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UNICAMP

Que ideias defende João Amoedo, amigo das UJS e Apenas Alunos no DCE-Unicamp?

O DCE da Unicamp, gerido pela aliança entre UJS (PCdoB) e Apenas Alunos, como parte de seu ciclo de debates eleitorais sobre “Alternativas para a crise”, trará para a Unicamp no próximo dia 9 ninguém menos que o golpista, pré-candidato a presidente e idealizador do partido Novo, o banqueiro ligado ao Itaú e empresário, João Amoêdo. Essa parceria, segundo esses grupos, é meramente fortuita, em prol da “pluralidade de ideais”. Porém, promove velhas ideias sob “nova roupagem”, debatendo “alternativas” para a crise em base a um projeto privatista, em favor da “prosperidade” do mercado, da “redução da pobreza” e financiado por grandes empresários e banqueiros. Qual a relação dessas ideias com a proposta de “Clube DCE”? Com quais ideias os estudantes podem ser sujeitos para construir uma resposta junto aos trabalhadores para a crise dentro e fora da Unicamp?

Ítalo Gimenes

Campinas

terça-feira 8 de maio| Edição do dia

Quem é João Amoêdo?

João Amoêdo, engenheiro civil e administrador de empresas, já assumiu altos cargos bancários no seu currículo, chegou até mesmo a ser vice-presidente da Unibanco e fez parte do conselho de administração do Itaú-BBA. É um dos abastados fundadores do partido pelo qual disputará a presidência esse ano, o Partido Novo.

O candidato surgiu como um personagem novo na cena política, junto com seu partido, críticos à política tradicional, mas reciclando velharias liberais em seu programa. O dono da Riachuelo, Flávio Rocha, ícone do golpismo, candidato a presidente pelo PRB e defensor da flexibilização da fiscalização do trabalho escravo, por cujo crime a sua empresa é acusada, compartilha ideias com Amoêdo, dividindo palanque eleitoral para falar de “livre mercado” em Porto Alegre.

Quem banca o Partido Novo são as sobras dos lucros capitalistas

O Novo teve seu início de fundação em 2011, seleciona seus membros e lhes garante direitos políticos conforme sua participação nas finanças do partido. Amoêdo calcula ter gasto, até hoje, R$ 4,5 milhões para criar o partido. O banqueiro, Pedro Moreira Salles, do Itaú, e Cecília Sicupira, mulher do investidor Beto Sicupira, doaram mais R$ 100 mil cada. Além disso, os grandes empresários, Marcelo Lessa Brandão (que foi do grupo que controla as redes de fast food Bob’s, Pizza Hut e KFC), João Antonio Lian (latifundiário e presidente do Conselho de Exportadores de Café do Brasil [Cecafé]) e Fábio Luis Ribeiro (gestor de fundos de investimento), assinaram para a fundação do partido.

E que ideias estão por trás dessa aliança entre grandes investidores, empresários, pretensos idealizadores de um “novo” projeto político-econômico em tempos de crise? O que elas têm a ver com um projeto de sociedade dos grandes capitalistas e o papel da universidade nele?

Estado mínimo promotor do “livre mercado” e da divisão dos trabalhadores por gênero

No discurso, Amôedo prega um Estado “simples, liberal e pouco burocrático”, em benefício das “liberdades individuais” e em “combate ao crime”. Demagogicamente, fala em reduzir ministérios, verbas com gabinete, “enxugar a máquina”, ao mesmo tempo reduzindo impostos, para dar mais campo ao “empreendedorismo”. Para Amoêdo, o Estado deve limitar-se a garantir o livre mercado e uma segurança pública forte. Ou seja, deve se restringir a uma suposta ampliação da concorrência, criando oportunidades de mercado ao mesmo tempo em que fortalece a repressão.

Um Estado mínimo, que nos nossos tempos de crise capitalista internacional necessita se fortalecer, como mostra o protecionismo nacionalista de Trump. A “liberdade” de mercado prova-se cada vez mais relativa quando o capitalismo precisa salvar-se de si mesmo, do ponto de vista de suas crises, o Estado cumpre um papel de aprofundar a exploração e acumulação de mais-valia absoluta e rebaixar os gastos com serviços à população.

Em um país como um Brasil, que segue há anos comprometendo 47,5% do PIB (dados de 2016) com o pagamento (ou amortização dos juros) da dívida pública, com previsões para se aprofundar a crise fiscal no país nos próximos anos, o Estado cria uma lei de responsabilidade fiscal para “evitar uma quebradeira geral”. Assim, se compromete também a congelar os gastos com saúde e educação (PEC dos gastos), reformar as leis trabalhistas e especialmente a Previdência, carro chefe da economia de recursos destinados ao pagamento desses juros de uma dívida que até 2023 poderá valer 100% do PIB do país. Isso é o Estado atuando diretamente para salvar os lucros estratosféricos de grandes bancos internacionais e do capitalismo acionista, despejando a crise capitalista sobre os trabalhadores e a população pobre. Em tempos de crise fiscal, que ameaça se aprofundar cada vez mais, até mesmo a redução de impostos não passará de uma promessa de Amoêdo quando os capitalistas demandam mais verba para o pagamento dessa dívida.

