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Razões e impactos das tarifas de Trump na Argentina e no Brasil

A desvalorização das moedas dos países latinoamericanos foi a desculpa. Nas negociações de um acordo comercial com a China e frente à iminente troca presidencial na Argentina, Trump optou por implementar tarifas à região para dialogar com sua base eleitoral.

terça-feira 3 de dezembro de 2019| Edição do dia

Nesta segunda-feira o presidente estadounidense Donald Trump anunciou no Twitter que restituirá as tarifas de importação de alumínio e aço provenientes da Argentina e do Brasil devido à desvalorização das moedas de ambos países e afetava sua economia.

Em maio de 2018, Trump havia imposto tarifas às importações de aço (de 25%) e alumínio (10%), apontando especialmente a disputa com a China. Naquele momento, após meses de negociações,o governo argentino conseguiu ficar como exceção da medida. Também conseguiram sair Austrália, Brasil, Canadá, México e Coreia del Sur.

Neste oportunidade, o acordo com a Argentina estabeleceu cotas de exportação livres de tarifas com um máximo de 180.000 toneladas anuais para ambos produtos, considerando os volumes de exportação do país em determinado mercado (equivalente a 100% da média de alumínio e 135% da média de aço exportados).
Durante o ano passado as exportações argentinas de aço e alumínio aos Estados Unidos chegaram a U$S 700 millones cumprindo praticamente a totalidade do volume atribuído pelas cotas de exportação.

No que já passou de 2019, por sua vez, já se fizeram vendas de mais de U$S 520 millones. As principais empresas argentinas envolvidas neste mercado são Aluar, Acindar e o Grupo Techint com suas empresas Tenaris e Ternium.

Os motivos de Trump

Como vem sendo a estratégia do atual presidente dos Estados Unidos, cada mensagem e cada medida não tem um único destinatário, mas atua em frentes simultâneas, tanto em sua política exterior, como na política interna, mirando neste caso o cenário eleitoral de 2020.

1. O principal objetivo parece ser precisamente o começo da sua campanha eleitoral pela reeleição, dando um sinal aos setores agrícolas e manufatureiros que mais foram afetados pela “guerra comercial” com a China. Trump busca particularmente apoio em estados chave.

Ainda que o presidente estadounidense tenha afirmado que a desvalorização recente do Brasil e da Argentina (pós Eleições Primárias) é premeditada e danifica a competitividade das empresas de seu país nos mercados internacionais, sobretudo de seu setor agrícola, o certo é que em ambos os casos as moedas dos países latinoamericanos se movem mais no compasso das crises locais do que de uma política comercial em relação aos Estados Unidos.

Da mesma forma, é difícil pensar que esta medida tarifária tenha algum efeito positivo em cima da rentabilidade agrária estadounidense. Trata-se mais bem, neste caso, de mostrar uma atitude de confronto para “defender seus interesses”, em uma tática de mudar cuidadosamente o destinatário, sem mencionar a China, com quem está atualmente em negociações para uma nova trégua no conflito.

O presidente dos Estados Unidos nomeou especificamente os “granjeiros” em seu tweet (cuja imagem aparente não se deve confundir com a do pequeno agricultor, mas se trata de importantes empresários).

Os setores rurais do interior dos Estados Unidos se viram prejudicados pelo conflito tarifário com a China, que resultou na subida das tarifas para produtos agrícolas estadounidenses como a soja, em reposta às que Trump havia determinado, afetando as exportações severamente.

Para os setores manufatureiros dos Estados Unidos o impacto foi contraditório. Ainda que os produtores de aço e alumínio tenham apoiado as tarifas às importações de metal mais barato, mas os setores como as automotrizes, mecânica, embalagens de alimentos, por exemplo, por prejudicial ao encarecer a importação dos produtos que constituem insumos.

O aço e o alumínio são usados intensivamente, pela indústria alimentícia em embalagens e para a produção dos seus produtos, por exemplo, assim como na indústria automotriz para a fabricação de veículos e de peças ou na fabricação de maquinaria.

“É uma medida puramente eleitoral”, sinalizou Mark Jones ao Clarín, especialista em Argentina do Baker Institute de Rice University, Texas. “O campo, em estados chaves para a reeleição de Trump como Iowa, Carolina del Norte e Wisconsin, está muito debilitado pela guerra tarifária com a China. Com esta medida, Trump mostra que está lutando pelo campo, ainda que só pelas aparências, porque a medida não vai trazer benefícios reais importantes para esse setor”, agrega.

2. Um segundo motivo é também interno, continuando sua pressão sob a Reserva Federal (FED, pela sua sigla no inglês) para que continue abaixando a taxa de juros.

Assim, na segunda parte de seus tweets, Trump se dirige aos diretores da FED: “A Reserva Federal também deveria atual para que os países, que são muitos, não se aproveitem da fortaleza do dólar para desvalorizar ainda mais suas moedas”, disse.
"Isso faz com que seja muito difícil que nossos fabricantes e agricultores possam exportar seus produtos de maneira justa”, escreveu Trump.

