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Reformismo, centrismo e revolução

A seguir, apresentamos algumas conclusões do terceiro dia da Conferência da Fração Trotskista.

domingo 14 de agosto| Edição do dia

Em artigos anteriores nós analisamos brevemente as discussões dos dois primeiros dias da Conferência. Sobre a evolução da crise capitalista e as principais tendências da situação política internacional.

Nestas linhas abordaremos algumas conclusões das discussões sobre as novas características que o reformismo adota hoje, as diferenças entre o chamado "neoreformismo" e o reformismo operário; as estratégias de construção de partidos revolucionários na atualidade; e o papel dos jornais na construção das diversas organizações que compõem a FT.

O reformismo operário, o reformismo pequeno-burguês

Com a crise global, vimos o desenvolvimento de organizações reformistas nos países centrais. Estes "neoreformismos" como, por exemplo, o Syriza na Grécia, ou o Podemos na Espanha, apresentam diferenças fundamentais com o reformismo clássico que caracterizou o século XX, com seus emblemas como o Partido Social Democrata alemão, ou o Partido Comunista Italiano, após a Segunda Guerra Mundial.

O característico deste neoreformismo é que ele não se baseia nos batalhões centrais da classe trabalhadora. Trata-se de um reformismo pequeno-burguês, cuja principal base social, como vemos no caso do Estado espanhol com o Podemos, se encontra entre os jovens universitários, "sobre-educados" (para os padrões capitalistas) e sub-empregados, assim como na juventude precarizada.

Os tradicionais partidos reformistas de massas se tornaram agentes da ofensiva neoliberal, quebrando laços com a sua base operária tradicional. Atualmente não há partidos como o PC italiano após a Segunda Guerra Mundial, que se tornou o Partido Democrático, tomando o programa dos democratas americanos. Uma das últimas organizações que surgiram desse tipo foi justamente o PT do Brasil, a partir dos sindicatos da CUT nos anos 80.

Daí que o reformismo operário realmente existente passe hoje pelos sindicatos; o que, obviamente, não implica que todos os sindicatos são reformistas.

Por exemplo, vimos as ações dos sindicatos na França durante a luta contra a reforma trabalhista. Por um lado, a ação do sindicalismo amarelo de Jean-Claude Mailly, principal líder da Force Ouvrière (FO), que aproveitou a primeira oportunidade que teve para chamar a abandonar a luta.

Por outro lado, aquele reformismo operário realmente existente do qual falávamos ficou expresso na CGT, liderada por Phillip Martinez, que desenvolveu uma verdadeira "estratégia de desgaste" do movimento, diluindo no tempo a grande força que se expressou nas manifestações de centenas de milhares em toda a França, nos piquetes e nas greves contra a reforma trabalhista de Hollande.

No entanto, como observaram os companheiros da CCR na Conferência, trata-se de uma burocracia muito mais débil quando comparada com aquela dirigida da cabeça aos pés pelo PCF, que foi capaz de evitar o desenvolvimento revolucionário do Maio francês. Vemos, por exemplo, no diálogo que Martinez foi forçado a estabelecer com a juventude Nuit Debout, muito diferente da CGT em 68, que pôde fechar um muro entre os estudantes radicalizados e o movimento operário dos sindicatos.

Certamente, os sindicatos são tão diversos quanto a classe trabalhadora entre os diferentes países. Se por um lado no "Oriente", como no caso da China, encontramos sindicatos que são usados pelo PCC como departamentos do Estado; no "Ocidente" a ofensiva neoliberal significou um salto na estatização dos sindicatos. Este processo se deu ao mesmo tempo do enorme crescimento mundial da classe trabalhadora nas últimas décadas e de um processo de fragmentação de tamanho similar; divisão entre contratados e efetivos, formais e informais, nativos e imigrantes, etc.

Neste contexto, questões como a independência dos sindicatos com relação ao Estado, a unidade das linhas operárias, a democracia nos sindicatos, táticas como a Frente Única dos Trabalhadores ("golpear juntos, marchar separados"), a exigência às burocracias reformistas são chave para a intervenção dos revolucionários de hoje.

Leninismo e "centrismo": duas estratégias para a construção do partido

A estratégia para a construção de partidos revolucionários tem sido um dos principais debates que cruzaram a Conferência da FT-CI.

Desde o século XX, duas estratégias de construção de partido passaram pelo movimento operário. A de partidos de "massas", geralmente aparatos eleitorais que organizam uma base passiva de filiados, de "gestão" dos sindicatos, com programa reformista. É a forma de partido daquele reformismo operário "clássico" que mencionamos no início.

A outra foi a do "partido de vanguarda, com influência de massas", formulada a primeira vez por Lênin. Um partido para o combate na luta de classes, que reúne a vanguarda por trás de um programa revolucionário e a partir daí luta pela influência de massas através do desenvolvimento de correntes revolucionárias no movimento operário, no movimento estudantil, na intelectualidade, etc.

