Política

EDITORIAL

Qual unidade é necessária pra lutar contra a prisão de Lula e todos os ataques aos trabalhadores?

Quem quer seriamente levar adiante uma enorme unidade dos trabalhadores pra derrotar o autoritarismo judiciário e todos os ataques precisa levar em consideração que "em nome da unidade" já se cometeram muitos erros no passado. Fechar os olhos pra isso é perpetuar estes erros.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 9 de abril| Edição do dia

A prisão arbitrária de Lula representa a continuidade do golpe institucional. Este avanço do autoritarismo judiciário está acompanhado da tentativa de descarregar a crise sobre as costas dos trabalhadores. Esta tentativa vem se fazendo concreta e se traduz n reforma trabalhista, que transforma a vida dos trabalhadores em um inferno, assim como a PEC do corte de gastos, a lei da terceirização e as privatizações são parte do plano do golpe, ficando pendente em especial a reforma da previdência.

Esta situação, exige, portanto a mais ampla unidade das fileiras operárias. Isso começa pela necessidade de que suas direções, em primeiro lugar as grandes centrais sindicais como a CUT e a CTB, dirigidas pelo PT e pelo PCdoB, organizem esta luta. A mais ampla unidade não significa o abandono das críticas ao PT nem mesmo misturar as nossas bandeiras com a bandeira de conciliação de classes petista.

Justamente porque quem quer seriamente levar adiante uma enorme unidade dos trabalhadores pra derrotar o autoritarismo judiciário e todos os ataques precisa levar em consideração que "em nome da unidade" já se cometeram muitos erros no passado. Fechar os olhos pra isso é perpetuar estes erros.

A primeira questão, portanto, é identificar o problema destas direções. Nem a CUT nem a CTB estão organizando uma luta de massas frente a toda esta situação. Desde a condenação em 1ª instância de Lula, em julho de 2017, não houve nenhuma manifestação contundente contra a prisão de Lula e nem mesmo a vigília em São Bernardo pode ser considerada como uma resistência séria, não à toa o próprio Lula se entrega após algumas horas bem calculadas de exposição na mídia.

Não estamos falando de reunir 8 ou 10 mil manifestantes no dia da prisão de Lula. Estamos falando da Central Única dos Trabalhadores, que em seu site comemora os 4 mil sindicatos filiados e sua base de 25 milhões de trabalhadores. É disso que estamos falando.

Tampouco estamos falando que seria possível de um dia pro outro organizar mais do que 10 mil pessoas. Estamos falando que a primeira condenação de Lula se deu há quase 1 ano atrás! Plano de luta é organizar na base, não enviar uma mensagem de WhatsApp dos dirigentes sindicais da CUT quando o Moro está vindo com a Polícia Federal pra pender Lula. Estamos falando de 1 ano de reuniões de base, assembleias democráticas, coordenações estaduais e nacionais com delegados eleitos pra preparar uma resistência séria. Começamos a responder esta situação neste outro artigo.

Por exemplo, segundo a CUT, a greve geral de 28 de abril de 2017 contou com a adesão de 40 milhões de trabalhadores, unificando a base de milhares de sindicatos de várias centrais sindicais. A base da classe trabalhadora pressionou suas direções pra não aceitar trabalhar até morrer e se levantou em uma das maiores greves nacionais das últimas décadas. A força dos trabalhadores impôs uma derrota ao governo Temer, mas logo em seguida, quando era necessário dar um golpe de morte no governo golpista, as centrais recuaram, desorganizaram, traíram toda a energia dos trabalhadores naquele 30 de junho que poderia ter enterrado a reforma trabalhista.

Se não houvesse traição e trégua, seria também o momento das centrais alertarem os trabalhadores que era preciso lutar contra a continuidade do golpe institucional que estava se gestando na tentativa de prisão de Lula. Demonstrar para os trabalhadores que não precisavam concordar com a política de Lula, mas que se tratava de um ataque, assim como o golpe, que se voltaria contra eles.

Longe disso, as centrais sindicais sequer falam da prisão de Lula nos locais de trabalho, deixam que as demandas sindicais ocupe a cabeça dos trabalhadores relegando a eles apenas o papel de votarem em Lula "para enfrentar a direita". Querem canalizar todo o descontentamento social na via eleitoral, como se isso não fosse repetir em tragédia os 13 anos de governo do PT onde juntos as concessões precárias à população os banqueiros lucraram mais do que nunca, segundo o próprio Lula.

