Juventude

Qual o papel das entidades estudantis no governo Bolsonaro?

Confira alguns dos debates realizados na plenária aberta da juventude Faísca - Anticapitalista e Revolucionária da USP sobre o papel das entidades estudantis no governo Bolsonaro.

Odete Cristina

estudante de ciências sociais na USP

Mariana Duarte

Estudante de Letras da USP

quarta-feira 30 de outubro| Edição do dia

Há exatamente um ano da eleição que fez de Bolsonaro o herdeiro do golpe institucional, das manipulações e autoritarismo judiciário, nós da juventude Faísca realizamos uma plenária aberta para debater as perspectivas da juventude frente a esse governo e o papel das nossas entidades estudantis na USP. Inspirados nas lutas que explodem por todo mundo, especialmente na luta do povo chileno contra os ataques neoliberais de Piñera e toda herança da ditadura de Pinochet, buscamos debater como esse novo ascenso da luta de classes marca uma inflexão muito importante no cenário internacional. Como parte de uma juventude revolucionária e internacionalista nos contagiamos com a energia da juventude que vem lutando em todo mundo ao lado da classe trabalhadora para pensar nossos desafios aqui no Brasil, diante de Bolsonaro, Guedes e todos os capitalistas que acabaram de aprovar a nefasta reforma da previdência para nos fazer trabalhar até morrer. Também discutimos como o processo de eleições na Argentina mostrou a polarização do continente, sendo um recado ainda que distorcido pela visão burguesa, contra as políticas neoliberais daqueles governos que se colocam como lambe-botas de Trump, como era Macri e como são Bolsonaro e Piñera. E como essa nova etapa da experiência do povo argentino com o peronismo, num país fortemente em crise e subordinado ao FMI, e num continente fortemente marcado pela luta de classes, encontrará também uma força de esquerda representada pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade, que baseada numa política de independência de classe foi uma voz para expressar os processos da luta em todo continente, apostando na organização da classe trabalhadora e da juventude, especialmente daqueles setores mais precarizados pela crise capitalista.

Inspirados nessas grandes ideias sobre os desafios da juventude internacionalmente, nos propusemos a pensar qual o papel do movimento estudantil no Brasil de Bolsonaro. Já nas eleições do ano passado, mas especialmente em maio desse ano, vimos milhares de jovens despertarem para política se colocando ativamente contra todo discurso de ódio, violência e os profundos ataques que Bolsonaro e a extrema direita buscavam implementar, levando adiante toda obra do golpe institucional em nosso país, que segue mantendo Lula preso arbitrariamente, que busca arrancar nosso sangue com a reforma da previdência, a precarização do trabalho, a terceirização irrestrita, a destruição da Amazônia, o óleo nas praias nordestinas e que jamais respondeu a pergunta que fazemos a quase 20 meses: quem mandou matar Marielle?. Tudo isso, fez despertar uma geração de jovens que no décimo primeiro ano da crise capitalista, sabe que esse sistema não pode responder às nossas demandas, porque se depender dos capitalistas irão retirar até mesmo nosso direito de sonhar com o futuro. Por isso, também são esses jovens que hoje, nas suas mais diversas formas se colocam a militar, seja organizando seus amigos para debater política nas redes, seja participando dos atos, seja estudando e debatendo nas salas de aulas, seja buscando organizar suas entidades, seja buscando atuar em algum movimento social.


Jovens secundaristas chilenas, uma das protagonistas das mobilizações naquele país

Um balanço das mobilizações de 2019 e a necessidade uma nova tradição no movimento estudantil

