Educação

Reforma do Ensino Médio

Reforma do Ensino Médio: uma ponte para o retrocesso educacional

MP do ensino médio recebe mais de 500 emendas de parlamentares, e demonstra o total despreparo do governo ao lidar com a educação brasileira.

sexta-feira 30 de setembro| Edição do dia

Já dizia Paulo Freire “Não basta saber ler que ’Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.

Parece que a reforma do ensino médio trás uma proposta bem diferente da defendida por Freire. Em meio a inúmeras tentativas de modificar o currículo escolar deputados e senadores mandaram nos últimos dias 567 emendas, com objetivos para alterar os conteúdos traçados pelo governo através da medida provisória do ensino médio.

A MP, permite que a grade curricular seja flexibilizada e que os estudantes possam escolher até metade dos conteúdos que irão estudar. Para não perder efeito, essa medida precisa ser aprovada em até 120 dias pelo Senado.

Ela ainda não está em debate, mas segundo seus idealizadores será montada uma comissão para análise e discussão.

Nesta quinta, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que tenta cancelar a MP, pediu explicações ao governo e ao congresso sobre a reforma.
O assunto da reforma do ensino médio acontece em meio a grandes ataques do governo golpista de Temer, e chega ao cúmulo de cogitar a extinção de matérias cruciais para o desenvolvimento humano como: Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física, e o fim do ensino noturno para essa modalidade de ensino.

Hoje contamos com quase 2 milhões de alunos nessa fase escolar, e 1/3 estudam no período noturno, pois trabalham durante o dia para ajudar no sustento dos seus lares. Essa medida certamente irá contribuir para o número de evasão escolar, pois diante da realidade brasileira muitas famílias contam com a renda desses jovens e o trabalho se torna prioridade nesses casos.

Ao impor uma medida provisória o governo deixa claro que não quer dialogar com membros ativos do processo educativo, e que o novo estudante não precisa adquirir pensamento crítico e expressivo para atuar na sociedade idealizada por ele.

“Não pense em crise, trabalhe”, realmente veio como um tiro na área educacional, pois além de tirar muitas matérias, apresenta para o estudante à possibilidade de se formar num ensino médio com especificação em algumas áreas profissionais, ofertando uma base precária, apenas para encontrar um trabalho e seguir a vida, sem precisar buscar o ensino superior.

Esse ponto não está sendo lembrando nas discussões do Congresso, pois a reforma muda o Ensino Médio, mas não muda os mecanismos de ingresso no vestibular para o ensino superior, ou seja, tiro conteúdos, mas cobro-os em outro momento.
Atualmente os filhos de trabalhadores, e até mesmo os trabalhadores já contam com grandes dificuldades para ingressar no ensino superior, e a reforma irá contribuir para o fim de uma carreira acadêmica para esses estudantes.

Outro ponto absurdo se dá pela desvalorização da classe docente, ao alegar que qualquer pessoa com “saber notório”, pode lecionar. Ora voltamos à época do Pombal? Onde qualquer pessoa podia transmitir seus conhecimentos prévios, sem aprofundar os conteúdos no conhecimento científico?

Além disso, percebemos as contradições desse governo que ao mesmo tempo discute uma Lei da Escola Sem Partido, onde o aluno é colocado como ser incapaz de decidir sobre suas escolhas, e em seguida lança uma MP que diz que o jovem é capaz de escolher os conteúdos a serem aprendidos por eles. Enfim, deixa muito claro o jogo manipulador em prol de interesses políticos, econômicos e até religiosos, pois quando lhes convém o jovem escolhe.

Diante da nossa conjuntura política, apenas ler “A Eva viu a uva”, não nos cabe mais, precisamos lutar por uma educação libertadora, que crie uma consciência crítica e reflexiva, que contribuía para a emancipação humana.

Devemos seguir o exemplo dos secundaristas que se colocam em luta por uma educação pública de qualidade que atenta às demandas reais da nossa sociedade, e não as demandas desse governo golpista que atua em favor desse sistema opressor, pois assim como pensava Paulo Freire, “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.




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