SEMANÁRIO

[RESENHA] Dar corpo ao impossível: o sentido da dialética a partir de Theodor Adorno, de Vladimir Safatle

Ilustração de Alexandre Miguez.

[RESENHA] Dar corpo ao impossível: o sentido da dialética a partir de Theodor Adorno, de Vladimir Safatle

Por Claudio Oliveira

Como parte de promover debates teóricos, políticos e culturais contemporâneos, numa perspectiva de esquerda e anticapitalista, publicamos a seguir uma resenha do professor Claudio Oliveira, da UFF, que nos foi gentilmente enviada e trata da última obra do filósofo Vladimir Safatle, "Dar Corpo ao Impossível: o sentido da dialética em Theodor Adorno". Considerando a obra em questão digna de grande interesse para o debate brasileiro atual, publicamos a resenha na íntegra, a despeito de convergências e divergências na avaliação do texto do professor Safatle.
Acreditamos assim cumprir nossa missão de fomentar o debate de ideias na esquerda crítica, ao qual tencionamos contribuir num futuro próximo com as visões dos editores deste semanário.

Veja também: Entrevista com Vladimir Safatle: “A capacidade de constituição de novos horizontes da esquerda brasileira, hoje, é nula”

Resenha de Vladimir Safatle, Dar corpo ao impossível: o sentido da dialética a partir de Theodor Adorno. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

Dar corpo ao impossível é um livro, como diz o subtítulo, sobre Adorno e a dialética ou, mais precisamente, sobre como Vladimir Safatle lê a dialética a partir de Adorno e isso num duplo sentido. Pois é a partir de Adorno que Vladimir Safatle se volta tanto para o passado quanto para o futuro da dialética. No sentido que aponta para o passado, Dar corpo ao impossível é um livro sobre Adorno e os dois autores que funcionam como as referências fundamentais para a dialética: Hegel e Marx. Trata-se de mostrar como Adorno lê Hegel e Marx e como podemos ler Hegel e Marx a partir de Adorno. Mas Dar corpo ao impossível é também um livro que aponta, a partir de Adorno, para os desafios atuais e futuros da dialética. É portanto um livro que se situa radicalmente na situação contemporânea da filosofia, e por isso, não lê apenas Hegel e Marx a partir de Adorno, mas também Adorno a partir de outras tradições do pensamento contemporâneo.

Por isso, ao situar Adorno, na tradição dialética, Dar corpo ao impossível é também um livro que o situa, por oposição, em relação às outras tradições filosóficas contemporâneas, “não-dialéticas”, como a fenomenologia, a filosofia analítica anglo-saxã e a filosofia francesa contemporânea.

Há, ainda, a referência à psicanálise. Ainda que Freud não seja propriamente um autor pertencente à tradição dialética, ele é, como sabemos, uma referência fundamental para Adorno e a primeira geração da Escola de Frankfurt, assim como para Lacan, que Vladimir Safatle situa, desde seu primeiro livro (A paixão do negativo: Lacan e a dialética) na mesma tradição dialética de Adorno – o mesmo Lacan que Adorno parece ter descoberto tarde demais.

Na nota de rodapé da Introdução do livro, Vladimir Safatle afirma:

Hoje, percebo como os pensadores com os quais aderi constituem uma certa tradição: Hegel, Marx, Adorno, Lacan. Ela se orienta em torno do que se convencionou entender por “dialética”. Mas tão importante quanto esses foram aqueles que me fizeram pensar por contraponto. E esta é uma outra tradição: Nietzsche, Foucaut, Deleuze. Freud é um autor fundamental para mim e que não se encaixa em nenhum dos dois polos. Sempre tem alguém para atrapalhar os esquemas. (p. 31)

Ao ler Adorno no confronto com essas outras escolas filosófica, há, no livro de Vladimir Safatle, um esforço em corrigir o rumo das gerações posteriores da Escola de Frankfurt que privilegiaram a discussão com o horizonte filosófico anglo-saxão, em detrimento de uma tradição que é aquela que maior importância tem para Vladimir Safatle, o pensamento francês contemporâneo [1].

Safatle pretende defender a dialética das acusações do pensamento francês, no sentido de sustentar uma dialética que sobreviva a essa crítica. E essa tarefa tem para ele um sentido político fundamental. Como ele mesmo diz: “o sentido do projeto real que anima este livro, [é] procurar recuperar a dialética no momento histórico que é o nosso” (p. 30). E, na página seguinte, afirma ainda: “os desafios atuais pedem que a dialética volte novamente à cena” (p. 31).

