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Quanto mais escura a noite, mais brilhante a estrela: a luta de Leon Trótski contra o stalinismo

Paul Le Blanc

Quanto mais escura a noite, mais brilhante a estrela: a luta de Leon Trótski contra o stalinismo

Paul Le Blanc

Publicamos aqui uma tradução de uma versão ampliada da palestra que o historiador Paul Le Blanc [1] deu em Havana, durante o ciclo de conferências sobre Trótski em Cuba.

O título desta palestra - “Quanto mais escura a noite, mais brilhante a estrela” - é o quarto e último volume da biografia de Leon Trótski escrita por Tony Cliff. Ela relata a vida de quem, em 1917, foi líder central da Revolução de trabalhadores e camponeses na Rússia, a mesma que converteu o império czarista na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Trótski, um dos fundadores do comunismo moderno e do estado soviético, também é o mais conhecido dos que lutaram contra a degeneração dessa revolução, provocada por uma viciosa ditadura burocrática dirigida por Josef Stálin. [2]

Busquei na internet para averiguar de onde vinha o título desse livro, e aprendi que é frequentemente atribuído ao grande romance Crime e castigo de Fiodor Dostoievski. Mas isso também é questionável pois, pessoalmente, não pude encontrá-lo na leitura do dito romance. Escrevi ao biógrafo de Tony Cliff, Ian Birchall, que comentou que consultara o filho de Cliff, Donny Gluckstein, que lhe respondeu: “Creio que ele pode ter pegado a frase do Clube de Livros de Esquerda de Friedrich Schlotterbeck, The Darker the Night, the Brighter the Stars”. Schlotterbeck era um jovem operário comunista na Alemanha quando se instaurou a ditadura de Adolf Hitler em 1933, e seu livro de 1947 é um relato inspirador, ainda que também seja um devastador registro da resistência dos trabalhadores de esquerda contra a tirania nazista, onde conhecemos o heroísmo e a horrível destruição de muitos de seus companheiros, amigos e familiares, que permaneceram comprometidos com os ideais socialistas e comunistas. [3] Sobre o tema, Trótski disse:

Ninguém, nem mesmo Hitler, atingiu o socialismo com golpes tão mortais quanto Stálin. Isso dificilmente surpreende, já que Hitler ataca as organizações da classe trabalhadora a partir de fora, enquanto Stálin o faz de dentro. Hitler ataca o marxismo. Stálin não apenas o ataca, mas o perverte. Nem um único princípio permaneceu sem ser contaminado, nem uma única ideia ficou sem mancha. Os proprios nomes do socialismo e do comunismo foram cruelmente comprometidos… O socialismo significa um sistema social puro e limpo que é adaptado ao autogoverno dos trabalhadores. O regime de Stálin se baseia em uma conspiração dos governantes contra os governados. O socialismo implica em um crescimento ininterrupto da igualdade universal. Stálin erigiu um sistema de privilégios repugnantes. O socialismo tem como objetivo o florescimento integral da personalidade individual. Quando e onde a personalidade do homem foi tão degradada como na URSS? O socialismo não teria nenhum valor separado das relações desinteressadas, honestas e humanas entre os seres humanos. O regime de Stálin permeia as relações sociais e pessoais com a mentira, o arrivismo e a traição. [4]

Trótski escreveu isso em 1937. E aqueles que acreditavam em tais coisas na Rússia soviética foram reprimidos sem piedade não menos do que os comunistas alemães. [5]

Os Oposicionistas de Esquerda, liderados por Trótski, persistiram depois de sua expulsão da União Soviética, foram detidos e enviados aos campos de prisioneiros na Sibéria, chamados de “isolamento”. “Quando já não puder servir à causa a qual dedicou sua vida, deve lhe dar sua morte”, essas foram as palavras de Adolf Joffe, um dos amigos íntimos e colaboradores de Trótski, que se suicidou em 1927 como forma de protesto contra o stalinismo. Sua jovem esposa, Maria, acabou no exílio interno em 1929. À medida em que a situação dos Oposicionistas condenados piorava gradualmente, ela resistiu e foi umas das poucas pessoas que sobreviveu para contar o que se sucedeu na horrível “noite longa” que descreveu em suas memórias, ao final da década de 1930. Ela se apoiou na crença fundamental de que “É possível sacrificar sua vida, mas a honra de uma pessoa, de um revolucionário, nunca”. [6]

