Educação

QUERO MINHA CRECHE!

Registros da Ocupação Creche Aberta, na Creche Oeste da USP

No dia 16 de janeiro, funcionárias e funcionários do estabelecimento de ensino foram surpreendidos durante suas férias com um informe de que um caminhão de mudança retiraria todos os móveis e equipamentos da Creche Oeste. Esta seria desmontada e todas as crianças transferidas para a Creche Central. A ocupação deste espaço foi uma última alternativa para manter seu funcionamento e evitar assim o já anunciado fim de todas as creches da USP.

quarta-feira 1º de fevereiro de 2017| Edição do dia

“O reitor tá doente da cabeça, doente do pé, doente do coração
Nunca veio brincar com a gente, estudar com a gente, não conhece as creches não
Nunca veio brincar com a gente, dançar com a gente, não sabe o que é educação”

No dia 16 de janeiro, funcionárias e funcionários do estabelecimento de ensino foram surpreendidos durante suas férias com um informe de que um caminhão de mudança retiraria todos os móveis e equipamentos da Creche Oeste. Esta seria desmontada e todas as crianças transferidas para a Creche Central. A ocupação deste espaço foi uma última alternativa para manter seu funcionamento e evitar assim o já anunciado fim de todas as creches da USP.

No dia 22 de janeiro, mesmo com a ocupação pelos pais, funcionários e crianças, a polícia esteve desde as 7h da manhã, acompanhando a colocada de tapumes ao redor da Creche, pressionando a ocupação e insistindo em começar as obras no prédio.

“Era uma vez um grupo de mulheres que estudavam e trabalhavam e não tinham onde deixar seus filhos na USP. Agente nem tinha nascido, lá nos anos 70. Ai elas foram pras lutas e fizeram as passeatas de bebês e exigiram que a reitoria construísse as creches para as mulheres poderem trabalhar e estudar”

“(...) uma dessas mãos aqui (no muro pintado) é minha. É uma coisa muito legal que a gente fez que eu lembro até hoje (...)”


Caminhando pela ocupação, é muito fácil perceber a riqueza desse espaço, o valor que tem para as crianças que lá estudaram e que deixaram suas marcas...


“Essa creche aqui me ajudou a aprender bastante coisa e agora que eu já tô no quarto ano eu fico muito feliz de ter estudado aqui. Então, não quero que fechem essa creche porque outras crianças merecem estudar aqui”

“Quando eu estudava aqui na Creche Oeste da USP, eu me divertia muito, aprendia muito, eu adorava subir nessa árvore com meus amigos, eu tenho muitos amigos até hoje dessa creche, eu acho que essa creche é muito importante”

Um pouco do conflito

Em 2015, a comunidade USP recebeu a notícia de que não abririam mais vagas nas creches devido à suposta crise financeira da universidade.

Trata-se de um retrocesso enorme, onde os principais prejudicados são as crianças e as mulheres, pois estas são historicamente responsabilizadas pelos cuidados com os filhos, dificultando e até impedindo o direito ao estudo.

Essas creches são referências nacionais e internacionais. Entre 2009 e 2014 receberam mais de 680 estagiários de várias unidades da USP. Já foram realizados mais de 280 trabalhos acadêmicos, mais de 6600 visitas guiadas do Brasil e outros países. Os professores também desenvolvem pesquisas que são levadas em fóruns, congressos, simpósios, etc, elevando o nome da universidade no meio acadêmico, embora não sejam reconhecidos pela universidade como professores (são chamados de funcionários técnicos).

No fim do ano passado, as creches da USP receberam o prêmio “Arte na Escola Cidadã”, de melhor trabalho do país na Educação Infantil. A professora Janeide de Sousa Silva orientou o projeto Diversidade étnica: brincadeiras, jogos, danças e histórias desenvolvido na Creche Central da Universidade de São Paulo e apresentou às crianças um universo de elementos da cultura africana, afro-brasileira e indígena. Este exemplo, dentre inúmeros, demonstra como as creches da USP são centros de referência em educação infantil.

Hoje, na recepção de volta às aulas que pais, mães, educadoras, crianças e apoiadores organizaram, vimos crianças brincando felizes ao reverem seus amigos, se despedindo daquele espaço que preencheu maior parte de suas vidas. Vimos diversas atividades, danças, mas também olhos marejados de saudade, incerteza, da árdua batalha que vêm travando em defesa das creches.

Contraditoriamente aos planos de corte de gastos da reitoria de tudo aquilo que o reitor Zago chama de “penduricalho” da universidade, ano passado, após muita luta o movimento em defesa das creches conseguiu provar que estas sem crianças gastam mais do que com elas. Só em 2015 e 2016, a USP gastou 1.200.000 a mais com auxílio creche, ou seja, um dinheiro exorbitante que poderia ser poupado com as crianças preenchendo as vagas. Diante disso, o Conselho Universitário da USP (órgão máximo de decisão) votou pela reabertura das vagas nas creches. Mas invés de seguir esta deliberação, abriu um edital com muito menos vagas do que existem (no total são 700 e existem agora apenas 210 crianças) e ainda por cima decidiu fechar a Creche Oeste (que já atendeu mais de 110 crianças), mandando um caminhão na surdina das férias fazer o despejo. Pais receberam o aviso de que a creche não funcionaria mais apenas uma semana antes da volta às aulas.

A creche é direito à educação, direito trabalhista, é política de permanência estudantil, é ensino, pesquisa e extensão. Ou seja, não é atividade “meio”, é atividade fim, atividade que justifica a existência das universidades. Esse projeto de educação não pode acabar, pelo contrário, deve extravasar a USP e abarcar toda sociedade, por isso o defendemos, por isso ocupamos a Creche Oeste.

Conheça aqui o projeto ganhador do prêmio “Arte na Escola Cidadã”, da professora Janeide de Sousa:




Tópicos relacionados

Educação   /    São Paulo (capital)

Comentários

Comentar