Partimos em primeiro lugar de um balanço sobre como os estudantes mostraram sua força e se colocaram como linha de frente da oposição a esse governo, quando fomos mais de um milhão nas ruas em maio, e como ali vimos se expressar de forma mais concentrada todo potencial da juventude que quer se colocar como sujeito político frente ao governo Bolsonaro, e em São Paulo contra Dória e Covas. Se a UNE mostrou todo o potencial que poderia ter para organizar os processos massivos em cada universidade e centro de ensino desse país, também se confirmou como essa entidade sob controle das direções altamente burocráticas da sua direção majoritária, como são as juventude do PT, PCdoB e o Levante Popular da Juventude, pode na verdade se tornar um enorme freio da auto-organização dos estudantes, convocando atos esparsos e sem discussão com a base, sem assembleias ou reuniões democráticas, fazendo com que toda energia e disposição militante da juventude seja canalizada para simplesmente ir aos atos e aos poucos construindo uma desmoralização nessa juventude que já não se via mais como sujeito da mudança. Uma estratégia que está totalmente atrelada a política de conciliação desses partidos, cujos governadores do nordeste apoiavam a reforma da previdência e agora negociam a venda do pré-sal, enquanto nossas praias estão sujas pelo óleo capitalista. Ao mesmo tempo, que mesmo estando a frente da direção das principais centrais sindicais do país, essas organizações atuaram para separar a luta da juventude em defesa da educação, daquele que era o principal ataque em curso: a reforma da previdência.

Partindo desse balanço, é fundamental debatermos quais o desafios para que o movimento estudantil possa superar o entrave dessas direções burocráticas e abrir espaço para que essa juventude que não suporta mais o ódio dessa extrema direita e a miséria capitalista, possam estar na linha de frente de se organizar e transformar nossas entidades em ferramentas militantes para nos aliarmos a classe trabalhadora na luta contra os ataques em curso. Esse é um dos grandes desafios da nossa geração, e a luta no Chile mostra um caminho, que passa por não ter nenhuma ilusão nas políticas reformistas e neoreformistas que buscam conciliar nossos interesses com todos aqueles setores mais podres do sistema capitalista, mas apostar na nossa auto-organização desde cada local de estudo e trabalho como uma importante ferramenta para construir nossa luta. Acreditamos que esse é um grande desafio de todos os setores que se colocam como oposição de esquerda as burocracias petistas nas entidades e que querem construir uma nova tradição do movimento estudantil, que seja oposta pelo vértice a lógica burocrática dos acordos por cima, dos interesses conciliatórios com governos e empresários que só querem nos fazer pagar pela crise que eles criaram.

Foi nos baseando nisso, que lançamos um chamado na USP para que todas organizações juntamente com todos os estudantes independentes que se colocam como parte da oposição de esquerda a atual gestão do DCE, a chapa Nossa Voz, pudéssemos construir juntos uma reunião onde debateriamos o programa e as tarefas da oposição frente ao governo Bolsonaro. Uma reunião que em nossa visão deveria ser construída democraticamente com chamados abertos, com uma ampla convocação que pudesse unificar toda oposição de esquerda num grande debate que poderia fazer o movimento estudantil de conjunto avançar. E mesmo que esse processo não resultasse em uma chapa unitária, baseada em acordos básicos como uma política de exigência e um claro balanço do papel das burocracias da UNE e das Centrais Sindicais, a defesa da auto-organização dos estudantes, a aliança com a classe trabalhadora e os movimentos sociais, a liberdade para que as diferentes visões´sobre algumas temas em que não houvesse acordo pudessem se expressar dentro da chapa, somente esse processo de debate programático com o conjunto dos estudantes, que impulsionasse discussões que vão muito além dos dias de votação das eleições já apontaria um caminho diferente, na perspectiva de construir uma outra tradição no movimento estudantil.

Seguiremos batalhando pela unidade na luta, atuando conjuntamente com todas os estudantes e as organizações nos processos que acontecerem, como fizemos em todos os momentos desse ano na construção das paralisações e mobilizações. Mas, colocamos essas considerações porque achamos que esse processo de discussão de programa para chapas não deveria ser encarado apenas formalmente como um acordo fechado entre algumas correntes, mas sim, como um amplo espaço de debates democráticos com os estudantes para que pudesse acelerar a experiência do conjunto do movimento estudantil, debatendo nossos desafios e perspectivas de forma mais ampla e enriquecedora. Os frutos desse processo poderiam ser muito mais profundo que somente um acordo formal em uma chapa, mas apontariam quais os desafios do movimento estudantil daqui para frente e mostrariam a disposição do conjunto da esquerda em levar esse debate seriamente, não somente nos curtos períodos de eleição para as entidades. Ainda que falte apenas 2 dias para a inscrição das chapas, seguimos abertos ao diálogo com os estudantes e as organizações, e acreditamos que se todos nós colocássemos nossas forças para construção de uma reunião com essa perspectiva poderíamos ter ganhos importantes, e nos propomos a participar de todas as iniciativas que vão nesse sentido.


