em um primeiro momento, sobre os terceirizados, como o próprio reitor admitiu em entrevista à grande mídia burguesa do estado. É mais uma variante da fórmula aplicada por Temer, na qual a crise gerada pelos empresários é descarregada sobre os ombros dos trabalhadores. No caso da UFRGS, os terceirizados, setor mais precarizado e com menos força de mobilização devido às perseguiçoes e demissões arbitrárias, é que serão os mais diretamente atingidos pelas medidas autoritárias de uma reitoria rejeitada pela maioria da comunidade acadêmica.

Em meio a todo esse ataque brutal aos estudantes, servidores e, principalmente, trabalhadores terceirzados, a atual gestão do DCE, nas mãos do PT e PCdoB, não vem organizando uma luta séria contra a reitoria. Não é muito difícil descobrir os motivos que explicam tal apatia. Em primeiro lugar é necessário mencionar, como já é de conhecimento de boa parte dos estudantes da UFRGS, que parte da atual gestão apoiou Opperman na última eleição (aquela que ele não venceu mas mesmo assim assumiu). Também é nítido o caráter altamente burocrático da gestão. Não houve qualquer assembleia, plenária ou reunião para construir as mobilizaçõs do dia 30 de Junho por parte da entidade (as assembleias que houve partiram da base dos estudantes), que permanece resistindo a chamar espaços de mobilização. Claramente o DCE agiu na esteira do burocratismo da CUT e da CTB, centrais que representa e que tentaram sepultar o 30J. Aliás, não é novidade alguma falar em PCdoB e burocracia estudantil na mesma frase. Aqui no Rio Grande do Sul o partido detém o DCE da UCS em Caxias do Sul (quarta maior universidade do país em número de alunos) e jamais atuou para construir instrumentos de base. Em 2012 chegou a sabotar diretamente o comitê impulsionado pelos estudantes para discutir os ataques do Plano Nacional de Educação petista e, no ano passado, além de se recusarem debater com a base a possibilidade de ocupação, não foram capazes nem mesmo de armar uma luta contra os aumentos nas mensalidades. Não surpreende em nada que sua prática na UFRGS seja de distanciamento da base dos estudantes e aversão à luta.

Veja mais: Cadê o DCE da UFRGS que não está organizando a greve geral do dia 30?

Para barrar essa ofensiva de Opperman é necessário um combate decidido contra a reitoria e a política de ataques e cortes de investimentos de Temer. Nós, da Faísca- Anticapitalista e Revolucionária, defendemos a efetivação imediata de todos os trabalhadores terceirizados sem necessidade de concurso, uma vez que já provaram ser capazes de realizar com êxito suas tarefas. Defendemos também o fim da participação das empresas privadas em setores de pesquisa da UFRGS e de todas as universidades públicas (regulamentada pelo governo Dilma, representado pelo DCE): que as pesquisas desenvolvidas com dinheiro público sirvam para a população em geral e não para as grandes empresas gerarem mais lucro às nossas custas. Exigimos que o DCE impulsione assembleias e espaços de base para debater os ataques do governo Temer à educação pública e aos trabalhadores! Defendemos a necessidade de se construir um comitê de mobilização permanente contra os ataques de Rui Opperman e sua turma, que inclua estudantes e trabalhadores terceirizados. Se a reitoria autoritária se nega a qualquer diálogo, apenas a luta é que poderá barrar seus ataques contra a comunidade acadêmica e, em especial, contra os terceirizados.




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