Dar corpo ao impossível é, nesse sentido, um livro que extrai as consequências políticas da dialética, em Hegel, em Marx, em Adorno e, por que não dizer, no próprio Vladimir Safatle, que se situa nessa mesma tradição dialética. Cada uma dessas dialéticas deve ser entendida como respondendo ao momento histórico ao qual pertenceram e o mesmo vale para a dialética do próprio Vladimir Safatle.

É este o sentido das palavras que lemos na seguinte passagem do livro:

Se é possível explorar linhas de continuidade entre dialética hegeliana, dialética negativa e, como gostaria de mostrar, mesmo a dialética marxista, é porque a dialética hegeliana é a dialética necessária para as possiblidades históricas da experiência no início do século XIX, assim como a dialética marxista o é para o final do século XIX e a dialética adorniana o é para meados do século XX. Como uma ontologia cujo sistema de posições e pressuposições modifica-se a partir de configurações históricas determinadas, sem com isso modificar sua compreensão estrutural da processualidade contínua do existente, ou seja, como “ontologia em situação”, a dialética reorienta-se periodicamente em um movimento que leva em conta as transformações de suas situações históricas (p. 40).

Portanto, trata-se aqui de saber qual é a dialética necessária para as possibilidades históricas deste início do século XXI, em que Safatle escreve seu livro. E é, certamente, essa a sua tarefa. Mas essa tarefa não pode ser realizada sem um confronto com a tradição dialética em que se insere.

Ao fazê-lo, Safatle pratica algo que vem fazendo em todos os seus livros anteriores e que ele descreve como “uma articulação cerrada entre crítica social e crítica da razão, ou ainda entre crítica da economia política (historicamente situada) e crítica da racionalidade instrumental (que se confunde com o consolidação do horizonte da razão ocidental” (p. 21).

Além da última parte do livro, com textos que são chamados de “excursos” (um capítulo sobre Deleuze e dois sobre autores nacionais), o livro concentra a sua tarefa nas suas duas primeiras partes, cada uma delas dividida em três capítulos.

A primeira parte, se chama “A emergência da dialética negativa: Hegel, Marx, Adorno”. A sucessão dos autores no título, no entanto, deveria, a meu ver, ser “Adorno, Hegel e Marx”, porque é nessa ordem que os autores são apresentados e porque é a partir de Adorno (como está dito no subtítulo do livro) que Vladimir se aproxima, primeiramente, de Hegel e, posteriormente, de Marx.

Quanto à sua estrutura interna, o livro é também bastante peculiar, ao menos em relação às suas duas primeiras partes. Cada capítulo dessas duas primeiras partes do livro é antecedido por um texto em prosa que descreve um sonho de Adorno. É bastante enigmático o modo como essas narrativas oníricas encontram seu lugar no interior da construção teórica do livro.

Um outro aspecto bastante intrigante é o modo como os dois primeiros capítulos da primeira parte são concluídos por análises musicais, de Schoenberg (a ópera Moisés e Arão) e de Berg (Quarteto de cordas, opus 3), ao fim do primeiro capítulo, e de Beethoven, no belíssimo sub-capítulo Se Hegel tivesse ouvido Beethoven (um dos meus preferidos no livro), ao final do segundo capítulo.

As análises musicais vêm, aqui, “resolver” problemas teóricos que são levantados no início dos capítulos. Como se o único lugar que permitiria a solução dos problemas teóricos abordados fosse a música e a análise musical. Dito de outra forma, como se a arte fosse capaz de resolver, em suas obras, praticamente e de modo exemplar, os mesmos problemas políticos e filosóficos colocados pelos textos teóricos.

Isso faz ecoar algumas afirmações do próprio Adorno citadas por Vladimir Safatle no livro (por exemplo na p. 49): “A arte é racionalidade que critica a racionalidade sem dela se esquivar”; “com o progresso da razão, apenas as obras de arte autênticas conseguiram evitar a simples imitação do que já existe”, ambas da Ästhetische Theorie.