Contra ato dos estudantes da USP na FFLCH, em resposta ao ato chamado pela extrema-direita na universidade, um dia após a eleição do Bolsonaro

Qual o programa para construir entidades militantes contra Bolsonaro e os ataques?

Desde uma perspectiva anticapitalista e revolucionária, e como parte dos debates que fomos construindo ao longo dos anos, a Faísca tem um programa condensando nossa perspectiva que busca questionar a universidade e a sociedade de classe, apontando um caminho para pensar desde nossas demandas mais cotidianas até os grandes problemas que nos afligem e por qual projeto de país e de sociedade lutamos. Conforme já expressamos nesse texto, achamos que qualquer discussão para a formação de uma chapa unitária deve buscar encontrar os elementos que unificam todos os setores como ponto de partida frente aos desafios políticos que temos com o governo Bolsonaro e a volta da luta de classes em nosso continente. Por isso, é tão saudável que cada organização e cada estudante possa realizar um amplo debate aberto de quais pautas consideram necessárias para que o movimento estudantil avance. Foi partindo dessa visão que discutimos alguns eixos de programa, que gostaríamos de colocar como parte do debate com o conjunto dos estudantes.

Hoje estudamos numa das universidades apontadas por diversos rankings (apesar dos seus critérios bastante questionáveis de produtividades e lógica empresarial) como uma das melhores da América Latina. Mas a dura realidade de muitos estudantes é trabalhar durante horas em estágios precários, ganhando muito pouco, quase não ter tempo para dar conta das leituras e de aproveitar sua graduação como queria por conta da lógica mercadológica e produtivista que está colocada como parte dos parâmetros de excelência que a reitoria e toda burocracia universitária tanto se orgulham. Ainda mais dificil para esses jovens é se organizar politicamente como parte do movimento estudantil, ainda mais quando ele segue a lógica burocrática das entidades petistas. Se ainda não vemos situações tão lamentáveis como é nas universidades federais, que correm o risco de literalmente fechar suas portas por falta de verbas e pelos cortes, a verdade é que na USP também existe uma política de precarização e demonte que foi sendo levada adiante ao longos dos anos de governo do PSDB. O fechamento das creches, dos bandejões, do Hospital Universitário, a falta de contratação de funcionários e professores, substituídos pelos estagiários precarizados e sem direitos já que não tem permanência estudantil para toda demanda.

Às vezes parece que estamos em duas universidades distintas, uma dos cursos de excelência que tentam se adequar aos padrões mercadológicos e empresariais do Marco Legal da Ciência, que em muitos pontos se conecta com o Future-se de Bolsonaro e Weintraub, mas por justificar suas políticas privatizantes com menos fundamentos ideológicos do reacionarismo da extrema direita, acabou não sendo tão rechaçado e pelo contrário foi até defendido pela reitoria e parte da burocracia acadêmica. Cursos como os da POLI, a Educação Física, a FEA, entre outros, cujas pesquisas muitas vezes são financiadas por fundações privadas que atuam dentro da universidade. Em que os laboratórios, apesar de serem de uma universidade pública, ficam fechados sob o controle dos professores ligados a essas empresas, como é por exemplo os convênios com a Vale assassina, que até hoje permanece impune pelos crimes de Brumadinho e Mariana. A outra USP, é aquela de cursos que não estão diretamente relacionados aos interesses dos empresários, como a letras, pedagogia, sociais, história, as licenciaturas diversas ou as áreas de saúde. São justamente aqueles que formam professores ou profissionais que se preocupam com o bem estar da população, cursos mais ligados ao pensamento crítico e uma política de consciência social, que frente um sistema tão brutal como o capitalismo permitem seus estudantes refletirem sobre seu papel como sujeitos no mundo, o terror da extrema direita terraplanista que odeia qualquer ciência.

