Educação

Reformas educacionais na Argentina e a luta dos secundas

Sagui

Estudante Secundarista de Campinas

domingo 15 de outubro| Edição do dia

Na Argentina, uma reforma do ensino médio está em curso. Ela aparece como a continuação da aplicação do New High School (NES), e visa ser implementada em 2018 de forma “gradual” para todas as escolas secundárias, onde primeiramente seriam em 17 escolas até chegar em 132 escolas em 2021. Propondo um ciclo básico de dois anos, um orientado de outros dois, um quinto (e sexto em escolas técnicas) com metade do ano dedicado ao empreendedorismo e outra metade para "além da escola", com estágios em instituições e empresas para desenvolver "talentos" e interesses.

O ministro da Educação da Cidade, Soledad Acuña e o ex-ministro da Cidade e Nacional, Esteban Bullrich, que sequer são educadores, passaram essa nova reforma e querem a impor sem nem conversar com os estudantes, professores, pais e a comunidade em geral.

Umas das principais desculpas do governo de Mauricio Macri para implementar a reforma educacional é com base no fato de que uma porcentagem significativa dos estudantes do ensino médio deixam de ir à escola. Ignorando o fato que a educação argentina sofreu durante anos com a estratificação do ensino para os pobres, que apenas no século XX as classes médias e baixas tiveram o acesso a escola de ensino médio.

A Argentina que sofreu um longo período de ditadura, apenas na volta da “democracia” removeu os exames de admissão nas escolas, e sendo somente em 2006, promulgada a lei nacional 26206 que estabelece o nível secundário como obrigatório. Como efeito disto, em 1980, apenas 10% da população com mais de 25 anos completaram o ensino secundário; esse valor cresceu para 19,7% de acordo com dados do Censo de 2010, e entre 20 e 24 anos a porcentagem aumentou para 30%. Logo, estes jovens que abandonam as escolas são justamente boa parte daquele que tiveram a primeira oportunidade na família a cursar o secundário.

Pois bem, aquilo que vem como desculpa e uso de uma realidade que realmente afetam os jovens, na verdade faz parte de um plano econômico do próprio governo de Mauricio Macri (atual Presidente da Argentina, empresário e engenheiro civil), como parte da tentativa de implementar uma nova reforma trabalhista que atacas dos direitos trabalhistas e a organização dos trabalhadores, assim como apoia as demissões, os empresários e as repressões policiais aos secundaristas e seus pais, trabalhadores.

Quanto a reforma, a proposta do governo é que nos dois primeiros anos de secundário seriam de ciclo básico, após duas orientações, no quinto ano se dividiria em 50% aplicados em treinamento em empreendedorismo (que incentiva a interferência de empresas na educação pública) e 50% em estágios, aqui os alunos seriam agrupados em quatro áreas (a linguagem e a literatura acompanha a educação física, por exemplo). Deixando em aberto não somente os assuntos de história (onde no quinto ano se estuda desde a última ditadura na Argentina até os dias de hoje), mas também fornecendo mão de obra barata para as empresas, que no caso, seria quase sem remuneração, metade de um salario.

Além disso, a passagem do nível primário para o secundário se dá através de um relatório de pontos fortes dos professores da 7ª série, para ter um ponto de partida para acompanhar a trajetória do aluno desde o início, em forma personalizada.

Interessante que na cidade de Buenos Aires, nos últimos 10 anos, o orçamento educacional foi reduzido em 10% em relação ao orçamento geral, deixando as escolas com os telhados caindo, falta de vagas e os alunos do ensino médio deixando de estudar para trabalhar. A interferência de empresas nas escolas, utilizando os alunos em estágios mais remunerados é um dos caminhos encontrados para aumentar os lucros.

Parte dos argumentos do governo argentino para esses estágios mal remunerados é que por meio deste é possível experiência de trabalho, porém muitos desses estágios oferecem o que tem de pior para os jovens.Na verdade, ao invés do governo escutar a comunidade escolar e dar condições para que os estudantes permaneçam estudando, deixa na mão de empresários os interesses e limites da vida de milhares de estudantes do ensino médio.

Desde o inicio do ano os secundaristas levantaram a campanha “Nossa educação vale mais do que seus lucros, do que seu sistema” e “Plano de bolsas para que ninguém deixe de estudar”, contra a “Secundaria do Futuro”. Cerca de 30 escolas permanecem ocupadas pelos estudantes, com o apoio de pais e sindicatos, fazendo assembleias, atos de rua, que no começo do mês de setembro os estudantes secundaristas já organizaram com quase 5 mil pessoas.

Desde o Brasil, deixamos nossa solidariedade aos secundas argentinos e dizemos que em toda América Latina, vai ter luta contra as Reforma do Ensino Médio organizadas pelos empresários, seus ministros e o Banco Mundial!




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