Mas o próprio Vladimir se pronuncia explicitamente nesse sentido quando articula arte, política e dialética em Adorno nas seguintes passagens:

Adorno nunca partilhou da desqualificação filosófica da práxis artística ou de sua compreensão come mera esfera “compensatória” para uma época incapaz de levar a cabo grandes transformações estruturais. Para ele, tratava-se, ao contrário, de uma esfera fundamental da práxis social, com forte capacidade indutiva para o campo da moral, da teoria do conhecimento e da política. Ou seja, a filosofia adorniana exige uma compreensão mais alargada de práxis social, na qual a produção estética possa ser reconhecida em sua força de transformação das formas de vida; o que, é fato, implica virar o pensamento hegeliano, com seu diagnóstico do fim da arte como veículo do Espírito, simplesmente de cabeça para baixo. Foi esta a aposta que animou a experiência intelectual de Adorno: pensar a partir das promessas de uma nova ordem trazida pelo setor mais avançado da produção artística de seu tempo. Digamos que esse foi o solo positivo de sua dialética negativa. (p. 103)

(...) a verdadeira ação social, e mesmo a verdadeira ação política, só pode ocorrer através do redimensionamento da força produtiva da imaginação animada pela confrontação com as obras de artes avançadas de nosso tempo. As experiências que mobilizam a ação social transformadora, como a liberdade e a emancipação, são, de certa forma, produções estéticas. Elas procuram realizar, na vida social, a liberdade e a ausência de dominação que as obras de arte são capazes de produzir. Há uma consequência política danosa vinda da recusa em admitir que a arte é o setor da vida social mais claramente portador de força redimensionadora da experiência. A insensibilidade à arte só pode ser também insensibilidade às transformações sociais. (p. 108-110)

Creio que há, nessas passagens, e no movimento do livro em geral, algo de original no que diz respeito às relações entre arte, filosofia e política. De acordo com o movimento de pensamento que anima o percurso de Vladimir Safatle, a arte não seria política ou filosófica por ter conteúdos políticos ou filosóficos, mas por seu próprio modo de realização e acontecimento.

Uma outra característica do livro é, ao longo do seu percurso, ir tangenciando outras produções teóricas atuais, mesmo que elas não sejam citadas, ou apenas brevemente citadas. No belíssimo capítulo dedicado a Marx, senti, por exemplo, uma proximidade muito grande com as teses desenvolvidas em Altíssima pobreza por Giorgio Agamben, quando Vladimir aborda a questão marxiana da apropriação sem possessão, desenvolvida nas seguintes passagens:

Tudo se passa como se Marx falasse de uma peculiar “apropriação (Aneignung) sem possessão (Besitzen)” (...) Marx está a falar e relações com objetos que sinto, que vejo, que percebo, que amo sem possuí-los, sem submetê-los à condição de minha propriedade (...) (p. 133).

São passagens que nos permitem pensar numa proximidade entre o pensamento de Marx e as últimas formulações do filósofo italiano que certamente poderá ser desenvolvida em textos futuros.

Outra aproximação surpreendente ocorre nesse mesmo capítulo, no item intitulado Breve tratado de história natural, onde vemos, de modo bastante surpreendente, Vladimir Safatle estabelecer um vínculo entre o jovem Marx e os ameríndios no que diz respeito à questão da natureza e da compreensão do humano em suas relações com o que, até então, era considerado aquém do humano. Numa nota de rodapé, ele afirma:

Não será um mero acaso perceber que colocações similares podem ser encontradas em autores de tradições distintas da que traçamos aqui. Pois se trata de compreender como modelos distintos de pensamento acabam por convergir quando procuram livrar a natureza da mera posição de exterioridade à normatividade social. Por exemplo, a virada da antropologia proposta por Eduardo Viveiros de Castro baseia-se, entre outros, na compreensão da cosmologia “multinaturalista” que seria própria aos povos ameríndios. (...) Essa força de uma universalidade comum produzida pelo desabamento da distinção entre natureza e cultura leva, inesperadamente, o jovem Marx para perto dos povos ameríndios. (p. 136)

O livro de Vladimir Safatle nos permite, assim, pensar também numa aproximação entre a antropologia de Viveiros de Castro e a dialética marxista, duas tradições de pensamento que não costumam se encontrar com frequência.

Em Linhas de transbordamento, a segunda parte do livro, os três capítulos tratam, respectivamente, de Heidegger, da psicanálise e, por fim, da praxis como política revolucionária.