As pressões para ceder eram intensas quando a capitulação podia significar a liberdade, enquanto que permanecer na Oposição significava o cárcere e o exílio interminável. Em 1934, depois de 7 anos, o companheiro próximo de Trótski, Christian Rakovsky, estava pronto para capitular; suas opiniões foram posteriormente relatadas pela enteada de Maria, Nadezdha Joffe, em quem confiou e a quem ganhou:

Seus pensamentos básicos eram que tínhamos que voltar ao partido de qualquer maneira possível. Sentia que indubitavelmente havia um segmento no partido que compartilhava de coração os nossos pontos de vista, mas que não havia decidido expressar seu acordo. E que poderíamos convertê-los em uma espécie de núcleo de sentido comum e sermos capazes de desenvolver algo. Deixados em isolamento, dizia, nos estrangulariam como frangos. [7]

Trótski rechaçou essa lógica, assim como muitos colaboradores exilados nas pequenas aldeias de “isolamento”. Um sobrevivente recordou os brindes que fizeram no dia de Ano Novo, em princípios dos anos 1930:

O primeiro brinde foi para nossas valentes e sofridas esposas e companheiras mulheres, que compartilhavam nosso destino. Bebemos nosso segundo brinde pela revolução proletária mundial. Nosso terceiro brinde foi pela liberdade de nosso povo e nossa própria libertação da prisão. [8]

Em contrapartida, seriam prontamente transferidos aos mortais campos de trabalho na Sibéria, aos quais foram enviados centenas de milhares de vítimas dos expurgos, de 1935 a 1939 - inclusive a maioria dos capituladores e muitos outros membros do Partido Comunista - enquanto se reforçava a repressão stalinista em todo o país. O secretário do Partido Comunista Palestino, Joseph Berger, lembrou Oposicionista de Esquerda mais tarde, a quem conheceu durante sua própria experiência enquanto estava detido em Moscou, em 1936:

Enquanto a grande maioria havia ‘capitulado’, seguia existindo um núcleo duro de intransigentes trotskistas, a maioria deles em cárceres e campos. Todos eles e suas famílias haviam sido confinados nos meses anteriores e haviam se concentrado em três grandes campos: Kolyma, Vorkuta e Norilsk… A maioria eram revolucionários experientes que haviam lutado na Guerra Civil, mas haviam se unido à Oposição no início dos anos vinte [...] Puristas, temiam que sua doutrina se contaminasse [...] Quando acusei os trotskistas de sectarismo, disseram que o importante era “manter o estandarte imaculado”. [9]

O relato de outro sobrevivente, impresso na publicação de mencheviques russos emigrado Mensageiro Socialista, recorda os “trotskistas ortodoxos” do campo de trabalho de Vorkuta que “estavam decididos a permanecer fiéis a sua plataforma e a seus líderes” e “apesar de estarem na prisão, continuaram se considerando comunistas; enquanto Stálin e seus partidários, ‘os homens do aparato’, eram caracterizados como renegados do comunismo”. Junto com seus partidários e simpatizantes - alguns dos quais nunca haviam sido membros do Partido Comunista - somaram milhares nessa área. À medida em que se difundiram as provas dos julgamentos de Stálin planejados para incriminar e executar os velhos líderes bolcheviques - e, ao se deteriorar as condições no acampamento - todo o grupo de trotskistas “ortodoxos” de uniu. A testemunha relembra o discurso de Sócrates Gevorkian:

Agora é evidente que o grupo de aventureiros stalinistas completou seu contrarrevolucionário golpe de Estado em nosso país. Todas as conquistas progressistas da nossa revolução estão em perigo mortal. Não são as sombras do crepúsculo, mas as da profunda noite negra que envolve nosso país. [...] Nenhum compromisso é possível com os traidores e os algozes stalinistas da revolução. Mas antes de nos destruir, Stálin tratou de nos humilhar tanto quanto pôde... Nos deixaram como único meio de luta nessa desigual batalha: [...] a greve de fome [...] a grande maioria dos presos, sem importar sua orientação política, seguiu esse exemplo. [10]

A greve de fome de 132 dias - que durou desde outubro de 1936 até março de 1937 - foi poderosamente efetiva e obrigou os oficiais do campo e seus superiores a se renderem diante das demandas dos grevistas.

