Política

CRISE DOS COMBUSTÍVEIS

Quem dirige o caminhão?

Talvez a crise que estamos vivendo seja a que mais causou a sensação em muitos trabalhadores de desconfiança e incerteza: afinal, quem dirige o caminhão? Quem está por trás dos bloqueios de estradas? Há perguntas no ar, um clima de tensão, e muita confusão alimentada pelas fake news e os grupos de Whats App. O que nos exige encarar a realidade de frente, por que nem sempre é fácil enxergar o motorista real por trás do vidro.

Iuri Tonelo

São Paulo

terça-feira 29 de maio| Edição do dia

Antes de tudo, é preciso caracterizar o que está em jogo no conflito. As primeiras perguntas que nos podemos fazer para entender a questão são: o que eles defendem? qual o programa dos bloqueios? Como todos sabemos, ficou bem marcado no movimento: não se trata de um pedido de redução dos combustíveis em geral (incluindo o gás de cozinha e gasolina, que favoreceriam a população). A principal demanda do movimento é a redução do preço do diesel (com um pacote incluindo pedágios e fretes).

Pois bem, isso é uma demanda popular? Não, não é nada operária a demanda: ela favorece especialmente um setor forte do capital no país, que é o das transportadoras (burguês, portanto) e um setor pequeno-burguês de caminhoneiros autônomos (entres os quais uma parte tem outros caminhões, atuam como pequenos-empresários). E de onde sairia a verba? Um montante da União, a criação de novos impostos e retirada de verbas públicas através de cortes em serviços para a população, como saúde e educação. Em suma, a transferência de dinheiro público para os lucros de grandes empresas transportadoras (o forte do que está em jogo).

Entender o forte da disputa da demanda faz pensar exatamente quais setores gostariam de modificar o preço do combustível e querem mais subsídios a ponto de conseguir fazer um forte braço de ferro com governo? As transportadoras... que estão ligadas, sobretudo, ao agronegócio.

Para dar apenas um exemplo extraído do próprio site da empresa, o grupo Bom Futuro, do “rei da soja” Erai Maggi, tido como maior exportador de soja do Brasil, tem coincidentemente uma imensa frota de transporte, relatada por eles mesmo no site:

"O aumento significativo nos volumes de produção, exigiu do Grupo Bom Futuro o investimento em logística: Nascia assim no ano de 2012 a Divisão Transportes. Com cerca de 400 caminhões rastreados, sendo eles 320 de grande porte, a cada safra a transportadora do Grupo Bom Futuro movimenta para os armazéns da empresa 100% da sua produção de grãos. Além disso, parte dessa frota transporta toneladas de pluma de algodão beneficiada, das algodoeiras do Grupo Bom Futuro para os portos de Santos e Paranaguá. No retorno, são transportados insumos utilizados nas lavouras do Grupo Bom Futuro. Isso é planejamento logístico a serviço da produtividade."

Ou a própria empresa liderada pelo primo de Erai, André Maggi, a AMAGGI Commodities, já em 2013 estava entre as 20 maiores exportadoras do Brasil, possuindo particularmente armazéns que podem chegar a estocar 2,5 milhões de toneladas de grãos e que sem dúvida é parte interessada nos gastos de transporte dessas milhões de toneladas pelo Brasil e também para o exterior. Ou Grupo Scheffer que diz em seu site que “possui uma frota própria, completa e padronizada. Composta principalmente por 40 Rodotrens graneleiros puxados por Volvos FH540 traçados que garantem a distribuição dos produtos cultivados com segurança e otimização do processo de produção. E mais 69 caminhões entre Ford/Volvo/Mercedes que fazem o transporte interno entre as Unidades de Produção”.

Ou seja, imagine que um dos setores mais fortes do capital nacional, o agronegócio, tem mais que um interesse especial em saber o preço do diesel, porque influencia diretamente sobre seus lucros. Esse é só alguns dos grupos do agrobusiness, pensemos isso numa escala ampliada levando em conta todos os setores, para ver a influência que eles têm sobre o transporte de caminhões.

Com o desmantelamento da ilusão lulista que unia Petrobras, empreiteiras, setor da indústria, setor financeiro e parte da agropecuária — todas as direções engolidas pela Lava Jato — além dos enormes fluxos de capital imperialista no contexto de crise econômica internacional, a tendência é que o peso no PIB do agronegócio aumente ainda mais, ganhe mais força a bancada ruralista e, por conseguinte, seus interesses no conjunto do país. É mais que evidente que por trás do caminhão existe um fortíssimo setor burguês.

Se esse é um dos lados, como fica no tabuleiro a disputa em questão?

Em primeiro lugar, partindo que os setores burgueses em jogo têm o mesmo interesse estratégico de privatizar a Petrobras, existe uma disputa intraburguesa que em seus traços gerais expressa o conflito entre os setores do agronegócio que querem subsídios para o transporte (portanto, que lucram mais com o Diesel barato), de um lado, e setores financeiros e monopólios petrolíferos transacionais que querem os combustíveis mais caros, porque lucrariam mais na medida em que já se "liberalizou" os preços, deixando-os flutuantes de acordo com o mercado internacional. Em geral os setores industriais apoiam o segundo bloco, por interesses econômicos com relação aos gastos de frete, ou seja, querem que se reduza os custos das transportadoras, mas não pagar mais fretes (seria perder parte de sua mais-valia para as transportadoras).