Além disso, o presidenciável já declarou que o Estado não deve interferir em temas como a igualdade salarial entre homens e mulheres, uma demanda do século XIX que o capitalismo é incapaz de garantir, justamente porque se vale da opressão para aumentar a exploração, a qual Amoêdo apenas reforça. Segundo ele, em entrevista ao El País: “Se as empresas estão pagando salários diferentes, não cabe ao Estado interferir nisso. Algum motivo deve ter, cabe entender essa dinâmica”. Ainda diz que: "o risco de aprovar uma lei que determina salários iguais é que algumas mulheres acabem desempregadas".

Golpismo privatista, a favor das reformas, garantidas com repressão aos negros e pobres

Diante do avanço do golpe, com a prisão do Lula, Amoêdo acha correta a sua prisão. Nesse caso pouco o importou se o Estado, por via de um autoritarismo judicial, está decidindo negar o direito do povo decidir em quem votar, seja em um conciliador de classes como Lula, candidato mais forte nas eleições. Aí o Estado parece ser mais “livre” para intervir sobre os direitos democráticos do que em outros momentos: negá-los em benefício de políticas que garantem o lucro do mercado em tempos de crise.

Mas também ao fortalecimento da repressão, defendendo o fim do estatuto do desarmamento, maiores recursos e uma política dura de segurança pública. Ou seja, nada de “novo” de um Estado como um “balcão de negócios”, garantido pela repressão, que no Brasil mata milhares de negros e pobres nas periferias, que os golpistas aprofundam com a Intervenção Federal no RJ. Militarização nos morros não é algo novo, mas aprofunda-se sempre que o potencial explosivo dos negros e da população que vive a miséria mais brutal nesse país se aprofunda com a crise.

Exatamente porque o golpe institucional serviu a esses interesses, aprofundar uma agenda econômica de ataques aos trabalhadores e à juventude, maiores do que o PT estava aplicando, é por que a Amoêdo o golpe é permissível. Sendo em favor do pagamento rígido da “bolsa banqueiro”, que significa o pagamento da dívida pública, seus juros gananciosos, de privatizações de estatais, há jogo.

Dentre as principais empresas públicas ou de capital misto do país, desde a Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica e Eletrobrás, Amoêdo defende a privatização de todas, a entrega completa de centenas de bilhões em investimento público acumulado, o controle dos recursos naturais e estratégicos para o capital dos grandes bancos e monopólios internacionais. É isso que Amoêdo considera livre concorrência?

Alega que a privatização acaba com a “roubalheira”, quando na realidade ela deixa intocados esquemas mais nebulosos, que até mesmo a Lava-Jato não ousa em mexer, ligados a esse capital imperialista, quando ignora delações contra multinacionais imperialistas tipo Mitsui, Transocean. De fato não é o caráter estatal da empresa que garante o combate à corrupção, até porque o próprio Estado atua em favor das parcerias com o setor privado, azeitando com esquemas de corrupção e cargos de confiança. A única forma de combater a corrupção é reestatizando tudo que já foi vendido das empresas públicas e colocá-las sobre controle dos próprios trabalhadores.

No que tange aos serviços públicos, o contente defensor da PEC dos gastos públicos, acredita que uma política de “vouchers” poderá facilitar a parceria com “empreendedores” da saúde e educação, por exemplo, e “vales” providos pelo estado para se ter acesso a esses serviços geridos pela iniciativa privada. Uma política pra lá de “neoliberal”, que transforma o direito universal em um serviço, em direito focalizado, atrelado a políticas públicas focalizadas, para que o lucro privado predomine sobre as necessidades mínimas e a qualidade do serviço prestado. Se a terceirização encontrou terreno nas universidades ditas de “excelência” como a Unicamp nos anos lulistas, com o golpe se aprofunda como uma resposta à crise, junto ao corte de bolsas de pesquisa, de permanência estudantil. É com esse projeto de universidade que Amoêdo fecha, de modo que ela siga preservando o caráter excludente e elitista da universidade, atacando as pesquisas que fogem do interesse de mercado e das empresas e precarizando o trabalho dentro da universidade.

