Gênero e sexualidade

Reflexões sobre o mês do Orgulho no governo Trump

Trump tweetou em apoio ao mês do Orgulho, enquanto mulheres trans morrem em centros de detenção. O que significa ser LGBT durante os anos Trump?

segunda-feira 1º de julho| Edição do dia

O ataque violento a duas mulheres LGBTQ em um ônibus londrino esse mês é apenas o exemplo mais amplamente divulgado dos crimes de ódio perpetuados contra pessoas LGBTQ todos os dias, o que não se limita a atos evidentes de violência interpessoal. Ainda que pessoas LGBTQ tenham conquistado muitos direitos, 50 anos depois do nascimento de nosso movimento radicalizado, Stonewall, nossa opressão continua. Com o Fim de Semana Mundial do Orgulho rapidamente se aproximando, vamos analisar algumas batalhas correntes que a população LGBTQ ainda vivenciam, particularmente debaixo da atual administração Trump.

O Orgulho é a celebração das Revoltas de Stonewall, do nosso direito de viver livremente como nós mesmos, e dos direitos que nós conquistamos através do ativismo desde 1969. Porém, devemos lembrar que as mesmas forças que nos oprimiam então - as mesmas forças que criminalizam nosso modos de ser, que nos agrediram, humilharam e desviaram o olhar quando outros nos agrediram e humilharam, que depois recusaram a financiar a pesquisa na AIDS e deixaram centenas de milhares da nossa comunidade morrerem - continuam a nos oprimir hoje. Enquanto atualmente eu tenho minha seleção de bares gays quando eu quero ir dançar, e eu posso usar um traje quando quero e casar com uma mulher se eu quiser, essas conquistas são desigualmente distribuídas através da comunidade LGBTQ, e nós ainda encaramos diversos problemas - Apenas em formas diferentes, e usualmente baseadas em classe e raça. Desde que a gestão Trump tomou poder, a direita se tornou crescentemente poderosa e aberta no seu extremismo, tanto nos Estados Unidos quanto ao redor do mundo. Adicionalmente, eles também vem tentando revogar proteções legais que já foram conquistadas, como as proteções contra discriminação baseada em identidade de gêneroe o direito ao aborto seguro e legal.

Algumas Formas de Opressão Continuadas

Em todas as seguintes estatísticas, a verdadeira predominância destes problemas é provavelmente maior do que os números sugerem, porque essas estatísticas são baseadas em denúncias, e por muitas razões as pessoas podem escolher não revelar suas identidades LGBTQ. Por exemplo, um estudo sugere que mais de 80% dos crimes de ódio contra a população LGBTQ não são denunciados.

De acordo com o Williams Institute, 40% da juventude desabrigada é LGBTQ, e 30%-40% dos adultos em situação de ruadependendo das medidas de pesquisa usadas. Pessoas LGBTQ também tem taxas significantemente altas de experiências com violência de parceiro íntimo (IPDV, na sigla em inglês), com a exceção de homens gays, que reportam experienciar esse tipo de violência um pouco menos frequentemente que homens heterossexuais. Mulheres LGBTQ tem maior probabilidade de viver em pobreza que mulheres hétero, e LGBTQs afro-americanas tem maior probabilidade de viver na pobreza do que héteros. Pessoas trans tem o dobro de probabilidade de estarem em situação de desemprego em relação a pessoas cis, e 90% delas denunciam ter experienciado alguma forma de abuso ou discriminação durante o emprego.

Em 2017, o FBI reportou um aumento de 17% no total de crimes de ódio comparado ao ano anterior, e múltiplos autores tem explicitamente ligado suas ações odiosas à presidência de Trump e a validação e empoderamento que eles sentem como resultado. Aproximadamente 20% de todos os crimes de ódio reportados foram baseados em homofobia ou transfobia. E esses são apenas os crimes de ódio denunciados. Novamente, mais de 80% dos crimes de ódio homofóbicos e transfóbicos nunca são denunciados. Independente das verdadeiras estatísticas de crimes de ódio, membros da extrema-direita estão também abertamente se organizando contra pessoas LGBTQ. a tão chamada "Parada do Orgulho Hétero" de Boston foi organizada pelas mesmas pessoas que organizaram uma concentração irmã no ato "Unir a Direita", de 2017 em Charlottesville, e até a Polícia de Detroit admitiu que neo-Nazis esperavam que o ato do Orgulho de Detroit se tornaria uma "Charlottesville 2.0". Se até mesmo um chefe de polícia está disposto a descaradamente reconhecer as intenções violentas de um grupo nazista, eles devem ter sido bem diretos de fato.

Como esse exemplo mostra, está se tornando mais e mais difícil negar a natureza violenta e opressiva dos grupos da extrema (e não tão extrema) direita, e esses grupos estão significantemente menos intimidados para admitir suas crenças e desejos. Eles estão recebendo apoio cultural e validação de modos que não havia antes. Eles se sentem seguros, normalizados e apropriados. Eles aparecem em pleno dia sem capuzes ou máscaras, com frequência crescente. Eles estão testando os limites do que a sociedade irá permitir - e em seu teste estão expandindo-os. Talvez os mais evidentes exemplos sejam as marchas neo-fascistas em Charlottesville e as milícias de direita que se mobilizam contra os direitos dos imigrantes.

