Teoria

A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL / Nota n.6

Qual o motor da economia mundial?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 8 de janeiro| Edição do dia

A economia mundial: o nascimento de uma contradição
Nas notas anteriores foram resumidas as condições históricas, isto é o contexto em que surgiu a economia internacional. E como se conformou na condição de um todo orgânico.

Antes de um exame mais detido sobre as características teóricas deste todo interconectado e sobre as fases ou períodos da economia mundial, tem toda importância uma problematização da questão da concepção de economia mundial e dos elementos motores ou propulsores desta economia global.

De poucos séculos para cá – e diferentemente das economias feudais – uma economia nacional já não se mantém isoladamente. Não há alternativa: a economia é simplesmente mundial. Nenhuma nação e, nenhum mercado doméstico cabe em si mesmo, ou se basta.

Nenhum país, sequer os mais industrializados, consegue produzir tudo que precisa para o seu funcionamento econômico. Em síntese: a realidade econômica tornou-se organicamente mundial.

E neste caso não se pensa apenas em intercâmbio (circulação), mas em um sistema econômico mundial por inteiro, de vasos comunicantes na esfera cada vez mais da produção, da nova divisão mundial do trabalho. Historicamente, como marca da era do imperialismo, o valor da produção realizada fora das fronteiras por filiais de empresas nacionais tende a exceder amplamente o produzido localmente, em sua sede. São as exportações. Comércio, produção e investimentos de toda ordem estão organicamente internacionalizados.

Uma vez estruturada na condição de economia mundial, em fins do século XIX, com a expansão inglesa pelo mundo, o conjunto da economia marchou rapidamente para a crise, em um processo que tomou forma cruenta em 1914 na conflagração entre aqueles Estados que sediavam as grandes corporações do recém-formatado capitalismo monopolista e que mais necessitavam de expansão mundial; na verdade, os que mais careciam de uma diferente partilha das colônias, das fontes de matérias-primas, do espaço mundial para sua própria acumulação do capital.

Acumulavam-se contradições e a I Guerra revelou sua magnitude. E isso não apenas em termos de alcance espacial, mas também destrutivo. Esta era a novidade: a economia não mais cabia dentro da nação. Tornara-se um processo e um ente mundial. Tentáculos de grandes grupos disputavam o mesmo espaço global entre si, chegando às vias de fato: da guerra comercial à guerra propriamente dita.

E outra novidade é que isto não valia apenas para a Inglaterra: rivais como a Alemanha e os Estados Unidos se desenvolviam a passos rápidos e tendiam a disputar a hegemonia econômica mundial com a Inglaterra.

Estas tensões traduzem o fato de que a acumulação do capital desprendera-se, havia várias décadas, do âmbito estrito de uma ou outra nação, para a arena onde os grandes grupos do capital financeiro-industrial disputam a hegemonia internacional. Em outras palavras: o mesmo movimento que torna a economia mundial um todo orgânico e interconectado pela primeira vez na história, é também ele, gerador de tensões internacionais. É da natureza dos movimentos do grande capital. Grande capital agora em sua fase imperialista.

“O desenvolvimento econômico da humanidade, que acabou com o particularismo medieval, não se deteve nas fronteiras nacionais. O crescimento do intercâmbio mundial veio paralelamente com a formação das economias nacionais. A tendência deste desenvolvimento – pelo menos nos países avançados – se expressou no deslocamento do centro de gravidade do mercado interno ao externo. O século XIX esteve marcado pela fusão do destino da nação com o de sua economia, mas a tendência básica de nosso século é a crescente contradição entre a nação e a economia” (TROTSKI, 1999: 139).

Em síntese, ao tornar-se um sistema global interconectado, a economia mundial, sob a regência do dinamismo predatório do capital, torna-se instável e tensionada por natureza. O mesmo movimento que produz aquela estrutura, gera tensão e instabilidade.

Economia mundial: o “espaço vital” do capital
Esta instabilidade tem a ver com a tendência imperiosa dos grandes capitais à auto-expansão.

O capital, em processo de acumulação, de reprodução ampliada, é portador da compulsão irrefreável a crescer. Não pode prender-se a uma região, a um país, não tem limites geográficos a respeitar. De parte dos grandes capitais, na verdade, é mais que isto: a mundialização do capital tornou-se condição de sua própria sobrevivência.

