Juventude

DEBATE

Qual saída deve tomar a juventude contra Temer e a crise política?

Em meio à turbulenta crise política nacional, os poderosos políticos e magistrados, representantes dos capitalistas, mostram que deixam de lado suas disputas quando se trata de aprofundar os ataques aos direitos de nós jovens e de toda a população trabalhadora.

Tatiane Lima

UNICAMP

sexta-feira 16 de dezembro de 2016| Edição do dia

Assim, a direita golpista que possui uma lista infindável de corrupção se unificou e contou com a conciliação do próprio PT, que negociou com o STF a manutenção de Renan na presidência do Senado para garantir a aprovação da PEC do fim do mundo nesse dia 13. Em cerca de vinte minutos aprovaram a restrição nos próximos vinte anos dos investimentos nos serviços essenciais, como educação, assistência social e saúde. Também estão fazendo malabarismos sobre a Medida Provisória que decretou a Reforma do Ensino Médio, com a ajuda da grande mídia golpista, para nos enganar e aprovar a diluição dos conteúdos de Filosofia e Sociologia no ensino. E, ainda, na madrugada deste dia 14, uma nova PEC foi encaminhada pela Comissão de Constituição e Justiça com objetivo de atacar à já precária Previdência Social.

Mas muito jovens não assistiram passivos a essa explosiva situação. Não nos calamos! Ocupamos mais de mil escolas e universidades em todo o país. Saímos às ruas e enfrentamos a polícia racista e assassina dos governos, que mostraram mais uma vez sua cara autoritária quando prenderam mais de 70 jovens em Brasília, buscando enquadrá-los na ditadora Lei de Segurança Nacional, pelo simples fato de se manifestarem em defesa dos nossos direitos. Cada jovem que saiu às ruas de várias cidades nesse dia 13, bem como a ação dos manifestantes que destruiu a fachada da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ilustra nossa disposição de luta, resistência e aspiração de arrebentar o governo Temer.

Mas pra enfrentar ataques de tamanhas proporções sabemos que é preciso um movimento massivo e coordenado, um novo junho em aliança com os trabalhadores, e que confiemos na força da nossa organização e mobilização como única saída. As grandes entidades estudantis nacionais, como a UNE que é ligada à milhares de grêmios, diretórios e centros acadêmicos, poderiam mobilizar desde cada um desses locais centenas de milhares para tomar as ruas, contagiando ainda mais jovens com a necessidade de lutar, os jovens que assistem angustiados toda essa situação e podem ampliar a mobilização para que de fato possamos dobrar os golpistas e empresários. O problema é que a frente dessas entidades estão organizações como a UJS (PCdoB), que seguem a lógica petista de resolver tudo "por cima", através do jogo parlamentar e eleitoral, e "por baixo" organizam ações que não se preocupam em como as centenas de milhares de jovens tomarão às ruas para barrar os ataques de fato, de maneira independente do jogo político atual. E não fazem isso porque são porta vozes do discurso e campanhas petistas, completamente subordinadas às políticas do PT.

Em discussão com outras organizações nacionais da juventude, como o Levante Popular, o Juntos e o MAIS, queremos debater por que acreditamos que para alcançarmos esse objetivo uma mera troca de figurinhas carimbadas no trono de ferro não servirá. As “Diretas Já” ou “Eleições Gerais” não dão conta, ou melhor, trabalham exatamente para que nós jovens e os trabalhadores não sejamos sujeitos de uma resposta independente para a crise política. E como consequência dessa lógica, estando na UNE como oposição à UJS, seja no "Campo Popular" ou na "Oposição de Esquerda", não podem dar qualquer batalha para que essa entidade histórica retome seu papel de organizar a resistência.

O Levante Popular da Juventude compõe os atos e manifestações como um setor crítico ao golpe institucional, à ação da Lava-Jato e dos árbitros do Judiciário e reivindica que possui uma posição crítica ao PT. Com isso atrai um setor importante da juventude que luta e busca se organizar contra a direita e os golpistas, mas que não confiam no PT, que por anos antes do golpe já vinha aplicando ataques importantes enquanto favorecia os banqueiros. No entanto, o Levante vem defendendo as “Diretas Já”, assim como o PT, e defendendo a figura de Lula como uma alternativa diante das eleições para presidente, seja por essa via imediata ou mesmo para 2018. Toda a sua postura crítica se esfacela quando vemos que, assim como à época do golpe defendia o “Volta Dilma”, agora o Levante defende que toda a ação política da juventude seja canalizada para o voto e que retorne o esquema de corrupção e jogo político petista contra o PMDB e PSDB.

