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Quarterback do San Francisco 49ers repudia hino norteamericano "por oprimir os negros"

domingo 28 de agosto| Edição do dia

Quarterback titular do San Francisco 49ers, equipe de futebol americano da liga profissional, Colin Kaepernick sentou-se no banco de reservas no momento da execução do hino nacional norteamericano antes do duelo da última sexta-feira, no Levi’s Stadium, contra o Green Bay Packers, pela pré-temporada da NFL.

Depois da partida, o jogador de 28 anos explicou o motivo.

"Eu não vou me levantar e mostrar orgulho por uma bandeira de um país que oprime negros. Para mim, isso é maior do que o futebol americano e seria egoísta de minha parte ver isso de outra forma. Há corpos nas ruas e pessoas escapando de um homicídio", disse Kaepernick.

Os esportes americanos, que sempre encantaram milhões, de outro lado sempre estiveram estreitamente ligados ao "louvor ao Exército" americano. Isso levou a que muitos jogadores que faziam protestos similares recebessem duras reprimendas, suspensões e multas pelas próprias equipes. Não foi o que aconteceu agora. Os 49ers divulgaram um comunicado "compreendendo" o ponto de vista do quarterback do time.

Naturalmente não se trata de uma "compreensão" da franquia. Há décadas os Estados Unidos não estão atravessados por uma crise social tão profunda que toca todos os alicerces da estrutura de classes do país. Fruto da herança da Grande Recessão de 2008, a profunda desconfiança diante do sistema bipartidário tradicional por amplos setores deu lugar ao surgimento de fenômenos políticos de massas à direita e à esquerda, como Donald Trump e Bernie Sanders.

Esses fenômenos derivam também de grandes debates nacionais sobre a questão negra e o repúdio à violência racista do estado, e a questão imigratória.

Em meio aos escândalos por assassinatos da população negra pela polícia, e o surgimento do Black Lives Matter, jogadores da NBA, a liga profissional de basquete, também demonstraram solidariedade ao movimento negro. Após o assassinato brutal do negro Eric Garner em Nova York, Derek Rose, LeBron James, Kobe Bryant e diversos atletas da elite do basquete usaram camisetas "I can’t breathe" [Não consigo respirar], últimas palavras de Garner antes de ser sufocado e morto pela polícia.

Carmelo Anthony, astro da NBA, negro e filho de portoriquenhos, foi além e desafiou o sistema em julho deste ano, em protesto contra a repressão aos negros, "Temos de dirigir nossa ira na direção correta. O sistema está podre. Fim de papo. Foi sempre assim. Martin Luther King marchou. Malcolm X se rebelou. Muhammad Ali, literalmente, lutou pelos Estados Unidos. Nossa ira deve ir contra o sistema".

Foto: Carmelo Anthony e os Knicks marcham ao Baltimore City Hall para protestar contra a morte de Freddie Gray, 30 de abril de 2015

Indubitavelmente, os elementos do que Gramsci uma vez chamou de "crise orgânica" que afeta todos os aspectos da sociedade e faz surgir novas formas de pensar e sentir se mostram em carne viva no colosso do imperialismo mundial. É cada vez mais difícil esconder atrás de panos burocráticos a influência que as lutas da nova geração da juventude trabalhadora, negra, latina, imigrante, tem sobre o esporte. Essa geração está mais próxima da queda do Lehman Brothers que da queda do Muro de Berlim, e vem fazendo uma profunda experiência com o fracasso do capitalismo.




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