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Quem é Boris Johnson, o novo primeiro-ministro britânico?

Há apenas um ano atrás, a carreira política de Boris Johnson parecia ter chegado ao fim. Hoje, ele ganhou as eleições internas do Partido Conservador e assumirá como primeiro-ministro britânico em 24 de julho.

quarta-feira 24 de julho| Edição do dia

Boris Johnson, propenso a enfiar os pés pelas mãos, foi eleito líder do Partido Conservador e de acordo com o sistema político britânico, isso o torna primeiro-ministro do Reino Unido.

Ninguém duvida de sua ambição, por isso um dos motes pelos qual é conhecido é o de "loiro ambicioso". Nascido em Nova York, filho de uma rica família de classe média, teve uma vida cheia de privilégios, foi educado na European School em Bruxelas, na Bélgica, assim como no caríssimo Eton College, na Inglaterra, e também na Universidade de Oxford. Embora Johnson queira se apresentar como um político fora do establishment, sua linhagem favorecida indica o contrário. Deputado no parlamento britânico desde 2001, ocupou diversos cargos importantes, como Prefeito de Londres (2008-2016), Secretário de Estado das Relações Exteriores e da Commonwealth (2016-2018) e Presidente da Commonwealth (desde 2018 até o presente). Isso, juntamente com sua carreira como jornalista da direita conservadora, o fazem um homem dos meios de poder, mesmo que com suas aparições na televisão e palhaçadas tentem apresentá-lo expressando a opinião do cidadão comum.

Entre seus reacionários comentários, citaremos: “a rainha gosta dos países da Commonwealth porque ela é recebida por uma multidão eufórica de ’negros’ agitando bandeiras” (dezembro de 2002) pelas qual ele teve que se desculpar publicamente; ele também sugeriu que o aumento de mulheres malaias que freqüentam a faculdade deveu-se ao desejo delas de “conseguir um marido” (julho de 2013), e durante uma viagem oficial a Mianmar ele recitou um poema da época colonial de Rudyard Kipling (janeiro de 2017), na frente de dignitários locais. Sua mais recente pérola foi dizer que “as mulheres muçulmanas usando burca parecem ’ladrões de banco’ ou ’caixas de correio’” (agosto de 2018). A lista é longa e os atributos desconfortáveis para qualquer ativista que defenda as lutas pelos direitos das mulheres e pela defesa dos imigrantes. Fora de sintonia, por outro lado, da vasta maioria de trabalho do país que tem composição migrante.

Ele também é conhecido por mudar seu ponto de vista sem explicação e à revelia. Sua ineficiência política, nos vários projetos de vaidade política e fiascos econômicos durante seu mandato como prefeito de Londres, cria sérias dúvidas e até desperta desconfiança inclusive entre alguns políticos de seu próprio partido. Apesar de tudo, o caminhão em movimento está pronto e a Rainha espera o "loiro ambicioso" para dar-lhe sua aprovação. Que o Reino Unido caiu tão baixo a ponto de ter Boris Johnson como primeiro-ministro é uma expressão de sua decadência e da crise orgânica que o Brexit agudizou.

Um futuro incerto

Com uma vitória esmagadora, o ex-chanceler e ex-prefeito de Londres conquistou a liderança do Partido Conservador dobrando os votos de seu último rival, o atual ministro das Relações Exteriores, Jeremy Hunt. Em um breve discurso proferido logo após o resultado da votação ser conhecido, Johnson resumiu os três objetivos de seu mandato: "Completar o Brexit, unir o país e derrotar Jeremy Corbyn". "Isso é o que vamos fazer", disse ele e prometeu "revitalizar o país" antes de uma sonora ovação.

O mérito não é inteiramente próprio, Johnson chegou até aqui graças ao fracasso da primeira-ministra Theresa May em realizar o Brexit. Dada a divisão que o partido conservador atravessa ao redor do Brexit, e frente ao ascenso do “Partido Brexit”, liderado por Nigel Farage, deram a Johnson uma chance, apesar de sua eleição levantar questionamentos.