Um oposicionista que havia sobrevivido disse à Maria Joffe que tinham um periódico verbal, A verdade por trás das grades, “tínhamos pequenos grupos, círculos, havia muita gente inteligente e conhecedora. Às vezes emitíamos um folheto satírico, O desfavorecido. Vilka, nosso representante do pavilhão, foi o editor e as ilustrações foram feitas por pessoas contra uma parede como fundo. Também havia uma grande quantidade de risos, a maioria eram jovens”. E então, de repente, tudo chegou ao seu fim. [11]

Em 1938, os trotskistas de Vorkuta foram levados em grupos (homens, mulheres, crianças maiores de 12 anos) até o deserto ártico adjacente. “Seus nomes se compararam a uma lista e então, grupo por grupo, foram chamados e metralhados”, escreveu Joseph Berger, “Alguns lutaram, gritaram consignas e brigaram com os guardas até o final”. Segundo a testemunha que escreveu no Mensageiro Socialista, quando um grupo maior de cerca de cem foi retirado do campo para ser fuzilado, “os condenados cantaram ‘A Internacional’ acompanhados pelas vozes de centenas de prisioneiros que permaneceram no campo”. [12]

Em suas memórias, Maria Joffe conta sobre como as “perseguições, torturas, assassinatos, fuzilamentos massivos de milhares de trotskistas em Vorkuta e Kolyma” envolveram muito mais: foi “a completa destruição da geração de Outubro e da Guerra Civil, ‘infectada pela heresia trotskista’ [...]”. Estima-se que mais de 2 milhões de pessoas foram condenadas desde 1934 até 1938, com mais de 700 mil execuções e que mais de um milhão foram enviados aos campos de trabalho cada vez mais brutais, onde pereceram. [13]

No restante desses comentários, quero me referir a aspectos da chamada “heresia trotskista”, que analisam como uma revolução de trabalhadores e camponeses, profundamente democrática e inspirada pelo idealismo socialista mais profundo, pôde se converter em uma das piores tiranias da história da humanidade. Isso é algo contra o qual Trótski lutou enquanto estava acontecendo - e há muito o que aprender disso - como é demonstrado brilhantemente pelo meu amigo Tom Twiss em seu importante livro. [14]

A conclusão, no entanto, é que a análise de Trótski surge claramente da análise fundamental que Karl Marx realizou oitenta anos antes. Também é inseparável dos fundamentos de sua própria teoria da revolução permanente. No tempo que me resta, apresentarei ambas as análises em linhas gerais: revolução permanente e degeneração burocrática da União Soviética.

A ascensão e o desenvolvimento industrial do capitalismo fizeram três coisas, de acordo com Marx e Trótski. Primeiro, houve um processo às vezes conhecido como “acumulação primitiva” que envolveu um deslocamento horrível e assassino, bem como a opressão inerente à exploração brutal em escala global das massas de camponeses e povos indígenas. Em segundo lugar, houve um processo massivo de proletarização, que transformou a maioria da força de trabalho e da população em uma classe trabalhadora moderna (aqueles cujo sustento depende da venda de suas habilidades de trabalho, sua força de trabalho, por salários). Terceiro, o espetacular desenvolvimento tecnológico gerado pelo capitalismo - a Revolução Industrial que se renova sempre - cria a base material para uma nova sociedade socialista. Essa maioria da classe trabalhadora é a força que tem o poder potencial e o próprio interesse objetivo para substituir a ditadura econômica do capitalismo pela democracia econômica do socialismo. A apreciação de tudo isso é o que os marxistas querem dizer quando falam da consciência de classe dos trabalhadores. Como disse Marx em 1845, criando este alto nível de produtividade e riqueza:

[...] é uma premissa prática absolutamente necessária [para o comunismo] porque sem ela, a escassez apenas se torna geral, e com a miséria [há uma retomada] a luta pelas necessidades gerando uma competição para quem recebe o quê, e então (de acordo com uma tradução) a mesma velha merda começa de novo. [15]

