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Quarentena, isolamento social, lockdown: o léxico da pandemia e o incremento da repressão de Estado

Paula Almeida

Ilustração: Juan Chirioca

Quarentena, isolamento social, lockdown: o léxico da pandemia e o incremento da repressão de Estado

Paula Almeida

Já passou da hora de deixar de lado a crença franciscana nas agências de saúde do imperialismo. Ou começamos a nos fazer perguntas básicas sobre esta pandemia ou estaremos voluntária e gradativamente dando armas aos nossos inimigos de classe para que nos oprimam ainda mais.

Depois de “protocolos sanitários”, “quarentena” e “segunda onda”, entra para o vocabulário tupiniquim o anglicismo lockdown. Já na hashtag #ficaemcasa se podia pressentir o perigo que certos usos acríticos das palavras, ditas e reditas nas manchetes da mídia dominante, pela boca dos apresentadores dos telejornais, nas redes sociais e por determinado setor de políticos que promoveram e são sustentáculos do regime do golpe, representam para a apreensão crítica do que está em curso em nosso país e no mundo agora mesmo.

Vivemos, sem dúvida, um momento crítico da história humana. Longe de ser, como quer a Netflix, inédito para a humanidade, o momento presente coloca para a sua humanidade contemporânea, isso sim é verdade, desafios inéditos. Para a humanidade tomada historicamente não o é, porque momentos até mais críticos já foram experimentados, ainda que este venha imbuído de características bastante próprias. Os desafios, evidentemente, são muitos. E aqui chamo a atenção para um em particular: o poder de atração que as ideias conservadoras exercem sobre as consciências em momentos de crise social aguda.

Não estarei dizendo novidade alguma ao afirmar – e o faço em tom categórico – que estamos todos traumatizados. Se fazemos uma breve retrospectiva dos últimos 14 meses, mais ou menos, podemos ver pelos tortuosos caminhos que nos trouxeram até aqui as origens do nosso trauma.

Lá no início, na China, quando o vírus de Wuhan ainda circulava, assistimos a pessoas tendo mal súbito em espaços públicos; depois, ao chegar na Europa, assistimos em streaming à tragédia italiana, em que idosos acima dos 80 anos foram abandonados à própria sorte (à morte) e caminhões do exército desfilaram em macabra parada recolhendo os corpos. Depois, vimos no Equador os cadáveres serem botados porta afora, já que o cheiro da morte é insuportável. Isso sem contar episódios cada vez mais violentos de repressão em toda parte, enquanto a crise sanitária foi se tornando caso de polícia e do judiciário.

Muito mais que a ação efetiva do vírus (a verdadeira letalidade de suas distintas variações é uma das perguntas básicas que ainda não estamos nos fazendo), temos aqui o colapso da vida urbana, de como se organizam nossas cidades. Seja na Itália dos rabecões militares, seja nos corpos pelas ruas do Equador, a razão é a mesma: não havia estrutura planejada para o recolhimento daqueles que estavam vindo a óbito em domicílio. Morremos em hospitais sucateados pelo neoliberalismo. O higienismo do nosso tempo rejeita a morte doméstica, o defunto velado na mesa é coisa de um passado “bárbaro”. É o must da civilização morrer em local adequado, limpo, aos cuidados dos agentes de saúde e funerários.

Não é à toa também que prevendo o colapso de seus serviços sanitários e fúnebres, os governos brasileiros trataram de abrir covas e construir hospitais de campanha que, se não chegaram a funcionar como antessalas do cemitério – os velórios foram extintos –, muito provavelmente serviram para mandar sabe deus para onde alguns bons milhões de reais.

Enquanto passava a boiada, falava-se em imunização de rebanho. Os setores que se arvoram em intitular-se “os defensores da ciência” – os autoproclamados iluministas do nosso tempo que se opõem ao medievalismo reinante e englobam de certa esquerda até o mal chamado “centrão” – não fizeram mais que defender um isolamento social que ocorreu de maneira precária e um tanto ridícula. De shows nas varandas gourmet transmitidos ao vivo no Fantástico ao mau uso das máscaras, passando pelos dedos apontados e o foco no comportamento individual, foi ficando cada vez mais evidente a insustentabilidade da farsa (na perspectiva do povo pobre, é bom dizer).

