Gênero e sexualidade

DIA DAS MÃES

Quarentena: homenagem do dia das mães para quem?

Desabafo de uma mãe trabalhadora. Diante desse momento de pandemia, escola pede, para fazer uma homenagem, uma foto sua com seus filhos fazendo trabalho doméstico. O capitalismo precisa acabar e levar com ele essa ideologia patriarcal.

domingo 26 de abril| Edição do dia

Foto: EBC – Site das Nações Unidas

Dentro de casa há semanas, consumida pelos trabalhos domésticos infinitos e com o cuidado com meus filhos, sozinha, sem a certeza do que será o dia de amanhã, exausta com o ritual de higienização quando retorno para casa do mercado, assistindo o show de horrores das disputas políticas entre a burguesia enquanto pessoas morrem diariamente sem que se tenha uma medida racional para essa pandemia, com nojo de cada declaração do governo e desses burgueses - seja ela vinda do presidente, vice-presidente, governadores, prefeitos, militares, senadores, deputados, empresários, imperialistas, golpistas, reformistas, oportunistas de esquerda – sem paciência e com ódio desses burocratas sentados nas cadeiras dos nossos sindicatos...

Depois de ter passado a madrugada acordada vendo o meu filho vomitar, tendo dormido no chão ao lado dele para ver se ficaria bem durante a noite, acordando quebrada e tendo que levantar a cabeça logo cedo para dar início novamente a todo o trabalho doméstico diário, segurando o choro porque esse lixo de capitalismo nos introduziu a ideia de que as mulheres precisam ser guerreiras e dar conta de tudo na vida, tendo em troca a miséria que nos é dada todos os dias, recebo essa mensagem da escola dos meus filhos sobre a homenagem que pretendem fazer ao dia das mães: “Nesse momento de isolamento, realize uma atividade com seu filho e compartilhe uma foto conosco: prepare um bolo, limpe a casa, lave a roupa, brinque, cante... seja feliz ao lado do seu maior tesouro”.

Isso foi a última gota que precisava para o meu corpo e minha mente transbordarem e eu cair no mais angustiante choro na frente dos meus dois filhos pequenos. Fui tomada por um ódio que me deixou sem conseguir raciocinar por alguns minutos. Cada lágrima que caia vinha uma imagem diferente em alta velocidade na minha cabeça.

Mulheres morrendo e deixando seus filhos sozinhos, mulheres que estão sendo vítimas de tortura dentro de casa, mulheres que estão sendo assassinadas por estarem presas dentro de casa com seus inimigos, mulheres que estão sendo sugadas pelas empresas pelo home office e tendo seus salários diminuídos, mulheres que estão sendo obrigadas a trabalhar e irem para a rua com a possibilidade de serem contaminadas e levarem o vírus para dentro de suas casas, mulheres que estão desempregadas, mulheres que estão passando fome junto aos seus filhos, mulheres da saúde que estão na linha de frente para tentar salvar a vida, trabalhando sem EPIs, assistindo pessoas morrerem e que seguem todos os dias sem a certeza se amanhã não pode ser seu último dia de vida...

Como uma escola pode ter essa nojenta ideia de homenagem à alguma mãe? Essa ideologia patriarcal que ainda nos faz engolir que a verdadeira imagem de uma mãe é aquela quando está cumprindo o papel do trabalho doméstico e aparentando aos seus filhos de que está sempre feliz e no controle de tudo. Vivemos hoje uma pandemia mundial. Milhares de pessoas estão morrendo. Filas sendo formadas nos hospitais com pessoas com medo de morrer. Falta de leitos para pacientes serem monitorados. Uma crise que escancara o quanto o capitalismo não consegue mais responder nem a mísera dignidade que ainda tentava manter para a classe trabalhadora não se rebelar e nos manter desmoralizados.

