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TRIBUNA ABERTA

Raça e Classe: a Revolução Russa e o Movimento Negro

Ulisses Manoel

História - UFMG

terça-feira 14 de novembro| Edição do dia

Em 1917 a Revolução Russa possibilitou pela primeira vez na história, trabalhadoras e trabalhadores tomassem o controle do Estado, com objetivo de acabar com a desigualdade material – “Paz, pão e terra”. Por isso, durante todo este ano houve atividade pelo mundo para comemorar o centenário dessa ação revolucionária.

Porém cabe questionar qual motivo o movimento negro brasileiro não realizaram atividades sobre os 100 anos da Revolução Russa. Seria pelo fato dos Russos serem brancos? Os negros no Brasil não reconhecem as lutas de trabalhadores brancos pobres? Ou seria pelo fato do movimento negro não ter uma proposta revolucionária?

Nos escritos deixados pela classe operária encontramos passagens sobre a questão racial em jornais sindicais, atas, processos judiciais desde o início do século XX, mas até hoje não houve uma proposta emancipatória que inclua raça e classe no Brasil. Essa crítica serve tanto para o movimento negro, quando para a classe trabalhadora.

A identificação do sistema produtivo escravista para estes dois grupos, posicionados sobre as categorias raça e classe é algo problemático. Quando recorre ao período colonial, o movimento negro, quase sempre, afirma os castigos físicos na escravidão, organização resistência escrava (quilombos, irmandades, cultos religiosos), mas não trata da exploração do trabalho no período da escravidão.

Já a esquerda faz análise do modelo produtivo camponês, para entender a colonização escravista, não conseguindo compreender a classe trabalhadora por não entender a escravidão. Desde os anos 70 há estudos sobre o modelo colonial escravista brasileiro e mesmo assim a esquerda continua insistindo em compreender o sistema produtivo brasileiro pré-capitalista, partindo das experiências camponesas e não escrava.

Os Bolcheviques demonstraram que conhecer a história é um dos principais fatores para propor uma transformação revolucionária por via de uma organização social.

Existe uma divisão nítida entre movimento negro e esquerda brasileira, talvez uma das principais influências seja a formação republicana brasileira, que utilizou da mão de obra estrangeira como política de branqueamento, na formação da classe trabalhadora, com a inserção dos imigrantes no final do séc. XIX.

Após a abolição da escravatura (1888), não houve nenhuma política de estado ou governo para os negros. Mas houve para a classe trabalhadora de imigrantes, como as colônias agrárias. Logo os efeitos do racismo podem ser identificados, com a negação da identidade racial da classe trabalhadora, levando o movimento negro continuar se afirmando em manifestações culturais, várias desenvolvidas no período escravista. Isso levou a limitação da atuação política e consequentemente não conseguindo arquitetar uma proposta revolucionária.

A esquerda sofre influência apenas da categoria classe, exclui a questão racial na formação da classe. O movimento negro, assim como a esquerda, não consegue se organizarem de forma revolucionária. Porém a classe trabalhadora constrói instituições políticas na república (sindicatos, federação, partido político e etc). Torna importante dizer que os negros sempre compuseram a classe trabalhadora, assim como o movimento negro são compostos por trabalhadores.

Diferente da Revolução Russa, o Brasil nunca teve uma revolução social. Mas aconteceram diversas revoltas, insurreições, principalmente escravas, entre elas, Quilombo dos Palmares e Malês, porém não são revolucionárias. Isso de acordo com as referências da experiência russa, assim como pela teoria crítica marxista, que demostra que não basta apenas revoltar-se, mas é necessário um projeto de uma nova sociedade.

Talvez o principal legado da Revolução Russa seja afirmar a organização social e suas pautas revolucionárias, bem como distribuição da propriedade privada e acesso riqueza nacional. Algo que retorna na comemoração desses 100 anos, sobretudo em um país que está na posição de décimo lugar como o mais desigual do mundo, além ser um dos mais racistas.

No Brasil, as reivindicações contra a herança da escravidão é uma luta contra o racismo e não pela desigualdade material. Porém um dos legados da escravidão é também a pobreza, pois não há uma maior forma de exploração do trabalho que a escravidão, mas ainda assim, o combate contra o racismo não evidencia a desigualdade material como classe.

Nesse sentido, perceber-se a importância do movimento negro brasileiro em debater os 100 anos que completa a Revolução Russa. Relacionando raça e classe. Nesses termos, cabe posicionar a atuação da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), principalmente sua contribuição geopolítica e bélica para emancipação revolucionária de diversos grupos negros a partir dos anos 50, fruto principalmente da descentralização ideológica da Europa, desde o período moderno.

