Internacional

ATO PTS: CHILE DESPERTOU

"Que a rebelião chilena não termine aí, que sirva para inspirar a toda a América Latina"

Reproduzimos parte do discurso de Beatriz Bravo, jovem trabalhadora dos Correios no Chile; disse da força que se despertou nos jovens e trabalhadores do Chile, uma rebelião tão profunda que pode contagiar a toda a América Latina e não somente terminar com o governo de Piñera e a impunidade à repressão, mas também terminar com as desigualdades do capitalismo.

sábado 16 de novembro| Edição do dia

Companheiros e companheiras, hoje, quando nós cruzamos a cordilheira, se cumpriu um mês da rebelião popular no Chile. Nós despertamos e a raiva e a indignação que explodiram com o aumento da passagem do metrô rapidamente expressaram um ódio profundo, acumulado durante 30 anos, desde o golpe militar de Pinochet, passando por todos os governos da antiga Concertación, estes que apenas aprofundaram a herança do ditador Pinochet. É por isso que nosso grito é "NÃO SÃO 30 PESOS, SÃO 30 ANOS".

Eu sou uma jovem trabalhadora de 30 anos e passei toda minha vida neste regime herdeiro da ditadura pinochetista. Um regime que nos demonstrou que não tem nada a nos oferecer além de precarização. Em um Chile que os empresários sempre divulgaram como um exemplo para a região, como um oásis, a jóia da América Latina. Mas isso sempre foi apenas para os empresários, para esse 1% mais rico que concentra 26,5% das riquezas.

Em nosso país, nos roubaram o futuro, privatizando todos nossos recursos naturais. O mar pertence a 7 famílias, a água e a luz são privatizados e vendidos às melhores licitações estrangeiras e nacionais. Uma juventude à qual sempre disseram que não tinha direito a nada, que crescemos escutando que para poder estudar teríamos que nos endividar por toda a vida, sem nenhuma perspectiva, devendo milhões de pesos aos bancos privatizados e impossibilitada de ter sua própria casa. Uma saúde, onde todos os dias vemos nossos familiares morrerem em salas de emergência nos hospitais porque não há suprimentos para nos tratar, enquanto os ricos são tratados em clínicas privadas de luxo e parentes de políticos milionários que legislam para os empreendedores têm prioridade nas listas de espera. Nossos idosos lideram as taxas de suicídio, porque depois de trabalhar 40, 50 ou mais anos, eles não têm o suficiente para comer nem para pagar por seus remédios, com uma das maiores jornadas de trabalho e salários mais baixos do mundo inteiro. Nós, a juventude trabalhadora, estamos acostumados a nem chegar no meio do mês e já ver todo nosso salário se esvair em dívidas, para carregar nas costas anos de frustração. Chile, o país onde os saqueadores de terno e gravata, que tiraram tudo do povo trabalhador, gozaram da impunidade.

E uma das forças armadas que ficaram impunes após a ditadura e hoje têm um papel muito importante no Chile, até mesmo com peso na economia graças à herança de Pinochet. E por isso também estou diante de vocês hoje para repudiar o golpe na Bolívia, orquestrado pelas Forças Armadas, empresários, igreja e pela direita que também enfrentamos no Chile, e dizemos com toda a nossa força: FORA O IMPERIALISMO DA AMÉRICA LATINA!

Aqueles que hoje têm 30 anos de idade participamos da rebelião dos pingüins em 2006. Há mais de 10 anos, como secundaristas, já sabíamos que queríamos acabar com essa educação que é um filtro de classes. Depois, saímos em 2011 lutando pela educação gratuita durante meses, e hoje, com orgulho, somos parte da juventude sem medo, aquela juventude que hoje volta a convergir com os milhares de secundaristas que voltaram a se revelar e nossas gerações mais velhas dizem que lhes devolvemos a esperança e o desejo de lutar.

Saímos para as ruas e colocamos medo neles, com nossa força nós fizemos eles tremerem, por isso nos declararam guerra, com toque de recolher como na ditadura, nos ofereceram migalhas com um diálogo social, enquanto assassinavam, torturavam, detiam, estupravam e mutilavam os olhos de nossos lutadores, mas eles não nos quebram, nos deram muito mais força porque nossa rebelião chegou para ficar e não temos medo de nada! Porque continuaremos até que a vida valha a pena e é por isso que estamos dispostos a tudo contra esse regime! NÃO NEGOCIAMOS NOSSOS MORTOS!

Mas nesses dias algo muito importante aconteceu. Nós lá no Chile temos um dos congressos mais caros do mundo, onde os parlamentares ganham 35 vezes mais do que os trabalhadores ganham, onde há décadas os vemos "cozinhar" as piores leis para o povo trabalhador e, assim, permitir que os ricos continuem desfrutando às nossas custas. E por esse motivo, para todo acordo feito por cima entre os políticos, tentando desviar nossa força das ruas para o parlamento, nós denunciamos usando o termo “cozinha”.