As escolas particulares fingem fechar os olhos porque não podem deixar de lucrar ainda mais com essa crise. Enquanto os pais seguem pagando mensalidades, as escolas têm seus gastos diminuídos, ganhando de braços abertos o aumento de seus lucros mensais com essa pandemia. Empresários do ensino que fingem ter sensibilidade e nem se quer sabem o que isso significa. Os familiares terão que ser os responsáveis pelo ensino de suas filhas e filhos dentro de casa. Mas jamais podem se atrever a faltar com o pagamento do boleto se não passará a ganhar uma vaga nos sistemas que listam os devedores no mercado. Filhas e filhos terão que aprender com seus familiares que nem sequer possuem preparo para ensinar. Familiares, que não possuem o conhecimento dos melhores métodos de ensino, sentarão ao lado de suas filhas e filhos tendo a enorme chance de somente piorarem o aprendizado das crianças e adolescentes.

E nas escolas públicas a situação não poderia ser pior. Enquanto o governo deixa as famílias dos alunos passarem fome, morrerem nos hospitais e nos postos de saúde, prometendo dar míseros 600 reais por mês para uma pequena parcela da população enquanto a grande maioria seguirá sem receber nem um centavo, subnotificando mortes e casos do COVID-19 para não piorar ainda mais a sua face de assassino da classe trabalhadora... Este governos “inventam”, como se fossem extremamente sensatos e responsáveis, o sistema EAD e o vende como a grande saída, ignorando que apenas 40% dos estudantes têm acesso à internet e que nos lugares mais pobres menos de 15% conseguem acessar as ditas “aulas". Usam isso para começar a escalada para dar de mão beijada o ensino público aos grandes tubarões que ganham com a privatização da educação mundialmente.

Enquanto professores estão sendo obrigados a fingir que ainda é possível ensinar um ser humano diante desse caos, também são obrigados a assistirem seus alunos que estão passando fome, perdendo seus parentes, presos em seus lares sendo que muitos desses podem ser o pior lugar que a criança poderia estar agora, sabendo que crianças podem estar sendo abusadas dentro de casa, passando necessidades, vendo seus pais morrerem e sem saberem o que será da vida delas, perdendo o direito de estudar porque não podem alcançar esse grotesco EAD... o governo sorri na televisão e diz para que a população não se preocupe porque seus filhos não vão “perder” a aula. A hipocrisia é tanta que o aborto, que segue sendo a causa da morte de milhares de mulheres, principalmente mulheres negras, todos os anos devido a sua ilegalidade imposta, nos é negado como direito quando diz respeito aos nossos corpos, mas o governo se acha no direito de matar nossas crianças e adolescentes de fome.

Nosso país é o lugar que menos fez testes na sua população. Parte segue sendo obrigada a trabalhar, parte é obrigada a trabalhar em casa aceitando a redução salarial, parte é demitida, parte morre, a maior parte passa fome... Assim, os governos – federal, estadual e municipal - os militares, os golpistas, o congresso e os burgueses, nos obrigam a seguir nessa medieval quarentena: sem sabermos se já estamos ou não contaminados, fantasiando a possiblidade do isolamento das pessoas do grupo de risco dentro de suas casas – sendo que grande parte dos lares da classe trabalhadora não possuem cômodos suficientes para abrigar todos os moradores e muitos nem água têm. Eles usam com muita alegria essa “maravilhosa oportunidade” que a pandemia os propiciou para atacarem ainda mais a vida de toda nossa classe, precarizar ainda mais as nossas vidas, nos matar aos milhares em prol de seus lucros.

Enquanto isso, a esquerda ainda luta se apoiando nos métodos parlamentares. Fazem demagogia de que lutam ao nosso lado, mas nos mantem parados usando todo seu aparato burocrata encastelado dentro dos nossos sindicatos.

Mas nos aguardem. Porque seus lucros não valem mais que nossas vidas. E esse capitalismo a cada dia cava mais fundo a sua própria cova para nossa classe lhe atear fogo e enterrar. Se por uma hora chorei, levanto não porque sou obrigada a seguir em frente aceitando essa miséria de vida que o capitalismo me oferece, mas porque a cada dia que passa aumento mais o meu ódio contra esse sistema e minha confiança em que nossa classe lutará pela liberdade. Nosso caminho está traçado. Precisamos nos apoiar em nossas forças, sem se deixar enganar com discursos que tentam nos manter passivos. Capitalistas, sua hora chegará e os verdadeiros sujeitos desse mundo, a classe trabalhadora que tudo produz portanto a ela tudo pertence, irá gritar, lutar e assumir o lugar que lhe cabe no mundo.




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