Referenciando-se em Marx, Trótski e um número crescente de seus camaradas russos viam a Revolução surgindo na Rússia atrasada dessa forma. A luta democrática contra a autocracia tzarista semifeudal só seria dirigida de forma consistente e até o final pela pequena, mas crescente, classe trabalhadora russa em aliança com a maioria camponesa. O sucesso de tal revolução colocaria as organizações da classe trabalhadora no poder político. Havia um impulso natural para seguir avançando em uma direção socialista (com melhorias sociais ampliadas para as massas populares), embora o socialismo que Marx havia descrito e pelo qual os trabalhadores russos lutaram não pudesse ser criado em somente um país atrasado. Mas uma Revolução Russa bem-sucedida ajudaria a impulsionar lutas revolucionárias em outros países, e enquanto essas revoluções fossem bem-sucedidas - especialmente em países industrialmente mais avançados como Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha - os trabalhadores e camponeses russos poderiam se unir a seus companheiros em um número crescente de países, para o desenvolvimento de uma economia socialista global que substituiria o capitalismo e criaria uma vida e um futuro melhores para a maioria trabalhadora do mundo. É por isso que Lênin, Trótski e seus camaradas trabalharam para atrair revolucionários e trabalhadores insurgentes de todo o mundo para a Internacional Comunista, para ajudar a fazer avançar este processo revolucionário mundial necessário para o socialismo internacional. Porque o socialismo não pode triunfar se não for global. [16]

Mas as revoluções previstas em outros países não tiveram sucesso, e sete anos de relativo isolamento - com invasões militares, boicotes ao comércio exterior, guerra civil, colapso econômico e outras dificuldades - tiveram três resultados a serem destacados. Primeiro, o governo, projetado pelos conselhos democráticos (sovietes) de trabalhadores e camponeses, foi adiado porque a avassaladora emergência social, política e econômica causou o que, originalmente, foi visto como uma ditadura temporária do Partido Comunista. Em segundo lugar, um enorme aparato burocrático maciço se cristalizou para dirigir o país e administrar a economia. Como Trótski explicaria mais tarde em A revolução traída, quando não há bens suficientes para distribuir, há racionamento e as pessoas:

se veem obrigadas a fazer fila. Quando as filas são muito longas, é necessário nomear um policial para manter a ordem. Esse é o ponto de partida do poder da burocracia soviética. Ela ’sabe’ quem deve receber algo e quem tem que esperar. [17]

Enquanto alguns dos comunistas permaneceram absolutamente devotados aos ideais e perspectivas originais que haviam sido a base da revolução de 1917, muitos se corromperam, se comprometeram ou ficaram desorientados. Stálin foi uma figura central no aparato burocrático cada vez mais autoritário e, junto com o brilhante mas desorientado Nikolai Bukharin, dissociou a ideia de socialismo não só da democracia, mas também do internacionalismo revolucionário que está no coração do marxismo, fomentando a noção de construir o socialismo em um país: a União Soviética. Trótski e seus colaboradores denunciaram essa noção como “uma enferrujada utopia reacionária de um socialismo autossuficiente, construído sobre uma baixa tecnologia”, incapaz de gerar um socialismo genuíno. Em vez disso, a mesma velha merda iria recomeçar. Mas foi Stálin quem venceu esta batalha, reprimindo ferozmente Trótski à Oposição de Esquerda. [18]

Stálin não parou por aí. Enquanto Bukharin e outros haviam imaginado construir seu “socialismo em um só país” de maneira lenta e mais ou menos humanitária, Stálin e as figuras poderosas ao seu redor decidiram iniciar uma chamada “revolução a partir de cima”: uma coletivização forçada da terra e um rápido processo de industrialização autoritária (tudo às custas da maioria camponesa e operária) para modernizar a Rússia em nome do “socialismo em um só país”. [19]

Bukharin e seus colaboradores foram politicamente esmagados, mas, diferente de Trótski e dos intransigentes Oposicionistas de Esquerda, eles capitularam rapidamente a Stálin, embora isso não os tenha salvado no final. A resistência camponesa foi tratada brutalmente e surgiu a fome. A resistência dos trabalhadores também foi reprimida de forma selvagem. Todas as discussões críticas no Partido Comunista foram proibidas. Todo pensamento e expressão independentes ou criativos no país - na educação, arte, literatura e cultura - foram forçados a ceder às normas autoritárias que celebravam as políticas e as personalidades de Stálin e daqueles ao seu redor, mas especialmente, cada vez mais, do próprio Stálin. [20]

