Educação

EM MEIO A OCUPAÇÕES

Reitor da UFRGS dá entrevista hipócrita ao Sul 21

Para além de defender a terceirização na universidade e se isentar da responsabilidade pelos sucessivos atrasos no pagamento de salários das terceirizadas, caracterizou os protestos dos estudantes do dia 25 de novembro como ‘criminosos’ e confiou ao Congresso corrupto e golpista a responsabilidade por resolver os problemas financeiros da universidade.

terça-feira 29 de novembro| Edição do dia

A julgar pela manchete do Sul 21, acredita-se que o reitor da UFRGS, Rui Oppermann, está do lado dos estudantes que ocupam seus cursos, dos trabalhadores e lutando por uma universidade mais democrática e igualitária. Nem parece o senhor que foi eleito mesmo tendo menos votos que um de seus adversários e que promove a terceirização na universidade… Mas como já dizia a velha expressão popular, ‘não acredite em palavras’. A prática diz muito mais sobre a pessoa do que as coisas que diz ou que acredita sobre si mesma.

A hipocrisia salta aos olhos quando diz que está trabalhando para combater a intolerância e o preconceito enquanto defende abertamente a terceirização (e até agora só ouvimos promessas e palavras sobre a punição aos agressores do estudante indígena no início do ano). Desde o início das ocupações o movimento estudantil vem ressaltando a importância da luta contra a terceirização, importância essa que ganhou destaque durante o processo de mobilização das próprias terceirizadas que tiveram os seus salários e benefícios atrasados por parte da empresa Multiágil, reconhecida por lavagem de dinheiro no caso da Fasc.

Racismo e machismo institucional

A maior parte dessas funcionárias da limpeza são mulheres negras, que cuja realidade da terceirização escancara o racismo e machismo institucional da universidade ao promover um regime de trabalho extremamente precário, que segrega terceirizadas do restante da comunidade acadêmica. Para além dos sucessivos atrasos de salário, os assédios morais são frequentes, bem como uma série de problemas que vão desde a invisibilização marcada pelo uniforme, os produtos de péssima qualidade e a proibição de conversar com os estudantes. Há tempos viemos afirmando que a responsabilidade dessa situação recai acima de tudo na universidade que contrata os serviços dessas empresas. Tudo isso para garantir os lucros dessas empresas milionárias.

Que universidade de “excelência” é essa na qual para se obter altas notas nos rankings internacionais é necessários submeter centenas de trabalhadoras a um regime de trabalho absurdo, com salários de miséria e restrições desumanas? Quando questionado sobre a efetivação dessas trabalhadoras sem a necessidade de concurso público, o reitor tergiversa e desloca a discussão para outro lado, dizendo que a proposta é “totalmente descabida”.

Em primeiro lugar, “descabido” é trabalhadores receberem salários de miséria atrasados, com vale-refeição parcelados, para trabalharem com assédios morais constantes, invisibilizados, segregados e discriminados todos os dias na maior e mais importante universidade de ‘excelência’ do Rio Grande do Sul. “Descabido” é repetir o palavreado de democracia sem prezar pelo mínimo de dignidade e respeito para com as centenas de funcionárias terceirizadas dentro da universidade. “Descabida” é a terceirização que explora e divide.

Em segundo lugar, o concurso público surgiu para romper com as relações interessadas no âmbito público e comprovar se a pessoa está apta ou não para efetuar determinada função. Acontece que essas trabalhadoras já comprovam todos os dias que estão aptas a cumprir a função que lhes é delegada, e obviamente sua efetivação não configuraria relação de interesse escusa. Fazer um concurso neste caso poderia significar a demissão de inúmeras trabalhadoras, pois para serem aprovadas seria necessário passar por um “vestibular” onde a maior parte dos aprovados são os que tiveram acesso à educação de qualidade, realidade distante de boa parte dessas trabalhadoras. A verdade é que a terceirização é hoje uma das faces mais cruéis da sociedade capitalista em que vivemos. Ela submete milhões de trabalhadores diariamente a regimes de superexploração e humilhação.

— > Veja aqui 10 motivos para defender a efetivação imediata dos terceirizados

O problema da terceirização tende a se aprofundar na medida em que a crise econômica avança e as medidas de ajustes dos governos continuam. Como a própria reitoria já sinalizou, a tendência é de a situação na universidade se agravar com a aprovação da PEC 55 e a terceirização é uma maneira de rebaixar salários dos trabalhadores, gastando menos, precarizando o serviço como um todo e dividindo os trabalhadores entre terceirizados e efetivos.

Investigando as contas da universidade…

Pouco se pode concluir a partir dos dados disponíveis ao público no site da universidade e do governo acerca dos gastos com empresas terceirizadas. Analisando o site da transparência do próprio governo federal, encontramos o contrato de quase R$ 15 milhões entre a universidade e a empresa Multiágil entre os anos de 2015 e 2016. Se dividirmos esse montante pela quantidade de empregados (menos de 600), como é possível ver no próprio site da UFRGS, cada funcionário custa para a universidade 2,5 vezes a mais do que o salário que recebe. Mas os custos com os produtos de limpeza, INSS, FGTS, e outros gastos não estão disponíveis, dificultando o acesso à transparência total.

Supõe-se, neste caso, que o rendimento ilegal se dá através dos atrasos dos pagamentos de benefícios, dos quais a empresa deixa rendendo no banco um montante milionário enquanto o trabalhador fica sem vale-transporte ou vale-refeição durante alguns dias, semanas ou meses. Outras hipóteses também são possíveis, como a existência de funcionários fantasmas dado o escândalo da Fasc em 2014 envolvendo a Multiágil e contratos fraudulentos que envolviam milhões de reais. Dessa empresa não podemos esperar nada diferente. Mas só com os dados públicos é difícil averiguar tudo. Por isso é necessário ir mais a fundo nesse caso, exigindo que as empresas e a reitora abram de fato seus livros de conta, verdadeiras caixas-pretas que não sabemos até o final para onde vai o dinheiro pago por impostos dos trabalhadores de todo o país.

Para ’resolver’ a crise, o reitor confia no Congresso de corruptos e golpistas

Enfim, a lista de problemas da terceirização é longa, assim como a hipocrisia do reitor. Sobre como resolver os problemas financeiros da universidade, o reitor foi direto: depositar a confiança nos parlamentares gaúchos e no Congresso nacional para arrecadar mais fundos para a UFRGS. Sabemos que a crise pela qual passa a universidade é uma crise mais profunda que diz respeito ao conjunto dos problemas na educação, e não será desse congresso de golpistas, corruptos e reacionários que saúdam torturadores como Ustra que sairá qualquer resposta. Em outra entrevista para a Zero Hora, aprofundando a já existente privatização em curso numa das mais elitistas universidades do país.

Como se tudo isso não bastasse, os que resistem aos ataques do governo são taxados de criminosos pelo excelentíssimo reitor, como assim definiu o ato dos estudantes na manhã do dia 25 de novembro. Quem criminaliza a resistência está de que lado?

Para reverter essa situação devemos confiar apenas em nossas forças, dos trabalhadores aliados aos estudantes que se colocam em luta hoje. Apenas assim vislumbraremos uma saída efetiva para os problemas da universidade e da educação como um todo. Estamos dando passos pequenos, porém importantes com as ocupações. Forjar nesse caminho uma unidade entre os setores da universidade é imprescindível.




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