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BREXIT

Reino Unido vota pela saída da União Europeia

As redes de televisão britânicas BBC e ITV, acompanhadas pelos principais periódicos digitais como o The Guardian, The Independent, e os jornais das finanças como o Financial Times, anunciaram antes do final da votação a diferença de quase 1 milhão de votos que colocava ponto final no resultado do plebiscito, que resultou na votação da saída do Reino Unido da União Europeia. Grande derrota para o primeiro ministro David Cameron a um ano de sua reeleição.

André Augusto

Natal | @AcierAndy

sexta-feira 24 de junho de 2016| Edição do dia

Nesta sexta-feira pela madrugada se confirmou a decisão histórica do Reino Unido de se separarem da União Europeia, o bloco político e econômico que hoje congrega 28 países e ao qual aderiram em 1973. O processo ainda precisa passar pelo Parlamento, mas um veto pelos legisladores é considerado suicídio político.

As principais redes de TV britânicas —BBC, Sky News e ITV— projetaram a vitória da saída logo após as 4h30 de Londres (0h30 do Brasil). Pesquisa do instituto YouGov divulgada logo após o fim da votação apontava 52% para a permanência e 48% para a saída da UE — sinal de quão acirrada foi a disputa.

A consulta popular registrou índice histórico de comparecimento — 71% do eleitorado— e recorde de 46,5 milhões de eleitores registrados.

O processo de negociação da ruptura deve levar dois anos. Com votos de 87% dos distritos do Reino Unido apurados, a opção por deixar a União Europeia prevalecia, abalando mercados financeiros e provocando uma onda de choque e incredulidade global.

Nigel Farage, líder do partido xenófobo de extrema direita UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), um dos capitães da campanha pró-saída, “declarou” o 24 de junho como o “Dia da Independência” do Reino Unido.

Nem bem terminada a contagem, a libra esterlina (moeda inglesa) afundava nos mercados financeiros internacionais, perdendo mais de 9%, sua pior marca desde 1985, e arrastando atrás de si as bolsas asiáticas de Hong Kong e de Tóquio, que perderam mais de 5%.

Este resultado, temido por todo o establishment político e midiático, representa uma enorme derrota para o primeiro ministro David Cameron, que muito provavelmente deverá renunciar ao cargo. Cameron, que foi reeleito em maio de 2015 durante uma crise dentro do Partido Conservador (Tories), prometeu como resultado do triunfo eleitoral convocar um plebiscito pela permanência do Reino Unido na UE como forma de apaziguar as disputas internas com o líder Conservador e ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, que encabeçou a campanha pelo Brexit.

Trata-se da segunda ocasião em menos de 2 anos na que se convoca aos britânicos a ir às urnas para decidir sobre questões relacionadas com a soberania de seu país. Em 18 de setembro de 2014, a consulta dizia: “Deveria a Escócia ser um país independente? Sim ou Não”. Nessa ocasião, o “Não” à independência se impôs com 55,3 % dos votos, frente a 44,7 % dos partidários pela separação.

Nas regiões de composição majoritariamente operária, como o nordeste e sudeste da Inglaterra, a votação pela saída da União Europeia foi majoritária. Excetuando-se Liverpool, as regiões nordeste, noroeste, leste, sudeste e sudoeste da Inglaterra votaram pelo Brexit. Em Sunderland a diferença foi de mais de 22%, alcançando 67% dos votos pela saída. Na zona de Newcastle (uma cidade universitária, mas com grandes bolsões de empobrecimento fruto da desindustrialização e perda de emprego) onde era esperada a vitória com folga do “Remain” (permanecer), esta opção ficou apenas 1% acima do Leave (sair).

A Escócia votou majoritariamente pela permanência, enquanto a opção pelo Brexit venceu no País de Gales e na Irlanda do Norte. Isto deixa em aberto o futuro destes países como parte do Reino Unido da Grã-Bretanha, assim como inspiram o fortalecimento das forças políticas de extrema direita que se utilizaram da campanha pela saída da UE como tribuna de xenofobia contra os imigrantes.


Nigel Farage, líder do UKIP

Um partido da Irlanda do Norte, Sinn Fein, postou em sua conta de Twitter que “o governo britânico abdicou de qualquer mandato para representar os interesses econômicos e políticos do povo da Irlanda do Norte”, exigindo plebiscito separatista do Reino Unido. Patrick Harvie, líder do Partido Verde Escocês, disse que “apoiaria” um novo referendo pela separação da Escócia frente à Inglaterra, caso a líder do SNP (Partido Nacional Escocês), Nicola Sturgeon, queira convocá-lo.

Já Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade, de extrema direita na Holanda, parabenizou os britânicos e disse que "é hora dos holandeses saírem da União Europeia. Referendo na Holanda já!".

O chanceler George Osborne já havia anunciado que no caso do Brexit vencer, haveria "necessidade de cortar gastos e aumentar impostos" pelas dificuldades econômicas que veria com a queda da libra. Analistas econômicos, em parte para enfatizar a campanha em favor do "Remain", como o ex-secretário do Tesouro norteamericano Lawrence Summers e o colunista-chefe do Financial Times, Martin Wolf, enfatizaram os problemas derivados da desvalorização da libra esterlina no pagamento da dívida estatal britânica, o encarecimento do crédito para as finanças londrinas e a queda no investimento estrangeiro direto como consequência das incertezas da saída.

Entretanto, quanto mais campanha faziam os meios oficiais e o governo em favor da permanência na UE, mais se aprofundava o sentimento de repúdio ao sistema e o empobrecimento de amplas camadas de trabalhadores fruto da crise econômica mundial. Este rechaço ao regime político tradicional e seus partidos (que na Inglaterra está composto principalmente pelos conservadores e os trabalhistas do Labour Party) atravessa alguns países centrais da Europa e também os Estados Unidos, dando origem ao crescimento de fenômenos de extrema direita como o UKIP de Farage e organizações paramilitares como o Britain First, responsável pelo assassinato da deputada do Labour, Jo Cox, durante a campanha do plebiscito.

Como dissemos no Esquerda Diário, os trabalhadores que lutam contra os ataques do governo, pela defesa da saúde e da educação, a juventude que se solidariza com os imigrantes e forma parte de redes de ativistas solidários, não tem nada a ganhar com esse referendum em que competiram duas opções igualmente reacionárias: uma política nacionalista anti-imigrante representada por Farage e os partidários do Brexit, ou uma alternativa europeísta xenófoba e austeritária, dentro da União Europeia.




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