Nossa visão é oposta a essa. Não consideramos que a "unidade de ação" pra lutar contra a prisão de Lula e todos os ataques se materializa em um carro de som com pré-candidatos. Os pré-candidatos e parlamentares deveriam estar a serviço de potencializar a luta de massas, organizada a partir dos locais de trabalho e estudo, junto com as centrais sindicais e todos os sindicatos e oposições de esquerda. Do contrário, atos e vigílias com poucos milhares não impedirão o avanço do autoritarismo judiciário e não podem sequer se contrapor a estratégia de conciliação petista, que ficou evidente no discurso de Lula antes de se entregar a Sérgio Moro. É preciso organizar massivamente a luta em cada local de trabalho.

Recentemente, os professores e servidores municipais de SP fizeram uma greve massiva que enfrentou sol e chuva, a repressão e a prepotência de Doria, e venceram, apesar da sua direção sindical (que era aliada de Doria até a greve). É um grande exemplo de que a classe trabalhadora não está derrotada, e que é possível vencer os golpistas e seus ataques econômicos e políticos

Com nossas pequenas forças é o que temos batalhado nas últimas semanas no Sindicato dos Trabalhadores da USP onde o Movimento Nossa Classe encabeçou uma batalha e transformou o Sintusp no único sindicato da CSP-Conlutas a ter uma posição de independência de classe contra a prisão de Lula, sem fazer nenhum coro com os golpistas como quer o PSTU. No Metrô de São Paulo o Movimento Nossa Classe Metroviários está passando em todas as estações reunindo assinaturas em um manifesto demonstrando que a prisão de Lula é parte do golpe institucional, e do aumento do autoritarismo judiciário que mantém 42 metroviários demitidos e ataca o direito de greve do funcionalismo público, pra dar esta batalha na assembleia dos trabalhadores do Metrô de São Paulo.

O PT ao ter esta estratégia na luta de classes, que concilia e relega aos trabalhadores um papel passivo, é expressão da desmoralização que o PT construiu em base a seu programa de administração do capitalista e subordinação ao capital financeiro e ao imperialismo nestes 13 anos de governo.

40% do orçamento público federal esteve destinado ao pagamento da dívida pública, tornando impossível qualquer mudança substancial na situação de vida da população que fica privada de serviços básicos como saúde, moradia, transporte e educação. Quando o ciclo econômico favorável incentivado pela economia internacional via commodities se encerrou, as concessões precárias do governo - como o trabalho precário ou o crédito barato - já não podiam ocorrer mantendo intactos os lucros capitalistas. Então o PT, já assumindo os métodos de corrupção também começou a implementar um plano de ajustes, insuficiente e mais lento do que o necessário para os grandes capitalistas e empresários que bravejavam por mais lucros em base ao nosso suor e sangue.

Que agora o PSOL esteja assinando um programa em comum com este mesmo PT, mas também com PDT de Kátia Abreu - a motoserra de ouro rainha dos latifundiários - e PSB, ambos partidos abertamente burgueses, se trata de uma importante capitulação. Não estamos falando de assinar um documento democrático contra a prisão de Lula, com o qual o próprio MRT estaria de acordo e assinaria. Estamos falando de um programa neodesenvolvimentista pra manter o capitalismo como está. Já começam, inclusive, as especulações sobre uma candidatura única entre estes partidos.

Este programa que nunca se enfrentou com os empresários, os latifundiários, os ricos e poderosos, pra poder conciliar concessões a população pobre com os lucros capitalistas, precisou abrir espaço pra direita, a mesma direita que leva adiante este asqueroso golpe institucional.

Sendo assim, a única conclusão que podemos tirar é: é urgente a mais ampla unidade de ação contra a prisão de Lula, contra a continuidade do golpe, pelo direito do povo decidir em quem votar e contra todas as reformas e ataques ao povo trabalhador. Somente com a luta de classes é possível defender nossos direitos como salário, emprego, condições de trabalho.

Mas ao mesmo tempo que levamos adiante esta luta lado a lado a todos os trabalhadores, inclusive os que depositam ilusões em Lula e no PT, vamos sempre dizer que esta unidade não é cega, é uma unidade onde nós revolucionários queremos ampliar o alcance de nossas ideias pra demonstrar que a única forma de enfrentar a direita e o golpe institucional é com um programa anticapitalista que comece por exemplo por não pagar a dívida pública e destinar todo este dinheiro aos serviços básicos da população.

Continuamos exigindo das grandes centrais sindicais um plano de luta imediato. Esta é a batalha que nós do MRT viemos dando junto com o Movimento Nossa Classe, a Juventude Faísca, o grupo de mulheres Pão e Rosas e o Quilombo Vermelho, através também do Esquerda Diário, e chamamos você a fazer parte desta luta na perspectiva anticapitalista e revolucionária para que quem de fato governem sejam trabalhadores em base a seus próprios organismos democráticos.




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