Partindo disso, quando se busca compreender mais os setores que estão por trás do componente de locaute que iniciou esse movimento não se pode ver que existe apenas um interesse econômico imediato, mas mais estrutural: é necessário impor ajustes fiscais muito mais brutais do que Temer conseguiu fazer, a começar pela reforma da previdência. As soluções das distintas frações burguesas até agora estavam majoritariamente ligadas a apostar num candidato de “centro-direita”, particularmente em Geraldo Alckmin, por ter experiência em São Paulo, já ter enfrentado muitas greves importantes, ser de um partido forte do regime político, em suma, um quadro político burguês para ser a cara dos ajustes. Uma aposta que setores como a Globo, por exemplo, ainda não abriram mão, por isso a posição distinta nos bloqueios caminhoneiros.

No entanto, Alckmin não emplacou até agora nas pesquisas e já está mais que claro que sem o mínimo de popularidade e algumas fortalezas como figura política vai ser impossível enfrentar o forte movimento operário brasileiro (a despeito das direções das grandes centrais sindicais, burocracias servis ao regime, mas que nem sempre podem controlar a massa operária).

Nesse sentido, uma migração decisiva — que ainda vai se testar até as eleições — foi o anúncio do giro do agronegócio para a candidatura de Bolsonaro. “Hoje o agro é 95% Bolsonaro”, sentenciou Frederico D’Ávila, que é vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira e principal consultor da área de Alckmin, como foi noticiado pela mídia no último período. Também ficou bem explícito o apoio que Bolsonaro recebeu no Agrishow.

Pode-se dizer portanto que a crise gerada a partir dos bloqueios do caminhões liga a disputa econômica a uma disputa política, no marco da conjuntura eleitoral? Sem dúvida. Quanto maior essa crise, mais têm se polarizado os ânimos na sociedade e, a partir da total incapacidade de centrais sindicais como a CUT de oferecerem uma alternativa contraposta a esse movimento com interesses reacionários, abre-se uma avenida para a direita capitalizar com seu locaute de caminhoneiros, seja nas versões lideradas pelo DEM no congresso que querem levar à desestabilização até o final para tentar aventuras de governo indireto com a queda de Temer, as bandeiras de intervenção militar ou o setor bolsonarista que apoiava o movimento até agora para fortalecer Bolsonaro como mediação eleitoral — claro, tiveram que parar de apoiar o locaute de caminhoneiros a partir de hoje porque fortalecer a via indireta não contribui com a candidatura de Bolsonaro.

O PT inclusive achou que poderia manobrar e fazer uma enxurrada de memes com “bateram panela ontem? Veja no que deu”, tentando ganhar um pouco as classes médias para uma nova visão sobre o golpe e os governos petistas, eleitoralismo puro.

Mas, doce ilusão, querendo fazer campanha eleitoral, continuam abrindo espaço para que se termine fortalecendo Bolsonaro com sua apatia sindical, o que na atual situação equivale a uma enorme traição contra a massa trabalhadora, que assiste receosa o crescimento desse movimento de direita, da volta de atos (ainda pequenos) de verde-amarelos pedindo intervenção militar, das frações burguesas reacionárias por trás dele e da própria figura de Bolsonaro que estava apoiando até a segunda-feira à noite — e na última pesquisa da XP investimentos Bolsonaro já aparece empatado com Lula no segundo turno, um pouco à frente na pesquisa e ganhando em todos os demais cenários[1].

Desvendado o mistério, entendendo as raízes políticas do movimento, a posição dos trabalhadores deve ser clara: rechaço aos bloqueios advindos do locaute patronal, rechaço à disputa interburguesa que tende a levar a mais impostos para os trabalhadores, rechaço à demanda de intervenção militar e pró-bolsonaro. Não existe nada de "contraditório" no movimento — como durante o golpe também diziam que devíamos "disputar a classe média nas ruas" de verde-amarelo. Não. A única disputa real pela consciência operária é de se separar desse movimento e suas direções patronais e buscar construir uma nova alternativa.

Partidos de esquerda, como o PSOL que demonstra um "apoio envergonhado" aos caminhoneiros se adaptando completamente ao movimento, para nem falar de organizações como PSTU que chamam de "rebelião" o ocorrido (terminarão chamando a ofensiva verde-oliva de revolução?), expressam apenas a falta de vontade teórica de enxergar com profundidade a questão e o anseio de se opor a qualquer custo ao governo reacionário de Temer, mesmo que seja pelo lado da ultra-direita. Uma lástima para a necessidade dos trabalhadores de entender o que acontece e saber como agir.

A greve dos petroleiros e demais greves em curso de trabalhadores devem se opor claramente programática e estrategicamente a esse fortalecimento da direita e oferecer uma alternativa operária, partindo da denúncia da paralisia com que a CUT tem conduzido esses movimentos (votando greves de período definido em véspera de feriado!), e avançando por levantar o programa de uma Petrobras 100% estatal controlada pelos trabalhadores, contra as aves de rapina dos monopólios imperialistas estrangeiros que querem levar nossas riquezas e também esclarecendo que o PT, em 13 anos de governo, submeteu a Petrobras ao capital estrangeiro, pagou acionistas privados com dinheiro público e assimilou os métodos de corrupção de toda cúpula de altos burocratas indicados desde a Ditadura, passando por FHC e nos governos do PT, que usurparam bilhões de reais. Abriram o caminho à privatização que os golpistas querem levar agressivamente adiante.

Só podemos confiar nos próprios trabalhadores para gerir as grandes estatais e colocá-las a serviço da massa da população, inclusive com preços populares que não sirvam a lucros imperialistas. Essa é a resposta profunda à crise dos combustíveis do país.

[1] https://www.poder360.com.br/eleicoes/pesquisa-da-xp-investimentos-indica-bolsonaro-empatado-com-lula-no-2o-turno




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