OPINIÃO

Quem serve a comida? O trabalho dos garçons em uma perspectiva anticapitalista

Acossados, por terem que servir diretamente a burguesia, literalmente alimentando-a, com salários tão baixos que muitas vezes os fazem servir aquilo que nem sequer podem comprar, trabalhando com turnos dobrados e em horários que os furtam de suas famílias, os garçons e todos os trabalhadores de bares e restaurantes, são equilibristas e, frente a frente com seu inimigo de classe, alternam docilidade e servilidade com auto-controle e ódio de classes; ao mesmo tempo que cumprem um importante papel social ao atender bem seus irmãos de classe e a população em geral nos raros momentos de lazer que o capitalismo permite aos trabalhadores e, nesse sentido, ajudam a pensar importantes questões relativas ao modo de vida, especialmente o trabalho doméstico que ainda recai, em muito, sobre as costas das mulheres.

quinta-feira 27 de junho| Edição do dia

No manifesto Comunista, Marx e Engels argumentam que a “história humana, desde que existem classes, é a história da luta de classes”, entre burgueses e proletários. Se estado capitalista que, por sua vez, emergiu produto dessa luta é capaz de, por um lado, segregar socioespacialmente as classes sociais, encastelando a burguesia e seus políticos em seus condomínios e mansões e amontoando o proletariado nas favelas e fábricas, por outro, com sua dose nada pequena de fetiche e sadismo, coloca frente a frente, esses inimigos mortais.

Os trabalhadores também vão a restaurantes e bares. Mas há “restaurantes e restaurantes”. Os burgueses e seus porta-vozes não frequentam os restaurantes localizados em bairros operários ou mais baratos que cabem no orçamento de uma família de trabalhadores. Talvez apenas aqueles mais antigos de famílias de trabalhadores que foram ganhando espaço dentro do competitivo circuito de restaurantes badalados considerados “de alta gastronomia”, frequentados pelos mais ricos. Os restaurantes frequentados pelos burgueses se localizam em bairros centrais, como no Itaim Bibi em São Paulo (bairro onde mora o governador crápula João Dória) ou no Ipanema ou Lapa no Rio de Janeiro, com pratos que podem chegar aos três dígitos. O capitalismo chega ao absurdo de dar preço em uma refeição equivalente ao que muitos trabalhadores não ganham em um mês inteiro de trabalho! Para comer todos os dias um prato desses, servidos aos mais ricos, só para as refeições diárias, considerando apenas almoço e jantar, o salário de um trabalhador teria que ser 600% maior que o valor do salário mínimo atual, o que demonstra quando degradada é essa democracia dos ricos.

Para classe trabalhadora, o papel que cumprem bares e restaurantes é bastante distinto. Para os trabalhadores, “Comer fora” é, muitas vezes, um mega desafio, mas quando, fartos da asfixiante rotina casa-trabalho trabalho-casa, decidem, em geral no começo do mês quando recebem o salário, dar um basta e sair de casa e respirar o ar puro da vida cultural e o pulsar, é nos bares e restaurantes das grandes cidades onde os trabalhadores vão. Nesses lugares que a juventude traz à tona sua profunda rebeldia contra tudo que aí está, na música dos bares e roles, nas roupas e cabelos, na arte e, inclusive, na comida.

Dificuldades e possibilidades do trabalho dos garçons

O trabalho de garçom, cumim, barman e outras funções sofrem profundamente com a tercerização, com o desemprego e a informalidade e, em geral, com toda ofensiva aos direitos dos trabalhadores incluindo a reforma da previdência, principal política do governo do atual presidente Jair Bolsonaro e do ministro da economia Paulo Guedes. Jovens, mulheres, negros e LGBTs compõe a maior parte da categoria, por exigir-se muita pouca qualificação. O desemprego galopante no país, aliado às opressões como o machismo e o racismo pressionam os salários para baixo e mais e mais o trabalho nos restaurantes vai sendo tido com um bico, um “extra”, desvalorizando os garçons.

Nas festas de formatura e casamento é onde talvez estejam os patamares mais agudos de precarização. Assistimos a um cenário brutalíssimo de exploração: não existem vínculos trabalhistas de nenhum tipo: a empresa terceriza o serviço e avisa o trabalhador do apenas alguns dias antes da festa, ou seja, o trabalhador não possui nenhum tipo de garantia de se irá ou não trabalhar e receber. O pagamento é outro problema, pois é feito apenas 15 dias depois, num valor miserável que pode descer até $ 70 reais, o equivalente a R$ 5,84 por hora. A jornada diária pode chegar à 15 horas ou mais, e a comida servida para os trabalhadores é muitas vezes diferente da comida servida nas festas e de má qualidade, o que é uma verdadeira humilhação! Muitos garçons adoecem em função dessas condições de trabalho.

Nesse sentido, a categoria também sofre com a profunda diferenciação interna que a deixa profundamente fragmentada, tanto no sentido do número grandes de funções (cozinha - salão, por exemplo) que exercem, quanto em função da qualificação e remuneração. Outro fator que pesa na pulverização na categoria é que diferente de outras categorias de trabalhadores como os metalúrgicos que em um único local de trabalho pode abrigar milhares de trabalhadores, os trabalhadores garçons de bares e restaurantes estão divididos, aos punhados, em centenas e até mesmo milhares de unidades de trabalhos, um pouco parecido com os professor divididos em centenas de milhares de escola em todo país. Existem redes gigantescas de restaurantes como a australiana Outback e mesmo as redes de Fast Food, mas quando trata-se de bares e restaurantes, em geral, não é do grande capitalista que tratamos, mas sim do pequeno capitalista que “repassam” aos trabalhadores as contradições que a crise capitalista os impõe.

Essa condição de precarização na categoria, facilita o trabalho das burocracias sindicais e dos sindicatos patronais que “pintam e bordam” com os direitos dos trabalhadores, não levantando um dedo sequer para representa-los, ao mesmo tempo, que os roubam.

Essa caracterização esboçada acima, nos dá uma dimensão de quão plural é a categoria e também das dificuldades que possuem para se organizarem numa perspectiva anticapitalista e revolucionária. Entretanto, é justamente dessas dificuldades que emerge a força dos trabalhadores garçons, seu contato direto com centenas de trabalhadores diariamente atendendo e costurando relações seus irmãos de classe e com a população em geral os tornam gabaritados para assumirem para si as demandas mais sentidas de cada local e região, como a demandas dos negros, dos LGBTs e das mulheres, atuando como verdadeiros tribunos populares, ao mesmo tempo, incendeiam a si mesmos com ódio de classe atendendo aqueles que são os mais ricos no capitalismo e que enriquecem as custas da exploração do trabalho alheio. Nesse sentido, é importante que os trabalhadores de bares e restaurantes retomem seus sindicatos e os coloque a serviço de uma perspectiva de emancipação social, levantando um programa de rechaço a Reforma da Previdência, de não pagamento a dívida pública.




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