Em ambos os casos, vemos a constante pressão da disputa entre dois projetos de universidade e de sociedade: um que quer aprofundar ainda mais a lógica mercadológica, empresarial e capitalista de uma universidade a serviço das empresas, onde o conhecimento e a ciência seja cada vez mais tecnicista, afinal para essa extrema direita que se coloca como capacho do Trump aprofundar sua submissão ao imperialismo inclui também abrir mão das nossas pesquisas e de qualquer autonomia que possamos ter, a menos que isso esteja a serviço de favorecer os grandes latifundiários que fazem a Amazônia queimar pelos seus lucros. Os objetivos que o golpe institucional buscou levar adiante, aprofundando a subordinação do nosso país e massacrando a classe trabalhadora com uma política abertamente neoliberal de privatizações, ataques aos direitos trabalhistas e entrega de todos nossos recursos naturais, e se fazem sentir em nossa universidade quando questionam nossas pesquisas, nosso ensino e até mesmo a formação dos nossos professores. Afinal para que professores bem formados se tudo o que eles precisam é de pessoas que apenas aceitem os ataques sem reclamar, sem se organizar? Por isso, ter uma posição firme quanto ao impacto do golpe em nossas vidas é algo tão vital para o estarmos melhor preparados para defender as universidades, a pesquisa e a educação pública.. Saber como chegamos até aqui e os efeitos desse golpe é o que melhor pode nos preparar para os enfrentamentos que estão por vir.

Em nossa visão é necessário que as entidades estudantis e ao movimento estudantil de conjunto defenda cada uma das nossas conquistas históricas nas lutas em defesa da educação pública, lutando para defender as universidades, com permanência estudantil para toda demanda, com contratação de mais funcionários e professores, contra o fechamento das creches, do hospital universitário, a privatização dos bandejões, em defesa das cotas étnico-raciais, dos nossos espaços estudantis, das festas e atividades sociais, culturais e políticas que a CPI das Estaduais Paulistas tanto quer acabar. Mas tudo isso, precisa ser parte de também apresentar um outro projeto de universidade, que se coloque como alternativa ao de Bolsonaro, dos golpistas e dos capitalistas. Uma universidade que esteja a serviço da classe trabalhadora e de toda população, uma universidade onde nosso conhecimento não esteja subordinado aos interesses das empresas e de salvar um sistema em decadência, mas das necessidades da população que a sustenta com seu suor do seu trabalho.

Queremos um movimento estudantil que lute pelo fim do vestibular, para dizer especialmente a juventude pobre e negra o lugar deles é aqui dentro, estudando e produzindo conhecimento para transformar essa sociedade. Questionando a estrutura de poder herdeira da ditadura militar, lutando por uma estatuinte livre, soberana e democrática, onde acabaríamos com os cargos da reitoria e do conselho universitário, para que a gestão da universidade fosse feita proporcionalmente pelos estudantes, funcionários e professores, juntamente com a população. Um movimento que contra todas políticas privatistas e de cortes, busque questionar a lógica da educação como mercadoria, os grandes tubarões do ensino que lucram milhões, defendendo a estatização de todos as universidades privadas sem indenização e sob controle dos estudantes e trabalhadores. Um movimento estudantil que se proponha a defender a efetivação dos trabalhadores terceirizados sem a necessidade de concurso público. Por isso também achamos importante a necessidade de entidades proporcionais, onde todas as chapas que disputam o processo eleitoral possam ser eleitas proporcionalmente a escolha do conjunto dos estudantes, e que todos os setores sejam responsáveis por levar adiante as políticas decididas pela base. Queremos lutar lado a lado da classe trabalhadora, dos movimentos sociais, da população indígena, tendo na linha de frente as mulheres, os negros e as LGBTs como sujeitos políticos capazes de revolucionar nossas entidade transformando elas em ferramentas militantes para poder contra-atacar. E convidamos todos os jovens a debater conosco essas ideias!




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