É uma aposta arriscada e Johnson enfrenta uma missão política gigantesca, não apenas porque o Partido Conservador está dividido em toda a Europa há muitos anos, mas porque o governo apenas conta com uma maioria parlamentar de dois votos - incluindo os 10 deputados do reacionário e ultraconservador Partido Democrático Unionista (DUP) norte-irlandês. Não é um fato menor, em outras palavras, se um primeiro-ministro não conseguir que a maioria dos deputados vote nele, ele não poderá manter-se no poder por muito tempo.

Durante a campanha pela liderança do partido, Johnson prometeu que, até 31 de outubro, ele forçará o Reino Unido a sair do bloco comunitário “com ou sem acordo”, em suas próprias palavras, é “crime ou morte”. Mas que desafios o novo primeiro-ministro enfrenta em relação ao Brexit? A ala eurocética de seu partido estará observando-o para manter sua palavra de conseguir um acordo melhor. Se falhar, deve sair da UE, se puder. Isto, claro, a menos que a UE inverta e decida fazer concessões que ainda não ofereceu. Em qualquer caso, os líderes europeus podem esperar até a reunião de 17 de outubro, quando avaliarão a situação de Johnson e tentarão encontrar um terreno comum. Ou seja, uma renegociação do plano de saída: isso poderia incluir uma extensão e, sem dúvida, abrir a discussão sobre o “backstop”, o mecanismo projetado para evitar controles na fronteira européia entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, o maior obstáculo por trás do Brexit. Os “Brexiters” se opõem a esse mecanismo porque acreditam que ele mantém o Reino Unido acorrentado à UE, pois as regras alfandegárias da UE permaneceriam em vigor.

O plano de Johnson é abandonar o “backstop” de raiz, que recebeu a simpatia do DUP que assegurou que fornecerá os votos necessários ao governo de Johnson. No entanto, a UE nunca mudou a sua posição e continua a insistir na necessidade do mecanismo de backstop, uma vez que o Reino Unido deixe a UE após o período de transição que expira em dezembro de 2020.

Outros pontos que Johnson quer renegociar é o de reter o pagamento da fatura de divórcio Brexit de 29.000 milhões de libras (39.000 milhões de euros). Este pedido poderia contaminar mais o ambiente e o caso provavelmente terminará na justiça. Por seu turno, a UE disse que nem sequer se sentará para discutir a questão.
Tendo em conta os pedidos do governo de Johnson, é mais provável que o Reino Unido esteja a caminho de um Brexit sem acordo, a menos que o Parlamento impeça. O problema que o novo presidente tem é que os números não o fecham, com uma maioria de apenas dois votos, depende de cada um dos deputados de sua formação.

Para complicar as coisas, essa diferença pode ser reduzida a um voto após a problemática eleição local no distrito de Brecon e Radnorshire, no norte do País de Gales, a ser realizada em 1º de agosto, apenas uma semana após Johnson assumir o cargo. Ou seja, dois deputados conservadores “rebeldes” podem infligir uma derrota ao governo.

Johnson foi eleito com 92 mil votos de afiliados do partido Tory (66%) e expressa a visão de um setor conservador no país que quer que o Brexit se materialize. Se Westminster não o autorizar a deixar a UE sem um acordo, não está descartado que Johnson convoque eleições antecipadas para consolidar seu mandato.

Os cenários são muitos: pequenas alterações no acordo de maio - quase impossível; deixar o acordo de maio e uma vez fora da UE discutir a fronteira com a Irlanda e os acordos comerciais, conhecidos como "Brexit às cegas"; uma saída sem acordo que pode ser impedida pelo parlamento e, por sua vez, desencadear eleições gerais; ou dificultar o governo com um voto de confiança.

Um novo ministro que pode repetir o destino de seu antecessor.




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