’Queria que policial não entrasse atirando’ apela mãe de Maria Eduarda

Meses após Maria Eduarda morrer dentro da escola pelas mãos da polícia militar do Rio de Janeiro, sua mãe, Rosilene Alves, faz um apelo pelo fim da violenta e ostensiva atuação policial nas periferias, morros e favelas, que tirou a vida de sua filha, e promove um verdadeiro massacre cotidiano contra a juventude negra e pobre nesse país.

segunda-feira 17 de julho| Edição do dia

O último dia 30 de Março de 2017 ficou marcado pela morte de Maria Eduarda, dentro de sua escola, pelas mãos da polícia militar do Rio de Janeiro, e escancarou para os olhos de todos a maneira como a polícia atua violentamente nas periferias, morros e favelas, e o massacre que promove contra a juventude negra e pobre nesse país.

Maria Eduarda estava na quadra, fazendo aula de Educação Física, e levou três tiros, dois na cabeça e um nas nádegas, tendo o corpo perfurado a bala por seis vezes.

Rosilene Alves, de 53 anos, mãe de Maria Eduarda, que trabalha de auxiliar de serviços gerais, relata:

"Estava falando dela para as pessoas no meu serviço, como ela era linda, calçava 40 e jogava basquete, quando recebi a ligação. Peguei uma van, falei para o motorista que minha filha havia sido morta e ele foi cortando o caminho. Quando cheguei lá, meu filho abriu o portão para mim e a quadra estava cheia, parecia o Maracanã. As pessoas foram abrindo caminho para mim. Tirei aquele pano, parecia que ela estava dormindo, só tinha aquele sangue ao redor porque foram dois tiros na cabecinha. Eu beijava tanto e falava: Não faz isso comigo Maria, não vai embora", lembra emocionada a mãe da garota

Exames comprovaram que os tiros que atingiram Maria Eduarda vieram da arma do policial Fábio Barros Dias, que está solto. Ele e o sargento David Centeno foram filmados atirando à queima-roupa em dois suspeitos de roubos na região, em frente à escola. Os dois homens estavam deitados no chão, aparentemente feridos e imóveis, e morreram ali, na calçada ao lado do colégio.

Demonstrando força, com o sentimento de uma mãe que perdeu a filha nas mãos da polícia, e a consciência de uma moradora da comunidade, que conhece o modo de atuação da polícia de perto, Rosilene faz um apelo ao fim da violência policial e a verdadeira barbárie que as polícias promovem nas periferias, morros e favelas ao redor do país:

"Eu só queria que os policiais não entrassem mais nas comunidades atirando. Eles não fazem isso em Copacabana, no Leblon, na zona sul", afirma Rosilene. "Ela estava no lugar certo, na hora certa, na escola, que é o lugar onde criança deve estar. Não está sendo fácil, mas eu não vou parar. Eu vivia para a Maria, trabalhava para a Maria. Se eu me entregar, deitar, eu morro de depressão", diz a Rosilene

O pai de Maria, o pedreiro Antônio Alfredo da Conceição, de 62 anos, também se indigna:

"Sentei com o Seu Pezão [Luiz Fernando, governador do Rio] e falei: ’só quero te fazer uma pergunta, governador, o que você faria se estivesse no meu lugar?’. Ele, infelizmente, não tinha resposta. Ainda não teve justiça, o policial ainda não foi preso. Quantas Marias eles ainda vão precisar matar?", lamenta o pai.

O policial Fábio Barros Dias foi indiciado por homicídio pela morte de Maria Eduarda. De acordo com o relatório feito pela Delegacia de Homicídios (DH) do Rio, ele agiu com dolo eventual ao atirar contra os "suspeitos", assumindo o risco de matar algum inocente, já que sabia da existência de uma escola perto do local do tiroteio e do risco de atingir estudantes. Sabemos que para a polícia a juventude negra e pobre nas favelas é sempre suspeita, e a prática é atirar primeiro e perguntar depois, sendo todos culpados até que se prove o contrário.

Pela morte de Maria Eduarda, os dois policiais já foram denunciados pelo crime de homicídio doloso (intencional). Embora tenham sido presos logo após o crime ganhar repercussão midiática, eles foram autorizados pela Justiça a responder ao processo em liberdade e estão soltos.

A tragédia que aconteceu com Maria Eduarda infelizmente não é um caso isolado, diariamente famílias são destruídas e barbarizadas por "balas perdidas" que sempre encontram corpos negros para se alojar. E também não é um caso isolado, mas uma prática sistemática da justiça brasileira, garantir e perpetuar a impunidade da violência e dos assassinatos por parte da polícia.

Por isso nos somamos ao apelo que faz Rosilene, em memória de Maria Eduarda, Claudia Ferreira, Amarildo, Dg, o menino Eduardo de Jesus e todas as vítimas dessa polícia racista, que a serviço dos interesses do estado capitalista segue matando a população negra e pobre do país. Abaixo a polícia racista e assassina!




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