Embora afirmando que as políticas de modernização que supervisionaram se somaram ao socialismo e que eles foram os herdeiros leais e legítimos de Lenin e da revolução de 1917, os funcionários do crescente e maciço aparato burocrático desfrutaram de um acúmulo de privilégios materiais com autoridade e um estilo de vida que os colocava acima da maioria das pessoas. Como Trótski colocou em A revolução traída:

É inútil ostentar e embelezar a realidade. Limusines para os ‘ativistas’ [isto é, os burocratas], perfumes finos para ‘nossas mulheres’ [isto é, esposas dos burocratas], margarina para os trabalhadores, lojas ‘de luxo’ para a nobreza, um olhar da multidão às iguarias pelas vitrines - tal socialismo não pode deixar de parecer para as massas uma nova reorientação do capitalismo, e eles não estão muito equivocados. Com base na “necessidade generalizada”, a luta pelos meios de subsistência ameaça ressuscitar “toda a velha merda” e está ressuscitando-a parcialmente a cada passo. [21]

Vários anos depois, o analista especialista David Dallin observou que os funcionários do governo (a burocracia, da elite superior aos mais humildes servidores), que representavam pelo menos 14% da força de trabalho, consumiam até 35% da riqueza; que a classe trabalhadora, que representava cerca de 20% da força de trabalho, não recebia mais do que 33% da riqueza, que os camponeses, 53% da força de trabalho, recebiam 29% da riqueza, e que os trabalhadores forçados, estimado em um mínimo de 8% da força de trabalho, recebiam 3% da riqueza. Pelas contas, o estilo de vida da elite rivalizava com o dos capitalistas em outras terras, embora essa desigualdade seja um pouco diferente da nossa (onde o 1% do topo tem pelo menos 40% da riqueza e os 80% de baixo não tem mais do que 20% da riqueza). [22]

Na década de 1930, muitos na URSS se lembravam dos ideais democráticos e igualitários da causa revolucionária e alguns permaneceram comprometidos com eles. Entre os comunistas dissidentes derrotados e reprimidos pelo regime - mesmo aqueles que capitularam - estavam revolucionários experientes que ajudaram a derrubar o tzar. Eles não eram confiáveis, especialmente porque nem tudo estava bem na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Apesar da interminável propaganda pseudo-revolucionária e das melhorias positivas nas oportunidades econômicas e sociais para alguns trabalhadores, havia um amplo sofrimento e insatisfação entre a população. A dinâmica do “socialismo em um só país”, acelerada pela “revolução a partir de cima”, explodiria no autoritarismo assassino que vimos antes.

O programa dos heroicos Oposicionistas de Esquerda - que deram suas vidas - foi uma ameaça definitiva ao sistema stalinista e foi eloquentemente resumido em A revolução traída, de Trótski:

Não se trata de substituir uma camarilha dominante por outra, mas de mudar os métodos de administrar a economia e guiar a cultura do país. A autocracia burocrática deve dar lugar à democracia soviética. A restauração do direito à crítica e a verdadeira liberdade de escolha são condições necessárias para o mais amplo desenvolvimento do país. Isso supõe um renascimento da liberdade dos partidos soviéticos, começando com o partido dos bolcheviques, e uma ressurreição dos sindicatos. A incorporação da democracia na indústria significa uma revisão radical dos planos no interesse dos trabalhadores. A discussão livre dos problemas econômicos reduzirá os altos custos dos erros burocráticos e dos ziguezagues. Os brinquedos caros (palácios dos sovietes, novos teatros, metrôs ostentosos) serão substituídos em favor das casas dos trabalhadores. As “normas burguesas de distribuição” ficarão confinadas aos limites da estrita necessidade e, em consonância com o crescimento da riqueza social, darão lugar à igualdade socialista. As patentes serão imediatamente abolidas. O ouropel das decorações será derretido no cadinho. Os jovens terão a oportunidade de respirar livremente, criticar, cometer erros e crescer. A ciência e a arte serão libertadas de suas cadeias. E, finalmente, a política externa retornará às tradições do internacionalismo revolucionário. [23]

Isso segue sendo relevante para nossa situação atual. O que nos traz de volta ao título desta palestra. Quando olhamos para a noite, a escuridão do universo é vividamente destacada pelas estrelas, cujo brilho viajou anos-luz para que possamos vê-lo. Embora algumas dessas estrelas não existam mais, nós as vemos brilhar de onde estamos. E talvez sua iluminação maravilhosa possa nos ajudar a encontrar nosso caminho para o terreno escuro de nossos tempos.