O capítulo “Identidade: a psicanálise da desintegração” é uma brilhante descrição da história das relações entre a Escola de Frankfurt e a psicanálise, e mostra claramente como “a reconstrução adorniana do materialismo dialético passa necessariamente pela psicanálise” (p. 182). Ficamos sabendo, neste capítulo, de fatos muito pouco conhecidos ou pouco lembrados, como o de que “a aproximação entre a Escola de Frankfurt e a psicanálise chegava até a partilha, nos anos 1920 e início dos anos 1930, do mesmo edifício e das mesmas salas de aula entre o Instituto de Pesquisas Sociais e o Instituto Psicanalítico de Frankfurt” (p. 181). O Instituto Psicanalítico de Frankfurt foi, nesse sentido, “a primeira instituição psicanalítica de orientação claramente freudiana a estar ligada, mesmo que indiretamente, a uma universidade alemão (o que valeu duas cartas de agradecimento de Freud a Horkheimer)” (ibid.).

Mas eu destacaria, como ápice do livro, o terceiro capítulo desta segunda parte, “Práxis: apesar de tudo, uma política revolucionária”, aquele em que, me parece, o livro alcança seu objetivo fundamental. É também o momento do livro que mais nos aproxima do nosso presente, no mundo e no Brasil.

Nesse capítulo, Vladimir afirma que as discussões teóricas de Adorno devem ser entendidas como “prolegômeno necessário para pensarmos o sentido de suas reflexões sobre práxis e política” (p. 205). Ou seja, “o esforço sistemático de Adorno na reconstrução da dialética deve ser analisado em suas consequências para a prática política” (Ibid.). O capítulo aborda, portanto, o modo como Adorno se posicionou concretamente em relação à configuração política do seu momento na Alemanha, seja em relação aos movimentos de maio de 1968, seja em relação ao Partido Social Democrata alemão.

Mesmo que tenha entendido o conjunto de ações ocorridos em maio de 1968 na Alemanha como atravessadas pelo reconhecimento acertado do intolerável da situação em que viviam os alemães naquele momento, Adorno as acusa de estarem baseadas “em um autocontentamento narcísico com sua própria ação, para além das consequências efetivas” (p. 209). Como observa Vladimir Safatle, “Adorno insistirá na incapacidade de o movimento estudantil agir sem saber lidar com o enorme potencial fascista da sociedade alemã que seria desperto como força reativa” (Ibid.). Ao ler essa parte de Dar corpo ao impossível, me perguntei se algo semelhante não aconteceu no Brasil em consequências das chamadas jornadas de junho de 2013. Mesmo que Vladimir Safatle certamente não concorde com essa aproximação, em função de inúmeros pronunciamentos públicos que já fez sobre o tema, acho que valeria a pena uma análise comparativa desses dois momentos (maio de 1968 na Europa e junho de 2013 no Brasil). Como reconhece o próprio Safatle nessa mesma passagem do livro, “há uma rebelião na base do fascismo, há uma revolta cuja energia é desviada de sua força transformadora para colocar-se a serviço do recrudescimento da dominação. Já uma rebelião que se transforma em reação” (Ibid.). Desde junho de 2013, no Brasil, vemos uma ascensão, sem precedentes, das forças conservadoras e fascistas que constituem a sociedade brasileira.

Safatle nos mostra como Adorno via por trás dos acontecimentos de maio de 1968, uma ameaça de retorno da experiência do nazismo, “como modelo nunca ultrapassado de regressão, imanente ao funcionamento normal das democracias liberais” (Ibid.). Como o próprio Adorno afirma, “a tarefa da propaganda fascista é facilitada na medida em que o potencial antidemocrático já existe na grande massa das pessoas” (T. Adorno, Studies in the authoritarian personality). Creio que no Brasil, a ameaça de retorno da experiência da ditadura militar que vemos atualmente seria o correspondente nacional daquilo que, para Adorno, significava o nazismo.

Vladimir Safatle, em seu livro, descreve com bastante precisão o contexto histórico em que Adorno assume suas posições políticas, seja em relação a maio de 1968, seja em relação ao Partido Social Democrata. Mas Vladimir Safatle pensa que, mesmo dentro desse contexto histórico, “é possível (e mesmo desejável) criticar a posição estratégica de Adorno no horizonte político da esquerda alemã dos anos 1960” (p. 212). Confesso que tenho minhas dúvidas a respeito e que me vi, ao ler o livro de Vladimir Safatle, muito próximo da perspectiva assumida por Adorno.

Por todas essas questões, Dar corpo ao impossível se mostra como uma leitura obrigatória para o nosso momento.

Cláudio Oliveira
Universidade Federal Fluminense

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FOOTNOTES

[1É preciso acrescentar ainda a discussão de Safatle com a própria escola dialética uspiana, isto é, com seus professores, com isso que ele chama de “a dialética em solo nacional”, o que constitui o conteúdo dos dois últimos capítulos do livro.
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