Dissonância Cognitiva

Caminhando pela Cidade de Nova York durante junho, eu vejo decorações do Orgulho por todos os lados, todos os dias. Alguns bares e cafés penduram bandeiras arco-íris ou colam propagandas de eventos relacionados ao Orgulho. A maioria das lojas de roupas da 34ª Rua mostram itens embrazados com o logo da loja, mas em arco-íris. Meu local de trabalho está sediando múltiplos eventos temáticos do Orgulho neste mês. Ainda assim, homens foram agredidos fora do bar que eu fui para meu aniversário, um arrepiante lembrete pra mim, recentemente transplantada para Nova York, de que a suposta segurança e aceitação de uma cidade "progressiva" na era moderna é muito frequentemente uma ilusão. Ao menos 10 mulheres trans negras foram assassinadas nos Estados Unidos; até agora neste ano; é 5 vezes mais provável que a juventude LGBTQ já tenha tentado cometer suicídio, em relação à juventude hétero, e um todo de 40% dos adultos trans já disseram ter ao menos uma tentativa prévia de suicídio.

O perigo da direita tem um efeito imediato na saúde mental de nossa comunidade. Pouco antes que a eleição de 2016 desse em Trump, a Linha Nacional de Prevenção ao Suicídio experienciou uma onda no volume de chamadas quatro vezes o normal para aquela hora da noite - a maior onda desde que a Linha foi fundada em 2005 - e a Linha de Texto para Crises experienciou uma onda 8 vezes maior que o tráfego normal. Para a Linha de Texto para Crises, "LGBT" foi uma das 4 palavras-chave mais comuns na conversação com os clientes naquela noite. Pra ser clara, essas ondas não mostram um correlato com um aumento nas tentativas de suicídio depois da eleição, mas indicam o medo e o desespero que muitas pessoas sentiram - e continuam a sentir.

Por um lado, eu estou feliz por ver tantos arco-íris, especialmente quando eu reflito sobre quão impossível isso pareceria aos rebeldes de Stonewall. Por outro lado, eu sei que esses arco-íris corporativos são uma fachada feliz - ou, devo dizer, gay (alegre) - no topo de uma montanha de sofrimento, e eu guardo rancor deles por bajular pelo meu dinheiro.

Esse artigode James Finn delineia a multiplicidade de ações anti-LGBTQ que Trump e sua administração tomaram desde que assumiram o poder, incluindo revogar diversas proteções federais para a população LGBTQ, apoiando demonstrações religiosas de intolerância, e considerando "fora de existência definir legalmente pessoas trans". O vice presidente Mike Pence é conhecido pelo seu apoio à "terapia de conversão", e a administração Trump recentemente proibiu embaixadas norte-americanas de hastear bandeiras do Orgulho abaixo da bandeira americana. Se olharmos de perto o tweet de Trump sobre o Mês do Orgulhose torna claro que, como as lojas de roupas que eu passo todos os dias, ele apenas se importa com nossos direitos e vidas enquanto puder nos usar para sua própria agenda.

Trump pede que seus seguidores "se mantenham em solidariedade às muitas pessoas LGBT que vivem em dezenas de países mundialmente que punem, aprisionam e até mesmo executam indivíduos com base em sua orientação sexual", e lançou uma campanha para "descriminalizar a homossexualidade ao redor do mundo", ainda que ele regularmente tome medidas para tornar nossas vidas miseráveis aqui. No front doméstico, ele bajula os intolerantes que o aplaudem por supostamente defender os valores tradicionais. No front da política internacional, ele declara inclusão como uma tática para demonizar outros países e pintar os Estados Unidos como o parágono da liberdade e da retidão moral. Não tão coincidentemente, os países pintados como incivilizados por sua homofobia são sempre os países que os E.U.A. tem interesse em vilanizar para poder justificar exercer são poder imperialista, como a Palestina. Quando beneficia a hegemonia norte-americana, a homofobia generalizada é convenientemente ignorada, como no caso da relação diplomática e econômica dos Estados Unidos com a Arábia Saudita.

Mais recentemente, a ICE postou fotos de um "tour midiático" em sua instalação no Novo México designada para detenção de mulheres trans, menos de uma semana de uma segunda imigrante trans morrer em seu suposto cuidado. Muitos usuários do Twitter responderam aos tweets da ICE comparando o "tour midiático" com a propaganda nazista designada a retratar campos de concentração como humanos.

Sou grata pelos ativistas que vieram antes de mim e pelas batalhas que lutaram pelas futuras gerações de pessoas LGBTQ, e eu tento estimar, mas as vezes tomo como dados os frutos do trabalho deles. Mas esse trabalho não acabou, e essa luta é nossa agora. Não é errado celebrar o Orgulho, mas devemos celebrá-lo com um olho nas batalhas em andamento contra aquelas mesmas forças que tentaram nos manter escondidas e em silêncio em 1969: a polícia, a média, os políticos e o capitalismo.




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