Não é a primeira vez que o mandatário chama o organismo a cortar as taxas, argumentando que os tipos negativos dão a estes países uma vantagem competitiva na Europa e em outros lugares.

3. Marcar posição no “pátio de trás”. Em terceiro lugar, não se pode perder de vista o contexto latinoamericano de fortes giros na dinâmica política, questionamentos profundos ao regime chileno, golpe de Estado na Bolívia, manifestações no Equador, Colômbia, entre outros.

Na Argentina, é um sinal para o presidente a ponto de assumir, Alberto Fernández, enquanto que no Brasil significou um golpe para seu "aliado" Jair Bolsonaro, no marco das recentes negociações entre este país e a China.

Marcelo Elizondo, especialista em comércio exterior e diretor da consultora DNI (Desarrollo de Negocios Internacionales) disse ao Infobae que a desvalorização brasileira foi de 15% em termos reais (neste ano), a inflação no Brasil é muito baixa, mas também pode ter influenciado na decisão do presidente Trump o recente anúncio de conversas entre a China e o Brasil para estabelecer um acordo comercial e atrair investimentos chineses ao Brasil.

“O vínculo entre os Estados Unidos e o Brasil não está tão estreito como esteve antes. No caso da Argentina, provavelmente tenha a ver com uma mudança de governo. É utilizar um argumento objetivo, que são as desvalorizações, para se sentar para conversar”, adicionou.

Poucos minutos após o anúncio de Trump, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, avisou que se for necessário falará por telefone com Trump, com quem disse ter um “canal aberto” frente às medidas do presidente estadounidense.

Do lado argentino, o governo Macri se sustentava nas importações serem apenas 0,6% das totais dos Estados Unidos. Para o Brasil, no entanto, em 2018, representava 13% das importações estadounidenses de aço.

Impactos locais e a reação dos empresários

Brasil é o segundo exportador de aço aos Estados Unidos, atrás apenas do Canadá. Para este país, os efeitos das medidas de Trump serão muito mais fortes que na Argentina.

Segundo o Observatory of Economic Complexity, as vendas ao exterior do mineral de ferro e seus concentrados (utilizados para fabricar aço) somam 9,2% das exportações totais do Brasil, acima das de petróleo.

Contudo, o principal destino das exportações de aço e alumínio argentinas é também os Estados Unidos.

Das duas exportações, a mais relevante para a indústria local é a de alumínio, ainda que ultimamente seu volume foi diminuindo. Dos produtos industriais que a Argentina exporta, depois de carros e alguns insumos químicos e plásticos, o alumínio é um dos principais.

Isso se viu refletido na queda imediata das ações de Aluar na jornada da segunda-feira até $ 31, 11,9 % menor que o último valor. Os anúncios de Trump golpearam com tudo a Merval (a bolsa argentina), que fechou a rodada com uma queda de 3,1 %.

A principal empresa exportadora de alumínio é Aluar. Enquanto que as exportadoras de aço são Acindar (Grupo ArcelorMittal), Tenaris-Siderca y Ternium-Siderar (do Grupo Techint) e Gerdau (Grupo Gerdau). Em conjunto exportam mais de US$ 1,5 bilhão anuais para diferentes mercados, segundo dados da Câmara Argentina de Aço.

O empresário Javier Madanes Quintanilla, presidente da Aluar, assegurou que a volta das tarifas estava dentro dos cenários esperados. E surpreendentemente se colocou mais duramente contra a política do governo Macri do último ano, que não previu medidas para evitar a volta das tarifas.

“Ficaram imóveis a partir do ano passado. Lhes dissemos quais eram as medidas com as quais deveriam atacar os problemas e isso foi ignorado”, disse a Madanes Quintanilla do Infobae. 40% da sua produção local é exportada aos Estados Unidos.
Da Acindar, no entanto, minimizaram o impacto. “A empresa tem determinada uma cota de pequena escala no mercado norteamericano, como 1.100 toneladas. Tudo depende de se a Argentina mantém a competitividade e se encontra um nicho de mercado onde colocar a produção”. Ainda que indicaram que as maiores restrições para exportar nunca são boas notícias para as empresas argentinas, sobretudo levando em consideração a situação que atravessa o mercado interno.

José Urtubey, por sua vez, em declarações recolhidas pela agência AFP, como representante dos empresários nucleados na UIA, disse que os produtores do países se verão prejudicados imediatamente pelas tarifas. Urtubey aproveitou assim para preparar o terreno para as negociações com o novo governo para um “pacto social” mais benéfico, descarregando os efeitos da situação econômica nos trabalhadores.
Desta forma, reconheceu a “falta de competitividade” da Argentina como produtor, e remarcou que “o fato de que os Estados Unidos impôs ao país uma das tarifas mais baixas para seu aço e alumínio foi ‘benéfico’”

Enquanto no Brasil se afirma existir um canal aberto com os Estados Unidos, na Argentina existe a mudança de gestão no dia 10 de dezembro e se verá quais negociações o novo governo de Alberto Fernández consegue emplacar.




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