A URSS foi importante na luta contra o racismo, imperialismo, colonialismo, entre outras formas de dominação social. Porém hoje os afro-descentes ou autonomeados afro-centrados brasileiros preferem afirmar que os russos são brancos e não fazer uma reflexão do centenário da revolução Russa.

Ângela Davis, assim como os Panteras Negras fizeram o recorte de classe, verticalizando-se pelo maoísmo na luta contra o racismo. Entretanto, o movimento negro brasileiro historicamente não tem perspectiva revolucionária, classista, socialista, talvez fruto do distanciamento de classe. Sobre isso, podemos refletir sobre o papel do racismo e da escravidão nessa construção.

Os negros brasileiros são politicamente desorganizados, tendo como referência de organização politica grupos religiosos, agremiações culturais, ações mutualistas, coletivos e etc. Portando, são conservadores quando orientados diante das referências revolucionárias, ocupando por diversas vezes a mesma posição da direita.

A cor da pele posiciona o negro dentro da hierarquia social, mas não os posiciona politicamente sobre referências revolucionárias que foi historicamente construída sobre categoria classe e outras categorias que foram relacionadas a mesma, como raça, etnia e nação, utilizadas pelas frentes de libertação africanas e asiáticas nas décadas de 50 e 60. No mesmo período o Brasil tinha um projeto popular de pais, porém era uma construção realizada pela esquerda acadêmica e não apropriava a questão racial como vetor estruturante da sociedade brasileira na mesma proporção da classe.

Não fico feliz em afirmar tais posições do movimento negro brasileiro, isso como negro, nem mesmo em afirmar o conservadorismo e racismo da esquerda brasileira, como trabalhador. Mas quando analisamos a experiência soviética, aparecem diversas críticas, assim como é importante transformar as organizações de luta em organizações revolucionárias.

A luta do movimento negro faz crítica à desigualdade racial, mas por não estar posicionada sobre categoria classe, não realiza uma disputa ideológica contra hegemônica em diversos setores sociais já ocupados politicamente pela classe trabalhadora.

Por sua vez, o tráfico de drogas recebe uma leitura liberal tanto pelo movimento negro, quanto pela esquerda. Com isso, a luta do movimento negro brasileiro contra o genocídio negro expõe como o racismo opera neste extermínio, mas é limitado. Ao ponto de não realizar uma disputa ideológica, por não ter uma referência contra hegemônica. Os trabalhadores do tráfico de drogas são negros e capitalistas. Mesmo amparados sobre essa posição alienada, os negros no tráfico tem muito a ensinar para a esquerda e o movimento negro na sua capacidade de organização popular, entre outras características. Portando a não associação das categorias raça e classe, impossibilita em uma disputa anticapitalista no tráfico.

Hoje há milhares de negros que estão armados no país, lutando por sua sobrevivência, não por um projeto de emancipação, estes estão na posição apenas de bandidos, isso numa visão liberal. As lutas revolucionárias demostram que as lutas armadas podem e devem ser utilizadas para beneficiar a luta de classe, que no Brasil é também racial.

Politicamente a organização negra no Brasil é modesta, visto as demandas negras e suas respostas. Nas eleições, raça não é elemento de voto, sendo assim, não há negros eleitos em cargos públicos, mesmo sendo uma população composta majoritária de negros e pardos; nos sindicatos raça não é elemento de composição de diretoria, mesmo a classe trabalhadora sendo significativamente negra.

No Brasil o negro não está poder, não é elite e não tem representação política. O lugar do negro no Brasil é na cultura e religião, nesse sentido, não pode ser posicionado como político. A figura de movimento negro como vetor político, selecionando suas propostas, demandas, lutas, entre outros gestos, não possibilitou até hoje projeto emancipatório. Os negros no Brasil não têm um projeto contra hegemônico, assim como o Partido dos Trabalhadores. Hoje os dirigentes do PT usam a questão de classe para dar continuidade a um projeto burguês, neoliberal, por via de uma democracia midiática, oligárquica e financeira. Que após compor o poder sem o povo, transformaram-se em aristocratas do trabalho, silenciando as lutas raciais e classistas com auxílio dos sindicatos e entidades estudantis.

Escrevi essa breve reflexão para contribuir no centenário da Revolução Russa, utilizando a experiência revolucionária russa como referência na reflexão, isso identificando o crescimento da afirmação negra no Brasil, suas lutas, assim como a organização da classe trabalhadora. Por isso como trabalhador negro digo, não basta ser negro, temos que ser negros revolucionários.




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