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FOOTNOTES

[1Paul Le Blanc é um historiador e militante estadunidense. É especialista na história do marxismo e do trotskismo. Entre suas publicações recentes se encontra Leon Trótski de 2015 e seu livro sobre Rosa Luxemburgo: The Living Flame: The Revolutionary Passion of Rosa Luxemburg [A chama viva: a paixão revolucionária de Rosa Luxemburgo, tradução livre], de 2019. Publicou artigos no Jacobin, Monthly Review e outras revistas da esquerda norteamericana.

[2Tony Cliff, Trotsky: The Darker de Night, the Brighter the Star (1927-1940), Volume 4 [Trótski: quanto mais escura a noite, mais brilhante a estrela], Londres: Bookmarks, 1993. Um registro mais sucinto pode ser consultado em Paul Le Blanc, León Trotsky, Londres: Reaktion Books, 2015), da qual se extraem alguns elementos dessa apresentação. Também pode-se ver um relato intimamente informado em Victor Serge e Natalia Sedova, The Life and Death of Leon Trotsky [Vida e morte de Leon Trótski], Chicago: Haymarket Books, 2016, e no clássico maciço de Isaac Deutscher, The Prophet: The Life of Leon Trotsky [O profeta: a vida de Leon Trótski], Londres: Verso, 2015.

[3Friedrich Schlotterbeck, The Darker the Night, the Brighter the Stars, Londres: Victor Gollancz Ltd., 1947. Para mais sobre isso, ver Allan Merson, Communist Resistance in Nazi Germany [Resistência comunista na Alemanha Nazista], Londres: Lawrence and Wishart, 1986, e Donny Gluckstein, The Nazis, Capitalism and the Working Class [Os nazistas, capitalismo e a classe operária], Chicago: Haymarket Books, 2012). Recentemente vi as palavras serem atribuídas ao poeta russo Apollon Maykov (1821-1897).

[4Leon Trótski, “The Beginning of the End”, Writings of Leon Trotsky, 1936-37 [“O início do fim”, Escritos de Leon Trótski, 1936-37] ed. por Naomi Allen e George Breitman, Nova York: Pathfinder Press, 1978), pp. 328-329. Tradução nossa a partir da tradução ao espanhol.

[5Roy Medvedev, Let History Judge, The Origins and Consequences of Stalinism [Que a História julgue: as origens e consequências do stalinismo], Nova York, 1989; Mikhail Baitalsky, Notebooks for the Grandchildren: Recollections of a Trotskyist Who Survived the Stalin Terror [Cadernos para os netos: recordações de um trotskista que sobreviveu ao terror de Stalin], Atlantic Highlands, NJ: Humanities Press, 1995.

[6Maria Joffe, One Long Night, A Tale of Truth [Uma noite longa, uma história de verdade], Londres: New Park, 1978, p. 162 e 190.

[7Nadezhda Joffe, Back in Time: My Life, My Fate, My Epoch [De volta no tiempo: minha vida, meu destino e minha época], Oak Park, MI: Mehring Books, 1995, p. 84. Tradução nossa a partir da tradução ao espanhol.

[8George Saunders, ed., Samizdat: Voices of the Soviet Opposition [Samizdat: Vozes da oposição soviética], Nova York, 1974, p. 141. Tradução nossa a partir da tradução ao espanhol.

[9Joseph Berger, Shipwreck of a Generation [Naufrágio de uma geração], London: Haverill, 1971, p. 94-95. Tradução nossa a partir da tradução ao espanhol.

[10Saunders, p. 206, 210-211.

[11Maria Joffe, p. 40-41.

[12Berger, p. 96-98; Saunders, p. 215, 216.

