Internacional

Quanto vale uma vida na pandemia?

Vinicius Oliveira

Aracajú (SE)

quarta-feira 24 de fevereiro| Edição do dia

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“Sua vida vale muito mais que ouro”, “o importante é ter saúde” e “dinheiro não é tudo”. Frases frequentes e corriqueiras, que podemos ouvir em conversas na rua, ao encontrar um parente ou em típicas postagens motivacionais em redes sociais. Essas sabedorias populares expressam uma reflexão válida sobre o “valor” da vida. Parecem inclusive, tão óbvias que sequer pensamos muito sobre elas quando alguém as dispara, e muito provavelmente o próprio autor da frase só a elaborou pois lhe veio à mente uma situação em que algum conhecido estivesse trabalhando demais e por isso adoeceu ou algo do tipo.

Por mais elementar que seja, que uma vida vale mais que um punhado de dinheiro, para o capitalismo não é bem assim. Dentro desse sistema absolutamente desumano o lucro tem prioridade sobre tudo, e as vidas de milhões de trabalhadores não são exceção. Em 11 de março de 2021 completará um ano desde que a OMS reconheceu a propagação do Covid-19 como uma pandemia, mas o primeiro caso e as primeiras mortes datam de alguns meses antes de março de 2020.

O vírus se espalhou por inúmeros países, mas o seu impacto foi mais grave em alguns: no início da pandemia, quando ainda não havia certeza da produção das vacinas, havia países com pouquíssimos respiradores e leitos de UTI, como o Sudão do Sul, que com 12 milhões de habitantes possuía apenas 4 respiradores.

No Brasil, com um governo de extrema-direita e sua principal figura sendo o negacionista presidente Bolsonaro junto às forças políticas que compõe o regime do golpe, passamos por um período marcado por disputas entre Bolsonaro e os governadores no que diz respeito ao fechamento do comércio, medida essencial para que se diminuísse o número de contágios.

Mas a irracionalidade capitalista entrou em cena e resolveu não sair mais. A pressão dos empresários pela reabertura irrestrita e insegura da economia se jogou sob a luz dos holofotes e Bolsonaro se pôs a dançar junto a ela, fazendo demagogia com setores pobres da população, forçando os trabalhadores a escolher entre se expor ao vírus ou morrer de fome. Depois, cinicamente fez uso do auxílio emergencial para se promover politicamente, sendo que essa é uma medida mínima para garantir que os trabalhadores pudessem ficar em casa. Esse auxílio, inclusive, de 600 reais, veio após os bancos receberem um pacote de auxílio de mais de 1 trilhão de reais garantido a eles pelo ministro da economia Paulo Guedes.

A pandemia deixou em evidência que a classe trabalhadora é essencial para que o mundo funcione. A necessidade de se realizar uma quarentena racional se opôs diretamente ao único interesse dos capitalistas: o lucro. Isso gerou distintos efeitos, mas os principais foram os seguintes:

  • Trabalhadores sem direito à quarentena, expostos ao vírus sem que as empresas garantissem o básico acesso a equipamentos de proteção, como máscaras e álcool gel.
  • Demissões em diversos setores, para que os empresários garantissem seus lucros devido à diminuição da produção. Exemplos aqui, aqui e aqui.

Ambos esses efeitos tiveram impacto direto na preservação (ou não preservação) da vida de milhões de trabalhadores. Os que continuaram a trabalhar, tanto dos setores considerados essenciais como dos que simplesmente não foram liberados frente à ânsia por dinheiro que seus patrões não conseguem saciar, ficaram expostos à infecção desde o início. Os que foram demitidos ficaram sem renda num momento de crise mundial (que já se arrastava antes da pandemia). Trabalhadores dos setores automotivos e aeroviários, por exemplo, poderiam manter seus empregos se as indústrias para as quais eles trabalham convertessem sua produção para garantir respiradores aos hospitais.

Se isso já não bastasse para comprovar cientificamente que o capitalismo não dá valor algum às vidas de milhões, vejam só a situação atual com a produção de vacinas. Países ricos estocam vacinas para seus cidadãos enquanto países periféricos não conseguem vacinar os seus. Israel se mostrou desde o início do plano de vacinação como um grande exemplo de eficiência e organização, tanto para vacinar israelenses quanto para excluir palestinos, fingindo que os habitantes da Faixa de Gaza não são problema deles, e dizendo que as autoridades palestinas que se virassem para imunizar seus habitantes.

A União Europeia possui quantidade de doses suficientes para vacinar sua população três vezes, e o Canadá adquiriu vacinas o suficiente para que cada canadense seja vacinado cinco vezes! Por outro lado, de acordo com a The People’s Vaccine, organização impulsionada pela ONG Oxfam, os 70 países mais pobres do mundo só poderão vacinar 1 em cada 10 pessoas durante todo o ano de 2021.

As patentes com certeza jogam um papel central nessa análise. Empresas farmacêuticas utilizam de sua propriedade intelectual sobre o modo de produção das vacinas para garantir lucros exorbitantes. Alguns dos contratos das grandes farmacêuticas com Estados impedem até mesmo que se saiba os preços sob os quais as vacinas foram comercializadas. Além disso, vejamos o caso da vacina Moderna, dos Estados Unidos: o projeto foi todo pago com dinheiro público, e o governo ainda adiantou quase 1,5 bilhão em compras para o desenvolvimento da vacina, porém a patente continua a ser privada, enchendo os bolsos da empresa, enquanto o país passa dos 500.000 mortos.

Contrário aos ditos populares que abrem essa coluna, vemos que os lucros são prioridade em todo o mundo. Imaginem só se toda a lógica do lucro não estivesse presente nessa pandemia, se os direitos sobre patente não existissem, se os trabalhadores pudessem realizar sua quarentena racional, quantas vidas não poderiam ter sido salvas simplesmente por nos guiarmos pela frase “a vida vale mais que dinheiro”. Esse cenário, entretanto, não precisa ser puramente imaginativo.

Revogação imediata das patentes, nacionalização das grandes empresas farmacêuticas e controle dessas empresas nas mãos dos trabalhadores da saúde, aumento do orçamento do setor de saúde. Tudo isso pode garantir que salvem milhares de vidas, mas os capitalistas não podem garantir isso. Apenas a classe trabalhadora organizada pode levar até o fim essas reivindicações, para que aí sim possamos dizer ao grandes empresários que a vida vale mais que o lucro deles.




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