Educação

ATAQUE AO DIREITO DE GREVE

Reitor da USP corta salário dos que lutam em defesa da saúde e da educação

Marco Antônio Zago, reitor da USP, anunciou que pretende cortar o ponto dos trabalhadores que aderiram à greve contra o desmonte da universidade e do hospital universitário. A orientação é que os diretores das unidades marquem “dia não trabalhado” nas folhas de ponto.

Marcello Pablito

Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo do Sintusp

quinta-feira 2 de junho de 2016| Edição do dia

Depois de sua iniciativa de desmontar a universidade, acabando com as creches, desvinculando os hospitais, fechando o Pronto Socorro infantil, interrompendo a contratação de professores, entre tantas outras medidas de ataque direto à educação e à saúde, agora o reitor Zago diz que irá atacar o próprio direito de se manifestar daqueles que se colocam em luta para defender o que ainda há de público e voltado à população na USP.

A greve é um direito que é garantido constitucionalmente, e mesmo na nossa conservadora lei não se pode simplesmente retirar o sustento da família de um trabalhador porque esse está exercendo seu direito democrático de organização sindical e política. Não há quem possa exercer o seu direito de greve sem poder pagar o aluguel, sem poder alimentar seus filhos. Em 2014, quando Zago tentou mais uma vez cortar o ponto dos trabalhadores, a própria justiça reconheceu isso ao declarar ilegal o corte feito pela reitoria e ordenar o pagamento dos salários que haviam sido retirados pela reitoria.

Nesse ano, já são diversos juristas e professores da Faculdade de Direito da própria USP, como Marcus Orione, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros, que se posicionaram contrários a essa medida autoritária e ilegal por parte da reitoria, colocando-se ao lado dos trabalhadores para exigir o pagamento dos salários.

É esse tipo de medida, que relembra o capitalismo do século XIX, anterior às conquistas dos direitos trabalhistas elementares que vieram a custo de muito sangue, suor e lutas (greves!) que a reitoria da USP quer implementar. Quer impedir que os trabalhadores tenham acesso a seu sustento e o de suas famílias, e, paralelamente, o reitor não marca nenhuma reunião de negociação com os grevistas e nem sequer compareceu às reuniões entre o CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) e o Fórum das Seis (que reúne as entidades representativas dos trabalhadores, estudantes e docentes de USP, Unesp e Unicamp), mostrando sua completa intransigência em negociar qualquer coisa com uma greve que hoje abarca os três setores da universidade.

A greve da USP, que tem sua legitimidade, antes de mais nada, em suas pautas, que além da questão salarial, necessária para impedir que os ganhos dos funcionários e docentes sejam corroídos pela inflação, coloca questões de vital importância para toda a população. O desmonte do Hospital Universitário, como apresentamos, atinge profundamente o atendimento à saúde de toda a população da região. Zago, que com seus luxos de reitor pode frequentar caríssimos hospitais particulares, não se importa em destruir o hospital, e nem em apresentar a proposta de reajuste salarial de 3%, muito abaixo dos 10,44% de inflação medidos pela FIPE.

Não é nova a medida do reitor. Ele tenta imitar seu antecessor, João Grandino Rodas, que desde 2010 tentava minar o direito de greve dos trabalhadores com corte de ponto; Rodas chegou a esse ponto porque a polícia que ele colocou dentro da universidade para acabar com os piquetes dos trabalhadores em 2009 não foi suficiente para derrotar sua disposição de luta. E tampouco foi o corte de 2010, que foi revertido pela forte greve dos trabalhadores. Não podemos permitir que seja Zago que institua o fim do direito legítimo de greve na universidade.

É fundamental que nesse momento todos cerquem essa luta de solidariedade. Nesse momento, os trabalhadores do Serviço de Assistência Social (SAS) já tiveram salários cortados. Nessa unidade estão incluídos os trabalhadores do bandejão, que são dos mais explorados da universidade. Muitos deles apresentam doenças ocupacionais pelo tremendo esforço e sobrecarga de trabalho de servir cerca de dez mil refeições por dia, sendo que há anos não há novas contratações de funcionários. Há trabalhadores que hoje nem conseguem levantar um copo d’água graças à exploração que a reitoria faz sobre seus corpos. E agora, querem lhes cassar o direito de protestar contra isso, ameaçando o sustento de suas famílias.

A luta desses trabalhadores é uma luta de todos os que defendem a educação e a saúde. É uma luta também pelo direito elementar de se organizar sindicalmente e de fazer valer o direito constitucional de greve. Todo apoio aos trabalhadores da USP!




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