Nesta quinta-feira, aconteceu isso: a direita de pinochetista, a antiga Concertación e figuras dos principais partidos da Frente Ampla se sentaram para fazer um acordo que chamavam pela "paz", uma paz para manter Piñera no poder. Uma nova "cozinha" parlamentar que, ao invés de expressar nossa luta, expressa os pactos políticos que sustentaram durante esses 30 anos.

Querem nos armar uma armadilha. A bandeira pela Assembléia Constituinte, que expressa o desejo genuíno do povo chileno de decidir, foi transformada em um congresso ou uma convenção constitucional que pode soar lindo, mas que está plena de armadilhas. A primeira é que o assassino Piñera segue no poder! Nada de bom virá para a grande maioria sobre a base da impunidade dos repressores. Mas tem mais. Nessa "constituinte", as regras seriam aprovadas com dois terços dos votos. Ou seja, uma minoria da direita e dos empresários terão o direito de vetar a maioria. Eles querem contornar a soberania popular para que não haja mudanças profundas no Chile. Mas, além de tudo isso, nos chamam a votar em um plebiscito em abril, para eleger constituentes apenas em outubro do ano que vem com o mesmo mecanismo eleitoral de agora e que só aí comece a funcionar.

Queremos rir na nossa cara. Mas nós não acreditamos nas mentiras deles. Foi por isso que ontem novamente dezenas de milhares foram às ruas na Praça Italia e em todo o Chile contra essa armadilha. Quase todos os partidos do regime e todo o seu aparato de mídia estão querendo impor um desvio, mas estamos convencidos de que o processo revolucionário que foi aberto no Chile chegou para ficar. Não será linear, mas estamos convencidos de que eles não serão capazes de fechá-lo. Não queremos que nosso país continue sendo o exemplo para os capitalistas. Queremos que o Chile seja a tumba do neoliberalismo! Um exemplo da rebelião popular para inspirar toda a América Latina! E que sim, podemos! Podemos nos rebelar contra essa vida de merda que os capitalistas nos impuseram a viver!

Nós revolucionárias e revolucionários do PTR somos muito claros: dizemos que temos que fazer Piñera cair a partir da construção da greve geral e, sobre as ruínas deste regime, impor imediatamente uma Assembléia Constituinte, mas não qualquer uma, mas Livre e Soberana, na qual todos possam participar desde os 14 anos de idade, diferentemente desta “ farsa de constituinte”, onde apenas os maiores de 20 anos puderam participar. Sim, eles se atrevem a tentar excluir nossa juventude! Queremos eleições nas quais representantes sejam eleitos a cada 10.000 eleitores, revogáveis, que recebam o mesmo que uma professora e onde líderes sindicais e trabalhadores, estudantes e organizações sociais possam ser eleitos democraticamente.

Um Assembleia Constituinte Livre e Soberana que possa votar todas as medidas de emergência para resolver as demandas de grandes maiorias, sem respeitar as instituições que protegem os políticos dos palácios com seus salários milionários, e sem qualquer tipo de veto.

E não seremos ingênuos, sabemos que para conquistar nossas demandas devemos atacar o poder dos capitalistas. É por isso que dizemos que temos que nacionalizar o cobre e colocá-lo sob gestão dos trabalhadores, pôr fim à privatização, desapropriar os portos, colocar essas riquezas a serviço da grande maioria e não a um punhado de capitalistas. Isso junto a medidas democráticas elementares, como o direito ao aborto ou à autodeterminação do povo Mapuche, que foi saqueado e reprimido pelo Estado do Chile.

Diante disso, não podemos esquecer nossa história. Sabemos que serão eles, os capitalistas, que farão de tudo para impedir que tiremos seus privilégios. É por isso que, a partir do PTR, estamos impulsionando com todas as nossas forças assembleias e coordenadoras de trabalhadores, estudantes e setores populares, para lutar hoje com mais força para fazer cair Piñera e seu governo assassino e criminoso, mas também para nos defendermos contra a resistência que desencadeará sim ou sim os capitalistas quando nos colocarmos a impor essas medidas. Para nós, isso também semeia as bases de um governo de trabalhadores rompendo com o capitalismo, que possa levar esse programa até o fim, com base na auto-organização e na força das massas.

Os responsáveis por nossos sofrimentos e esses que são chamados de esquerda enquanto dão fôlego a Piñera e a esse regime, querem nos levar a repetir as mesmas fórmulas com as quais queremos acabar. E a todos estes dizemos não! Porque nada de bom virá para nós pela via de uma mudança cosmética de um regime apodrecido. Muito menos sobre a base da impunidade daqueles que mataram e torturaram nossos companheiros de luta e que ontem, hipocritamente, encheram a boca falando sobre paz, enquanto reprimiam sem parar. É por isso que dizemos JULGAMENTO E PUNIÇÃO AOS RESPONSÁVEIS POLÍTICOS E MATERIAIS DA REPRESSÃO!

Muito obrigado companheires!




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