Entre essas tendências se discute a estratégia atual de construção de partido. Não porque estão ressurgindo grandes partidos operários reformistas, mas porque parte da esquerda que se reivindica anticapitalista pretende imitar, minimamente, aquela estratégia.

Por exemplo, no caso do Brasil, temos, por um lado, o PSTU, que se contenta em fazer uma pequena central operária alternativa (Conlutas) para refugiar-se nos sindicalismo, enquanto, por outro lado, o PSOL se concentra na propaganda eleitoral, com setores como o MES, que levantou uma aliança com Marina Silva (variante reciclada do neoliberalismo que conta com o apoio do Banco Itaú). Uma espécie de "divisão de tarefas", onde ninguém tem uma estratégia abrangente para influenciar progressivamente de uma forma revolucionária o movimento de massas.

Em diferentes níveis, as organizações que compõem a FT-CI buscam desenvolver uma prática muito diferente partindo de uma concepção leninista. Por exemplo, no PTS, utilizamos o Jornal Esquerda Diário para nos dirigirmos a setores avançados, buscando influenciar os setores de massas, juntamente com as nossas referências e nossos parlamentares, enquanto construímos correntes revolucionárias no movimento operário, no movimento estudantil, no movimento das mulheres e na intelectualidade.

Isso nos diferencia na Argentina do PO que, no movimento operário e nos sindicatos (e também no estudantil), tem uma política de alianças por cima, sem fazer organizações militantes. Daí que sai do horizonte a Frente Única Operária, e desiste de realizar qualquer exigência à burocracia, adotando, sob diferentes nomes, a ideia de uma “central” alternativa do próprio PO.

Ao contrário, na política do PTS é fundamental o desenvolvimento da Frente Única defensiva contra o capital, porque é desta Frente Única que, em momentos de Ascenso, podem se desenvolver organismos do tipo soviético, ou seja, de Frente Única para passar a ofensiva pela conquista de um governo dos trabalhadores, no seu sentido antiburguês, anticapitalista e revolucionário.

Leninismo 2.0

O desenvolvimento da Rede Internacional, com 11 jornais em 5 línguas, mudou enormemente a cara da FT-CI de conjunto, como corrente internacional.

No caso do PTS, que é a organização com maior peso da FT, ele veio para promover as possibilidades de agitação de massas que havíamos conquistado através dos parlamentares, da intervenção na mídia e das campanhas eleitorais com a FIT. Por sua vez, no recente Congresso do PTS, discutimos transformar o jornal em um "organizador coletivo" (ver: "O organizador coletivo de um grande partido"). Uma revolução em nossa prática política que anda de mãos dadas com o desenvolvimento de correntes revolucionárias nos sindicatos, no movimento estudantil e de mulheres, dos quais falamos anteriormente. Trata-se de retomar a proposição de Lênin sobre o papel do jornal ligado à construção de um partido de vanguarda, com influência de massas, nos termos e com os meios do século XXI.

As organizações da FT têm diferentes realidades e estão em vários estágios de desenvolvimento. No Brasil, Chile, México, França, países onde a nossa militância já tem centenas, a criação dos jornais significou uma mudança, em certo sentido, ainda mais importante do que para o PTS, já que lhes permitiu projetar uma ampla visibilidade política. E também a diferentes níveis para o resto das organizações da FT nos seus respectivos países.

No caso da Revolução Permanente da França, por exemplo, o jornal tornou-se uma das vozes dos jovens e dos trabalhadores que saíram para lutar contra a reforma trabalhista e obteve amplo reconhecimento entre a intelectualidade de esquerda, colocado pela New Left Review (Revista política britânica) como um dos exemplos de novos meios alternativos.

Ou no caso do Brasil, o Esquerda Diário como porta-voz de uma posição independente do PT contra o golpe institucional. Poderíamos dizer que ele cumpriu o papel de expressar simbolicamente uma espécie de "terceiro partido" na profunda crise brasileira, enquanto os partidos tradicionais de esquerda, como o PSOL e PSTU, dividiam suas simpatias entre o "campo" golpista e o lulismo.

Em diferente escala, tem havido exemplos deste tipo de projeção com a ajuda dos jornais, seja em um determinado setor ou ao redor dos processos de luta de classes, o que faz com que o desenvolvimento de grupos seja muito menos propagandístico. Mas no geral ainda prevalece a fase de acumulação de quadros para ser possível dirigir-se, de forma generalizada, ao movimento de massas.

Daí que a atividade de propaganda, a formação de quadros, seja de fundamental importância para permitir que os novos companheiros e companheiras que estão começando a organizar-se conosco passem a ser marxistas revolucionários e políticos revolucionários do proletariado.




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