O espaço de acumulação do capital é mundial, seu mercado é mundial, a concorrência que mais conta – entre os grandes oligopólios privados – é planetária. Quando, por alguma razão, grandes massas de capitais se vêm obrigadas a refluir ou concentrar-se no seu espaço nacional, apenas estão reunindo suas forças, em especial as militares para (caso encontrem as condições) avançarem sobre o seu “espaço vital”, a economia mundial. Foi o caso do nacionalismo alemão, japonês, italiano dos anos 30, em marcha para a Guerra Mundial. E a atual concorrência entre os capitais europeus, entre europeus e norte-americanos, a China, tem também esse perfil, no essencial, de tensão e concorrência. De imperiosa necessidade de disputar “espaço vital”.

Dessa forma, quando se fala em economia mundial, é essencial que se entenda que aqui se trata muito mais do que apenas de um sistema de vasos intercomunicantes ou de uma dinâmica que articula espaços e regiões. A economia mundial é a arena onde cada grande oligopólio financeiro – industrial decide sua sobrevivência, acumula capital e onde se desenvolve a luta por hegemonia: o processo é de acumulação incontrolável do capital. E esta acumulação, na esfera global, planetária, não pode ser refreada sem significar grave crise para seus detentores.

Economia mundial: seu motor
O motor dessa dinâmica irrefreável – já foi argumentado – não é nenhuma espécie de planejamento. Trata-se de uma dinâmica movida pela acumulação do capital. O móvel da economia mundial é a busca, por parte dos grandes agentes ou personas do capital, da taxa satisfatória de lucro. Grandes massas de capitais não podem perseguir outro objetivo mais forte que sua própria acumulação.

A acumulação do capital – como argumentava Marx - é “o fim imediato e o motor determinante da produção”. Do final do século XIX em diante, este processo assume dimensões planetárias. E, nesta entrada do século XXI, adota formas ainda mais abertamente destrutivas e de barbárie social, militar e ecológica.

Evidentemente esta tendência do grande capital – e seus proprietários – à acumulação, vem carregada de todo um rosário de consequências. O que não pode ser perdido de vista é que, antes como agora, é a silenciosa e implacável movimentação de capitais centralizados em busca de sua valorização o elemento que termina formatando, dinamizando e, ao mesmo tempo, ciclicamente, lançando a economia internacional em crise.

Em outras palavras, os fundamentos da economia internacional não podem ser encontrados no chamado livre mercado, hoje pouco mais que uma grande ficção de nítido papel ideológico. Nem ele é livre e nem a ideia de mercado tem qualquer sentido por fora do poder dos oligopólios. Falar, como faz a mídia amestrada, em “humor dos mercados” não serve sequer como metáfora.

O pano de fundo, o processo econômico essencial e que movimenta todo o conjunto vem a ser, precisamente, o dos movimentos do grande capital circulando pelo mundo afora em busca da rentabilidade, à procura da taxa média de lucro, de seus nichos de acumulação rentável e movendo-se dentro dos marcos inexoráveis das leis tendenciais do capital, ou seja, segundo uma lógica indomável e não regulável por qualquer governo capitalista. Portanto, nos marcos da luta interestatal, inter-imperialista.

[Nenhum governo – e nem todos juntos - consegue regular a economia mundial e nem tem como impedir as crises: por exemplo, a grande tentativa de regulação keynesiana, na linha anticrise, com gastos públicos e planos de natureza civil e militar no pós-II Guerra, no final de contas, não teve como impedir a grave e longa crise dos anos 70, como se verá mais adiante.

Os limites do capital – nos marcos da existência do capitalismo – são dados pelo próprio capital, não por algum tipo de “regulação” estatal. Aliás, diga-se de passagem, políticas – chamadas keynesianas – são defensivas, são tentativas do sistema de defender-se de suas contradições e das próprias lutas sociais. Nada possuem de parecido com um poder de gestão, de planificação anticrise].

[Continua na Nota n.7, brevemente no ED].

Referências:
TROTSKI, Leon, 1999. Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la economia de transición. Buenos Aires: Ceip León Trotsky.
[Juntas, as notas dessa série integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas].




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