[13Maria Joffe, p. 190. Moshe Lewin, The Soviet Century [O século soviético], London: Verso, 2005, p. 106-107; Vadim M. Rogovin, Stalin’s Terror of 1937-1938 [O terror de Stálin de 1937-1938], Oak Park, MI: Mehring Books, 2009, p. 446-447. Also Oleg V. Khlevniuk, The History of the Gulag: From Collectivization to the Great Terror [A história dol Gulag: da coletivização ao grande terror], New Haven: Yale University Press, 2004.

[14Thomas M. Twiss, Trotsky and the Problem of Soviet Bureaucracy [Trótski e os problemas da burocracia soviética], Chicago: Haymarket Books, 2015. O marxismo de Trótski é aptamente comparado a outros, em Marcel van der Linden, Western Marxism and the Soviet Union [O marxismo ocidental e a União Soviética], Chicago: Haymarket Books, 2009. También ver Kunal Chattopadhyay and Paul Le Blanc, eds., Leon Trotsky: Writings in Exile [Leon Trótski: Escritos do exílio], London: Pluto Press, 2012.

[15Leon Trotsky, The Revolution Betrayed [A revolução traída], New York: Pathfinder Press, 1972, p. 56; Karl Marx, “The German Ideology,” in Writings of the Young Marx on Philosophy and Society, [“A ideologia alemã” em Escritos do jovem Marx sobre a filosofia e a sociedade] ed. por Loyd Easton e Kurt H. Guddat, Garden City, NY, 1967, p. 427. Pode-se encontrar uma síntese mais substancial da orientação marxista revolucionária em From Marx to Gramsci [De Marx a Gramsci], Chicago: Haymarket Books, 2016, p. 3-145.

[16Leon Trotsky, The Permanent Revolution and Tasks and Prospects [A revolução permanente e balanços e perspectivas], London: Resistance Books, 2007; Michael Löwy, The Politics of Combined and Uneven Development: Trotsky’s Theory of Permanent Revolution. [As políticas do desenvolvimento desigual e combinado: a Teoria da Revolução Permanente de Trótski], Chicago: Haymarket Books 2014.

[17Trótski, The Revolution Betrayed, p. 112. Tradução nossa a partir do espanhol.

[18E.H. Carr, The Russian Revolution From Lenin to Stalin, 1917-1929. [A revolução russa de Lênin a Stálin, 1917-1929], New York, 2004; Victor Serge, From Lenin to Stalin [De Lênin a Stálin], New York, 1973; Michal Reiman, The Birth of Stalinism [O nascimento do stalinismo], Bloomington, IN: Indiana University Press, 1987. A referência à “enferrujada utopia reacionária” é de Leon Trótski, The Third International After Lenin [A III Internacional depois de Lenin], New York: Pathfinder Press, 1970, p. 45-46.

[19Robert C. Tucker, Stalin in Power: The Revolution from Above, 1928-1941 [Stálin no poder: a revolución a partir de cima], New York: W.W. Norton, 1992.

[20Ver Stephen F. Cohen, Bukharin and the Bolshevik Revolution [Bukharin e a revolução bolchevique], New York: Vintage Books, 1975; Moshe Lewin, Russian Peasants and Soviet Power: A Study of Collectivization [Os camponeses russos e o poder soviético: um estudo da coletivização], New York: W.W. Norton, 1975.

[21Trotsky, The Revolution Betrayed, p. 120. Tradução nossa a partir do espanhol

[22David Dallin, The Real Soviet Russia [A verdadeira Rússia soviética], segunda edição, New Haven, CT: Yale University Press, 1947, p. 121. Naturalmente, aqueles na parte superior de la pirâmide burocrática viviam uma variante de la “boa vida” muito mais próxima a do nosso 1% superior. – ver Ernest Mandel, Power and Money: A Marxist Theory of Bureaucracy [Poder e dinheiro: uma teoria marxista sobre a burocracia], Londres: Verso, 1992, p. 72-74. Ofereço uma análise comparativa das elites governantes e a desigualdade sob el capitalismo e o stalinismo em Paul Le Blanc, Marx, Lenin and the Revolutionary Experience: Studies of Communism and Radicalism in the Age of Globalization [Marx, Lenin e a experiência revolucionária: estudos sobre o comunismo e o radicalismo na era da globalização], New York: Routledge, 2006, p. 15-48.

[23Trotsky, The Revolution Betrayed [A revolução traída], pp. 281-290. Tradução nossa a partir do espanhol
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