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Crise do PSOL | Qual é o limite da conciliação de classes da AS, CST e SoB?

Publicamos aqui um debate escrito pela organização irmã do MRT na Argentina, o PTS, com os grupos irmãos dessas organizações em nosso país vizinho, todas parte da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores. No Brasil, essas organizações são parte do PSOL; escrevemos esse texto há algumas horas da conferência eleitoral que poderia levar o partido a se integrar na coligação eleitoral do PT com parte da direita golpista.

Daniel MatosSão Paulo | @DanielMatos1917

sábado 30 de abril | Edição do dia

No próximo dia 30 de abril será realizada a conferência eleitoral do PSOL. Tudo indica que ela vai endossar a sua integração na coligação eleitoral do PT com parte da direita golpista e neoliberal no Brasil, bem como uma união partidária com outro segmento não menos golpista e neoliberal. Falta a confirmação interna do que já foi divulgado pelas principais figuras públicas do partido na grande mídia. Isso tudo junto com o candidato a vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin, alguém muito próximo de um Macri na Argentina. E também com uma federação (ou seja, conformar um programa, estatuto partidário e atuação parlamentar unitária por quatro anos) com a “Rede” de Marina Silva, que para seria uma espécie de ambientalista à la Lilita Carrió. Como chegaram até aqui e o que farão as correntes irmãs da Izquierda Socialista - IS (ou Corrente Socialista dos Trabalhadores), o Movimiento Socialista de los Trabajadores - MST (ou Alternativa Socialista) e o Nuevo MAS - NMAS (ou Socialismo ou Barbárie) que até agora permanecem no PSOL?

A Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), organização irmã da Izquierda Socialista, diz aqui que a aliança com Marina Silva “faz parte da mesma política da aliança com a lista burguesa Lula-Alckmin”, e que ambas significam “a liquidação do nosso partido como oposição de esquerda, que nasceu justamente contra a traição de classe do PT e Lula”. Para o punhado de militantes da seção brasileira irmã do Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST), essa mesma política significa "a completa liquidação do PSOL como partido classista, socialista e democrático", como dizem aqui. Por sua vez, os poucos partidários de Manuela Castañeira do Nuevo MAS no Brasil clamam por “uma rebelião das bases” do PSOL para que a independência de classe do partido não seja “definitivamente liquidada”, como dizem aqui.

Independência organizativa ou independência política?

Roberto Saenz, dirigente da corrente Socialismo ou Barbárie (SoB) no Brasil, nos provê uma resposta a esta pergunta: “Qual seria - é - nossa campanha eleitoral? Bolsonaro deve ser derrotado, porque ele é um perigo. Se formos forçados, até poderíamos votar em Lula no primeiro turno (caso as pesquisas os coloquem em pé de igualdade, o que não é o cenário atual)”.

Esta não é uma votação do PT contra Bolsonaro no quadro de eleições descaradamente manipuladas pelo judiciário para sequestrar o direito ao sufrágio universal como aconteceu em 2018, quando o MRT que impulsiona esse Esquerda Diário, chamou à um voto crítico em Haddad. São eleições que buscam “normalizar” o golpe institucional, devolvendo direitos políticos a Lula para que ele, junto com os golpistas da direita neoliberal não-bolsonarista, possa administrar com maior estabilidade o legado do golpe. É nesse quadro que o Nuevo MAS considera lícito apoiar a parcela não-bolsonarista da grande burguesia brasileira contra a parcela bolsonarista.

É como se Milei, Berni ou Bulrich tivessem chegado ao poder por meio de um golpe institucional (com métodos judiciais e parlamentares arbitrários que violam os direitos democráticos mais básicos). Uma vez no poder, eles implementaram todas as reformas trabalhistas e previdenciárias e todos os cortes orçamentários e privatizações mais neoliberais que nem Macri conseguiu implementar. Então, seria apoiar uma candidatura de Cristina Kirchner, com Macri ou Larreta como vice. Assim mesmo, seco e duro.