O Juntos, de Luciana Genro, e outros dois coletivos do PSOL, o Vamos à Luta e o Domínio Público, junto à juventude do PSTU e, pasmem, a Juventude Pátria Livre (do golpista PPL), assinaram um texto de convocação ao dia 13 com uma grande denúncia à casta política corrupta, exigindo um “fora todos”, sem denunciar em uma frase sequer o papel do Judiciário como um dos principais articuladores do golpe e dos ataques, como a Reforma Trabalhista. Em notano seu site o Juntos vai além, defendem a Lava Jato e as “eleições gerais como forma de começar uma verdadeira revolução política que vire o sistema do avesso”. Se, por um lado, denunciam o que todos os brasileiros olham indignados, a imensa corrupção e o deleite dos políticos enquanto sofremos com serviços públicos precários, com o desemprego e as dívidas que se acumulam, por outro lado se aproximam da direita mais reacionária e se afastam com um abismo de cada jovem e trabalhador quando louvam a Lava Jato e o Judiciário. O Judiciário, assim como os políticos do Congresso e o alto escalão dos servidores públicos, é privilegiado, seus magistrados possuem salários e “auxílios” escandalosos, arbitram em favor dos capitalistas e não são nem eleitos pelo voto popular. Um exemplo é o próprio juiz Moro, que tem um salário de mais de 70 mil reais mensais. Perseguem a juventude negra cotidianamente e, não “por falta de provas”, mas por posição política, absolveram os culpados pela chacina do Carandiru. Essa confiança no poder judiciário escancara um profundo ceticismo na luta da juventude, e o nosso potencial de contagiar os trabalhadores para irmos além desse jogo de cartas marcada que nos encurralam. Por isso defendem eleições gerais, porque veem como única alternativa o voto e a “escolha” de novos jogadores, num mesmo tabuleiro de lama e corrupção que é a política tradicional. E nisso estão mais próximos do PT do que admitem.

Mesmo a juventude do MAIS, que se colocou como crítica ao golpe, ao PT e à Lava Jato, afirma que a defesa do Judiciário é uma confusão por parte de setores da esquerda, insistindo em fazer frentes com o Juntos, sem considerar as consequências de sua política. Também se unificam em defender que a derrubada de Temer deve ser dar para serem realizadas às eleições gerais no país.

Nós da juventude Faísca – Anticapitalista e Revolucionária construímos os atos contra a PEC em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Brasília, com uma forte denúncia à direita golpista, mas sem depositar nenhuma confiança na demagogia do PT “como oposição” e nem cair na armadilha do Judiciário. Nossas bandeiras e agitação defenderam que queremos uma nova constituinte seja imposta pela força da nossa mobilização, junto aos trabalhadores, às mulheres, aos negros e negras, LGBTs e movimentos sociais. Acreditamos que essa é a única forma de termos de fato independência de todos os blocos políticos que geram essa ordem podre e tomarmos em nossas mãos a decisão sobre o nosso futuro. Vemos dia a dia centenas de remendos à constituição serem feitos contra nós, mas nenhuma defende sequer um direito nosso, ao contrário os retira. A mesma polícia que impôs anos de perseguições políticas, torturas e assassinatos contra os que defendiam os direitos sociais durante a Ditadura Militar é preservada e destila seu racismo estrutural contra a juventude nessa máscara de democracia que vivemos. Os ricos são privilegiados, com isenções de impostos e dívidas bilionárias que não pagam ao Estado, enquanto nos demitem e dizem que nós temos mesmo que “pagar o pato”. A violência às mulheres cresce e é legitimada pelo Estado que não é laico na prática, mas estimula o conservadorismo e fundamentalismo religioso, enquanto somos mutiladas e mortas por abortos clandestinos ou por afirmarmos nossa identidade. Essas e muitas outras contraposições ameaçam todos os dias as nossas vidas, enquanto perpetuam uma ordem social que não aguentamos mais. É contra isso que queremos uma assembleia constituinte, livre e soberana, que não seja “exclusiva” para reforma que não mudarão nada de fato, mas, sim, que permita que nós jovens e toda a população possamos discutir e decidir de fato os rumos do país e de nossas próprias vidas.




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