Gênero e sexualidade

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Refletir as mulheres na ciência: quantas, quais e em quê condições?

Durante os anos 80 o mercado de trabalho no Brasil se abriu para as mulheres. Pelos números, 6,3% das mulheres entraram para o mercado de trabalho contra 0,7% dos homens, e passamos a representar 35,6% da população empregada. Mas estávamos em condições de assumir os mesmos cargos que os homens? As condições de vida e de trabalho nos permitia a ascensão de cargos na hierarquia organizacional? Isso reflete no quadro atual de quase homogeneidade de gênero na ocupação de altos cargos nas empresas e instituições, inclusive as de ciência? Uma breve pesquisa sobre sexismo na ciência aliada a perguntas feitas a algumas cientistas revela que o fenômeno do teto de vidro possivelmente não poupou as mulheres cientistas nos últimos anos.

sexta-feira 24 de fevereiro| Edição do dia

Embora a ciência ainda seja vista, muitas vezes, como questão à parte da sociedade e independente de um sistema, podemos considerar que as instituições que produzem ciência não são imunes ao capitalismo nem fogem às regras da esfera organizacional, afinal, o fazer científico envolve verba de financiamento, decisões políticas, uso de patentes dentre tantas outras questões, e “quem faz a ciência” é decisivo para todas essas questões.

E as mulheres têm feito ciência? Segundo dados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) o número de mulheres desenvolvendo pesquisas de doutorado é praticamente equivalente ao número de homens. O número de mulheres cursando uma graduação, dependendo da área, pode ser até maior que o de homens. Mas esse quadro, além de recente, não significa, necessariamente, o fim da desigualdade de gênero na ciência e no mercado de trabalho em geral. Como pontuado por Hildete Pereira e Lígia Rodrigues no artigo “Pioneiras da Ciência no Brasil” o mínimo que se exige de uma pessoa para ser cientista é a posse de um diploma universitário. Há, após a formação, uma longa jornada na vida profissional de uma cientista.

Mais dados:
Por nível de treinamento e sexo ou por liderança e sexo.

O que explica, então, o fato de as mulheres ainda receberem menores salários que os homens, mesmo ocupando os mesmos cargos e trabalhando o mesmo tanto? O que explica que os projetos de mulheres cientistas costumam receber menos verba para pesquisa que os dos homens? O que explica o abandono da carreira com menos tempo de trabalho que os homens? Seria necessário um estudo mais aprofundado para responder, mas podemos fazer algumas inferências. Para incrementar a discussão vamos usar o artigo “Organizações, Gênero e Posição Hierárquica – Compreendendo o Teto de Vidro” de Andrea Valeria Steil, e as palavras de algumas outras cientistas.

As barreiras fáceis de negar e difíceis de detectar

O conceito de teto de vidro, fator contribuinte para a escassez de mulheres em cargos de liderança e administração, segundo as palavras de Steil, “foi introduzido na década de 80 nos Estados Unidos para descrever uma barreira que, de tão sutil, é transparente, mas suficientemente forte para impossibilitar a ascensão de mulheres a níveis mais altos da hierarquia organizacional”. O fenômeno do teto de vidro, pode-se dizer, é o fato de que apenas 1 a 2% dos altos e 5 a 10% dos médios cargos são ocupados por mulheres. Quanto aos cargos mais baixos, com péssimas condições de trabalho e, quando remunerados, mal pagos, são ocupados em peso por nós mulheres, e a prova disso é que ainda somos responsáveis pelo serviço doméstico, o que nos rende duplas ou triplas jornadas.


Fonte: 5 coisas que você precisa saber sobre igualdade de gênero na infância

A série de fatores que podem fortalecer o teto de vidro são a criação e a educação escolar de meninas e meninos – que aprendem diferentes funções e são estimulados a preferir diferentes áreas do conhecimento –, a falta de representação feminina em algumas profissões, a falta de sentimento de pertencimento a um grupo social (no caso, o grupo social “mulheres”) e uma consequente deficiência no fortalecimento dos indivíduos desse grupo, assédio sexual no ambiente profissional*, as responsabilidades domésticas e familiares – já que, ainda segundo Steil, “as organizações e famílias são entidades que competem pela lealdade dos indivíduos” – dentre outros que podem ser mais profundamente explorados.

*Sobre isso, Tricia Serio manifesta que “o problema do assédio sexual na ciência tem sido discutido nestas páginas e em outros lugares, mas menos atenção é dada aos comentários mais indiretos, sutis ou não intencionais. Eu acho que esse comportamento, às vezes conhecido como microagressões, representa a maior ameaça à diversidade na ciência.”

O que dizem as cientistas

Depois de exploradas as fontes bibliográficas, decidimos (Bruna Lott, designer; André Luiz Lara, físico; Amanda Cocovick e eu, estudantes de biologia) explorar outras fontes, aplicando um questionário a algumas cientistas da UFMG. As respostas não seriam capazes de fornecer dados para provar a ocorrência de sexismo na ciência, mas com elas podemos ilustrar, além de um machismo explícito ou velado, outras possíveis reações de mulheres na ciência quando são provavelmente expostas a ambientes hostis.

Embora muitas respostas tenham mostrado a realidade das mulheres no ambiente organizacional (como os assédios sofridos, a escassez de mulheres no meio, as dificuldades de se trabalhar com autonomia e de conquistar a confiança de colaboradores, os desafios de conciliar a vida profissional com a gestão do lar, dentre outros), também pudemos notar que, dentre as cientistas questionadas, a maioria não teve experiências que afastam as mulheres da ciência. Algumas afirmaram que talvez não sejam a regra ou sejam privilegiadas mas nunca se sentiram desestimuladas a prosseguir com seus estudos por professores, familiares ou colegas, não se sentem incomodadas com a quantidade de mulheres cientistas na sua área ou atuam em uma área onde a quantidade de mulheres é a equivalente a de homens, não consideram o meio sexista embora sempre ouçam piadas machistas ou não achem que o meio sexista seja um problema para as mulheres. Neste último caso a meritocracia foi usada para justificar a posição das mais incríveis mulheres da ciência. Mas se o machismo não interfere na ciência, onde estão as outras?

A exceção seria a regra?

Das várias reflexões que se pode ter a partir de um estudo sobre as mulheres na ciência, me arrisco a dizer que sim: as mulheres menos afetadas pelo machismo provavelmente chegam ao topo da hierarquia organizacional antes das outras. A pergunta deixada na porta de um banheiro da UFMG ainda não calou. “Quantas professoras negras você tem?”

Todas as mulheres têm, hoje, plenas condições de se interessar por ciências, chegar a uma universidade antidemocrática e restrita, seja pelos vestibulares, seja pela mensalidade ou pelas condições de estudo? De vencer o machismo, racismo e elitismo do ambiente universitário? De tonar-se cientista e atuar na área nas mesmas condições de um homem?

Embora a paridade numérica em algumas áreas tenha sido alcançada, não é o suficiente. Precisamos combater o machismo na sociedade para que não haja sexismo na ciência e cada cientista seja protagonista de seus projetos e reconhecida pelo seu trabalho, mas também para que toda mulher possa se tornar e ser cientista.




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