A Vênus platinada do Jardim Botânico, sem dúvida, fez-se protagonista ao dar o tom. Quando foi de seu interesse que voltasse o futebol, deu uma trégua na oposição ao nefasto Bolsonaro e empreendeu o que chamo, por falta de termo melhor, de “fim cultural da pandemia”. E nós entramos na dança dos famosos.

Depois vieram as eleições. A Europa deu para falar em “segunda onda” e nós, tal papagaios (como não pensar em Walt Disney!), repetimos sem fazer a pergunta básica sobre a natureza da dita “primeira”. No dia seguinte ao término do pleito, vieram os engravatados de máscara, esbanjando crença demagógica na ciência, manipular seu sistema de cores e bandeiras segundo seus próprios interesses. Por fim, o drama das festividades de fim de ano, os nervos à flor da pele servindo de terra fértil ao sentimento cristão ou semicristão que foi tomando conta até dos mais ateus, a necessidade de lazer plenamente justificada, a urgência em fazer a roda da economia girar, o sonho encantado das vacinas, uma espera melancólica e angustiada, mais ou menos frustrada, catalisada pelo enclausuramento… e cá estamos nós falando de lockdown.

Diante do caos instaurado, em que o colapso na rede privada parece iminente – se tomarmos o recorte de classe veremos que há muito tempo a tragédia graça entre os desvalidos –, os governos, da forma mais demagógica e negando empiricamente a ciência, passam a aplicar o que chamaram muito tucanamente de “toque de restrição”. A coletiva de imprensa de João Doria e cia. desta semana, para muito além da invenção grotesca do nightdown (toque de recolher noturno), bem como da perversidade em torno do trabalho e do retorno escolar, foi eficaz em seu propósito.

Por trás do vocabulário de almofadinha, da voz de apresentador de reality show abafada pela máscara elegante – como manifestação puramente estética da oposição ao “negacionista” do Planalto –, por trás de todo o ridículo da situação e do horário imposto – a calada noite – o recado foi dado. A pandemia agora é caso de polícia. Instituiu-se a delação, enquanto os repórteres e os internautas nas redes pediam mais. Não basta a noite, queremos o dia – parecem dizer, sem nem suspeitar do que pedem. Falo de São Paulo, porque é o lugar de onde falo, mas em Natal, por exemplo, Álvaro Dias, do mesmo PSDB, está fechando a orla. Qual o sentido, do ponto de vista do vírus, de fechar espaços públicos ao ar livre é uma pergunta muito básica que também deveríamos estar nos fazendo.

Conhecemos muito bem as polícias militares, sabemos muito bem das suas origens, estamos exaustas de sofrer as consequências de suas ações, temos ciência de quem são suas vítimas, porque matam exatamente quem matam e, sobretudo, a serviço de quem estão. Ou será que já nos esquecemos?

Será que estamos nos esquecendo também do Brasil que habitamos? Ora, estamos sob um governo de extrema-direita com traços fascistizantes e manifestações diretamente fascistas à luz o dia, em uma conjuntura marcada por incessantes disputas entre distintos atores autoritários. Deveríamos mesmo, precisamos nos perguntar com urgência, porque uns se opõe para demonstrar seu apoio ao “mito”, ir a campo para defender uma medida que, além de ineficiente do ponto de vista do combate à pandemia, outorga mais poderes aos nossos inimigos de classe? Esta é uma pergunta que não respondo aqui. E não obstante ser muito básica, tampouco ela é retórica. Penso que antes de clamarmos por #lockdown deveríamos, ao menos, olhar ao nosso redor e examinar melhor nossas alternativas.

Um programa operário, anticapitalista e de combate real e efetivo à crise pandêmica – e à crise econômica e política – não só é possível como necessário e cada vez mais urgente.

Perceber o léxico da pandemia também é perceber a serviço de quem estamos colocando as nossas palavras de ordem.

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Paula Almeida

tradutora; doutora em Literatura e Cultura Russas pela Universidade de São Paulo (USP).
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