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DENÚNCIA

Racismo em Curitiba: "Nas quebrada que escorre sangue"

domingo 28 de agosto| Edição do dia

Dia 25, quinta passada, testemunhei um daqueles segundos que parecem não terminar: um advogado que não conseguia falar do que foi chamado por uma integrante da Guarda Municipal de Curitiba.

Renato Almeida Freitas Jr é militante da juventude negra, advogado e mestrando pela UFPR, candidato a vereador e palestrante, mas nem sua carteirinha da OAB o impediu de sofrer injurias de uma das polícias do estado militarizado em que vivemos.

Cansado das atividades de sua campanha a vereador em Curitiba, resolveu se distrair e conversar com alguns colegas, ouvia um RAP na região central e vestido de maneira simples foi tratado por polícias, guardas, como mais um jovem da periferia deste país, um jovem negro. O problema não é Renato, que é advogado e tem prerrogativas legais da OAB ser tratado assim, mas os jovens negros deste país que seguem sendo tratados assim.

Curioso para quem tem acesso ao facebook de Renato que ele, alguns minutos antes de ser vítima do preconceito da guarda municipal, foi confundido com um guardador de carros e ainda encarou a situação com bom humor, afirmou: “se soubesse, tinha pedido um voto”, pois ganhou um real por estar de bermudão sentado no meio-fio.

A Guarda Municipal de Curitiba chegou por, teoricamente, Renato estar com o som alto, mas ele foi levado ao 3º DP por não aceitar os abusos de quem acredita estar acima da lei por ser executor e juiz.

O segundo, congelado no tempo e no vídeo, talvez ainda mais em minha mente, ocorreu quando Renato tentava descrever o que ouviu do policial. Ele tentou, por mais de uma vez, dizer o que eu consigo escrever contrariado:

“Pisar em você ou pisar em uma merda, para mim é a mesma coisa”.

Renato e os amigos foram agredidos na abordagem, revistaram seu carro, duvidaram de sua identidade da OAB por causa da sua aparência e por estar ouvindo RAP. Ele, como muitos brasileiros, foi chamado de neguinho, foi enquadrado em um estereótipo vil e na delegacia as coisas não foram diferentes.

Deixado nu em uma cela, foi despido em frente a uma policial mulher, só teve suas roupas devolvidas por seus advogados. “Pai afasta de mim este cálice, pai” parafraseou Crioulo, não consigo pensar em outra coisa a não ser nisso, no RAP.

Renato, nasceu em uma comunidade simples, foi criado por dona Raimunda com muito esforço, perdeu um irmão para violência, era segurança de valores e foi morto em um assalto. Tinha que escolher como eu, como muitos de nós estudantes da periferia, entre comer e ir a pé para universidade, ou o contrário. Cuidou da mãe quando esta ficou enferma, cursou sociologia, não conseguiu terminar, se formou em direito, fez tudo direito, é mestrando de uma das melhores universidades do mundo, luta para dar exemplo aos jovens negros e não é a primeira vez que sofre por sua cor, por sua música.

Na UFPR mesmo, foi seguido por um segurança, o bigode, pois o mesmo acreditava que ele não deveria estar ali “conheço os alunos”. Renato entrou em desespero no banheiro, mas o que o chateou foi o professor. “Por que você está chorando, isso é bobeira, parece de ser tonto.” Também houve o caso no cursinho Dynâmico em que Renato foi acusado de “roubar aulas”. Alguém o denunciou por sua aparência, quando os seguranças o levaram uma aluna ainda disse, “bem que eu achei que estavam sumindo coisas no intervalo”.

Isso tudo para chegarmos ao que disse uma mãe, dona Raimunda, uma Maria no calvário, mais uma mãe deixando o trabalho para estar na porta de uma delegacia ou hospital porque nossa sociedade não tolera o sucesso, a ‘desobediência’, o atrevimento de um jovem negro. Dona Raimunda afirmou que “tudo é sempre mais pesado sobre o Renato”. Sobre o jovem negro, sobre o negro, “a carne mais barata”. Para quem viu o vídeo (ao vivo) na Mídia Ninja, o final da transmissão caiu, mas Renato falou para os jovens se olharem no espelho e não terem vergonha do que são e mesmo a fórceps vamos fazer uma sociedade melhor.

O jovem mestrando ainda tinha vários advogados amigos, algumas equipes de comunicação cobrindo sua história e mesmo assim foi pisoteado, agredido, humilhado, sofreu injuria. Você se pergunta o que acontece todo dia nos 5.570 municípios deste país de maioria de população negra?

“É nas quebrada que escorre sangue”




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