Haja visto como cresceu nos anos de governo de PT, e mais ainda no golpismo, os monopólios da educação, como a Kronton-Anhanguera, que com a crise expandiram seu domínio promovendo esse tipo de educação pelo país, com dinheiro do estado e das dívidas da juventude. A disputa por acesso à universidade para toda a juventude deverá terminar de enterrar esses fósseis do liberalismo, e passando pelo fim do pagamento da dívida pública, a nacionalização do conjunto do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores, que tome os 40% do PIB entregue aos agiotas internacionais. Assim haverá muito mais dinheiro do que se espera para construir escolas, hospitais, universidades, pagar professores, contratar funcionários, enfim, haverá recursos que, se tomados nas mãos dos trabalhadores organizados e da população, poder tornar real a existência serviços públicos de qualidade e para todos. Mas a universidade pública demanda se enfrentar também com os tubarões da educação privada que o neoliberalismo idealizou.

O que Amoêdo guarda para as universidades federais e públicas? Quando trata da redução de impostos, o que espera acontecer com o financiamento das universidades estaduais paulistas, como a Unicamp, que dependem do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias)? Proporia vauchers e mensalidades para a juventude? Professores contratados por “empreendedores” de empresas terceirzadas? Ainda que não tenha tratado do tema em suas entrevistas, não é difícil de imaginar uma universidade ainda mais elitista, que além do filtro do vestibular imporá mensalidades para juventude trabalhadora e negra que hoje, quando sabe que a Unicamp é na verdade pública, já encontra entraves concretos para seu sonho de ingressar em uma universidade pública, ou mesmo permanecer.

Por que a UJS e o Apenas Alunos fazem com que o DCE dos estudantes da Unicamp compactue com essas ideias?

Por que o DCE quer trazer esse João Amoêdo, que desfruta de espaço nas altas festas empresariais, cúpulas bancárias, junto aos “donos” do país, tem a mídia a seu favor e toda a ideologia dominante, para debater respostas para a crise com o movimento estudantil da Unicamp? Por que ceder espaço para alguém que tem o MBL como aliado, que até mesmo o entrevistou em um de seus “Testes de Sofá”, ao invés de organizar uma resposta dos estudantes para crise?

Após divulgarem o evento de que João Amoêdo participaria do ciclo de debates promovido pelo DCE, muitos estudantes questionaram para que dariam espaço para suas ideias na Unicamp. A gestão alega permitir a “pluralidade” no debate. A única certeza é que esse encontro não é fortuito assim, que por de trás do escudo da “pluralidade” carrega uma concepção e um programa perversos para o movimento estudantil e suas entidades.

Com a política de Clube DCE, UJS e AA atrelam o financiamento da entidade estudantil ao MC Donalds’, à imobiliárias e outros comércios de barão, os menos interessados em um DCE que possa discutir profundamente a universidade tal como ela é e como ela pode estar a serviço de mudar a sociedade de conjunto. Por isso, a política de “descontos” para os estudantes – chamando isso de permanência! –, além de oportunista, afronta a autonomia política dos estudantes, que dependerão de dinheiro de empresas para ter políticas próprias.

Quando o DCE propõe o Clube DCE e ainda convida Amoêdo para fundamentar seu princípio de parceria com empresários e grupos privados, abrem ainda mais caminho para que essas empresas e seus interesses nefastos se arrojem dentro da universidade, que sugam o conhecimento especializado dos estudantes para fazer patentes e lucrar privadamente. Não é para esses interesses que a universidade deve estar submetida. A universidade pode estar a serviço de toda a população, de modo que o conhecimento e arte produzidos aqui, para serem verdadeiramente livres, devem acabar os vínculos com as “demandas do mercado”.

Certamente o DCE está longe de querer fomentar qualquer resposta que seja independente, tampouco aliada aos trabalhadores, e sim, junto com a reitoria, quer minar as possibilidades dos estudantes se verem sujeitos de libertar a produção científica e artística da universidade e ligá-la ao conjunto da população, como as que embasam sua proposta de Clube DCE.

Nessa perspectiva que o acesso à universidade deve ser ampliado, para que não seja espaço de formação de meros “quadros técnicos” que produzem a mais fina tecnologia para aumentar a exploração do trabalho nas fábricas de Campinas, ou softwares bancários de altíssimo nível. O acesso à universidade deve servir a que toda juventude tenha acesso e possa produzir livremente conhecimento, com valorização também de cursos tão precarizados nas artes e humanidades. E para isso vai ser necessário acabar com o filtro social e racista do vestibular, que mesmo com as cotas arrancadas com muita luta pelos estudantes, seguem negando a entrada de 80.000 jovens e negros na Unicamp. Para que haja vagas para todos, a estatização de grandes monopólios educacionais, como o cada vez maior tubarão da Kroton-Anhanguera.

É com base nessas ideias que os estudantes da Faísca, as mulheres do Pão e Rosas, os negros e negras do Quilombo Vermelho, constroem o movimento estudantil na Unicamp, debater com todos, e combater as ideias do velho mundo que nos persegue. Mas como diziam os jovens franceses de maio de 68, que ocuparam a universidade e abriram para os trabalhadores em greve, devemos correr desse velho mundo que está atrás de nós.




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