Economia

Recessão atrelada a pandemia atinge mais fortemente mulheres e negros

Com a diminuição do PIB e desenvolvimento da crise, população feminina e negra paga mais duramente por isso, desde as condições de trabalho que ocupam e das medidas políticas que vem sendo realizadas

sábado 30 de maio| Edição do dia

Conforme se alastra a pandemia no país, os impactos econômicos advindos desse processo começam a ser cada vez mais evidentes. Serviços não essenciais operando, demissões em massa vinda por diferentes setores da economia, além de cortes salariais. Tudo isso, em meio a uma crise política e sanitária que cada vez mais empurram os trabalhadores pro abismo, a começar pelos setores mais vulneráveis.

Nacionalmente, nos deparamos com uma queda de 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre em comparação com os três últimos meses de 2019, inclusive, com projeções de um cenário mais grave de queda econômica nos próximos meses, não só no Brasil, mas mundialmente.

Nesse cenário, os trabalhadores vem sofrendo com ataques a toque de caixa, anunciados cinicamente por Bolsonaro, Guedes e companhia. Inclusive se pensarmos nas próprias condições sanitárias e do serviço público de saúde que nos foram preparados. Cada vez mais o sucateamento cobra o seu preço, seja pela própria condição precária de trabalho dos profissionais que estão na linha de frente do combate ao coronavírus, provocando recordes de mortes desses profissionais em comparação aos outros países, seja pelo iminente colapso do sistema de saúde nas cidades e nos Estados.

Porém, tais adversidades se impõe de maneira muito mais cruel as mulheres e à população negra. Partimos desde a perspectiva dos postos de trabalho atingidos onde predomina essa população, que são justamente os mais precarizados.

Com a adoção das medidas de isolamento sociais, vimos casos de violência contra a mulher e o feminicídio explodindo no Brasil e no mundo. Analisando um dos Estados mais populoso do país, podemos ver que segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), comparando março de 2020 com o mesmo mês do ano anterior, houve um aumento de 44,9% de denúncias de violência, para além de um aumento de 46,2% de feminicídios no Estado de São Paulo. Mas, para além da própria violência doméstica, vemos também que as mulheres são uma minoria nos setores da indústria, transportes e construção, enquanto serviços essenciais e não tão atingidos com as medidas de isolamento, porém, ocupam mais cargos reacionados aos setores de beleza e estética, cerca de 79% no quarto trimestre de 2019, que vem sendo suspensos por conta dessas medidas, atingindo sua fortemente sua renda, por exemplo. Além do próprio trabalho doméstico, onde as mulheres ocupam 92,4%, segundo a economista e professora da Unicamp, Marilane Texeira.

Em relação aos negros e negras, vemos claramente o serviço que o Estado destina a essa população com os assassinatos de George Floyd nos EUA e João Pedro no Rio de Janeiro, enquanto condições estruturais que o racismo subsiste desde essa instituição. Mas, para os capitalistas, não basta apenas a violência consciente de seu aparato. Segundo o último informativo de Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil do IBGE, 47,3% do total de pretos e pardos assumem postos informais de trabalho, com poucos direitos e com várias condições instáveis de serviço. E por ocupar a maior parte do setor informal, passam a ser os primeiros a serem demitidos nessa situação de crise sem nenhum direito, ou incapacitados de assumirem postos, como vendedores ambulantes, devido ao isolamento. Enquanto isso, no Brasil, muitos aguardam a espera por um valor irrisório de 600 reais do auxílio emergencial, anunciado de forma demagógica por Bolsonaro, que vem sendo apicado com diversas irregularidades e atrasos.

Por conta do trabalho doméstico vir sendo um dos canais de contágio mais proeminentes nessa crise, as trabalhadoras domésticas, onde em suma maioria, são mulheres e negras, vem sofrendo diversas dispensas, com poucas ou nenhuma contrapartida que as beneficie financeiramente com isso, devido as várias condições irregulares de serviço que são submetidas. Segundo os apontamentos do pesquisador Rogério Barbosa, do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), esse setor, junto com o de beleza e estética foram justamente os mais impactados com a crise. Inclusive, segundo o IBGE, o setor de trabalhadores domésticos sofreu a maior perda de trabalho nos últimos nove anos. Cerca de 727 mil pessoas que abandonaram esses postos nesse período, 11,8%. Em relação aos sem carteira assinada, a perda é pior ainda, com 12,6%.

Para além desses postos, percebemos também o grave impacto na vida daqueles que seguem enquanto funcionários terceirizados. Como aqueles que trabalham na limpeza ou vigilância, postos ocupados majoritariamente por mulheres e negros, onde recorrentemente vem sofrendo cortes salariais, suspensão de contratos ou se deparam a uma rotina sem nenhum equipamento de proteção individual para exercer o seu trabalho, arriscando sua vida diariamente enquanto segue trabalhando. Mesmo um dos serviços essenciais, onde se há uma participação maior das mulheres, como enfermagem, onde ocupam 84%, o impacto negativo impera por essas mesmas condições degradantes, como podemos denunciar no caso do Hospital Universitário da USP, por exemplo.

Isso é apenas uma pequena amostra de como as opressões se escancaram numa crise como essa, fruto de um sistema que subsiste com base nelas. E, frente a isso, não basta, apenas denunciarmos essas condições envoltas aos postos que majoritariamente ocupam essas populações, ou mesmo a própria violência que mulheres e negros são expostos diariamente. Tais setores podem ser os mais penalizados por esse sistema, mas, ao mesmo tempo, vem protagonizando os maiores exemplos de enfrentamento contra essas condições durante a pandemia.

Devemos nos apoiar, desde esses exemplos, como os das trabalhadoras do HU, em busca de melhores condições de trabalho e das diversas revoltas nas cidades dos Estados Unidos em busca de justiça por George Floyd, covardemente assassinado pela polícia racista, para apontar uma saída que subverta essa miséria destinada a esses setores por esse sistema.

E isso passa pela luta contra qualquer forma de opressão a esses setores atrelada as demandas mínimas para proteger todos os que vêm sendo as vítimas dessa crise, como a defesa contra qualquer demissão ou redução de direitos trabalhistas; a anistia nos pagamentos das contas de luz, água ou qualquer serviço básico ou uma renda de dois mil reais para todos aqueles que não vem obtendo uma renda nesse momento; o não pagamento da dívida pública, que redireciona para os cofres dos imperialistas, os investimentos que poderiam ser feitos para a saúde ou para a construção de casas de abrigos para setores oprimidos. Medidas como essas, para além de inúmeros outros exemplos, são imprescindíveis para enfrentarmos essa crise até o final, e só podemos chegar nelas pela mobilização e organização dos trabalhadores e trabalhadoras.




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