Em palavras, é a esquerda e os kirchneristas vendendo a ilusão de retroagir em toda obra golpista realizada pela extrema direita. Mas na verdade, trata-se do apoio a uma candidatura armada de importantes parcelas da burguesia mais concentrada e das próprias instituições golpistas (como o Supremo Tribunal Federal) para dar a continuidade, com a maior estabilidade possível, à herança golpista em tempos de crise, se delimitando das bravatas reacionárias de alguém como Bolsonaro.
Ressalte-se que Geraldo Alckmin, vice de Lula, é conhecido por ser discípulo do Opus Dei, repressor de grevistas e defensor ferrenho das reformas neoliberais e das privatizações; que Marina Silva, a nova “liderança” do PSOL, é uma enérgica expoente da luta evangélica contra o direito ao aborto no Brasil; e que Lula trabalha todos os dias - já com alguns acertos importantes - para atrair para sua coalizão os caudilhos reacionários que controlam os aparelhos eleitorais no interior do país, como seriam Manzur e cia na Argentina.

Saenz considera que esse "mal menor" pode ser necessário para, em suas palavras, "aproveitar a campanha eleitoral para tentar avançar minimamente a consciência de classe", para "abrir um caminho independente", pois "preferimos preservar o PSOL como uma alternativa independente”. Essa via independente seria a candidatura presidencial de Glauber Braga pelo PSOL. Para os seguidores de Castañera, Braga "encarnava" um “programa anticapitalista”. Para es companheires da CST, “uma candidatura própria com um programa socialista” . Para os da AS, seria a expressão da "independência política” com um “programa anticapitalista e socialista” .

No entanto, Glauber Braga, antes da Conferência Eleitoral de 30 de abril, na qual seu nome será votado a favor ou contra como candidato presidencial do PSOL, já reconhece internamente no partido que será candidato a deputado federal como parte da coligação com Alckmin e Marina Silva. Mais do que isso, ele já lançou sua campanha com o slogan presidencial "Derrotar Bolsonaro”, deixando mais do que claro que “independência” ele representa.

A Socialismo ou Barbárie apresenta como grande "traição de classe" ser parte de uma coalizão com a direita golpista neoliberal, mas parece se esquecer que em eleições municipais passadas já havia integrado uma coalizão comum com o próprio partido de Marina Silva. Braga, coerente com sua trajetória de nacionalista-burguesa, tem 100 % de acordo com a política da maioria do PSOL de constituir um mesmo blo o político-parlamentario com o PT no Congresso e a coexistencia pacífica com a burocracia petista nos sindicatos e movimentos sociais.

O bloco político com as burocracias políticas e sindicais do PT e da CUT, em todas as questões fundamentais desde que estes entraram na oposição, é o que define o caráter meramente organizativo da "independência" almejada dentro do PSOL. “Organizacional” porque sacrifica a luta pela independência política da classe trabalhadora e das massas, enquanto os parlamentares são os que acumulam poder real com sua política de conciliação de classes a todo vapor. Por que todos esses sacrifícios não terminariam em algum momento na própria diluição da independência organizacional, como aconteceu em todas as experiências de "partidos amplos" em outros países sem uma delimitação programática clara de classes?

Partido para a luta de classe ou eleitoralismo?

A própria CST, ao defender o que em suas próprias palavras seria o caráter "estratégico" do ponto de inflexão atual, se contradiz ao aludir a um fundamento que não é nada novo. Dizem, no mesmo artigo citado acima, que "as políticas de Lula e do PT, com sua linha de desmantelamento das lutas, dão alento a Bolsonaro, que cresce nas pesquisas na medida em que não há alternativa real nas ruas." . Acrescentam que “no momento em que há greves e lutas sindicais por reajuste salarial e emprego, fruto da grave crise social, as direções da CUT e do PT recusam-se a convocar mobilizações, a apoiar esses processos e a unificar eles.” E concluem que “querem se mostrar aceitáveis ​​à grande burguesia e ao capital”.

Mas essas caracterizações são verdadeiras uma vez que o PT foi afastado do poder pelo golpe institucional judiciário-parlamentar promovido pela direita. Desde 2017, o PSOL constituiu um bloco político-parlamentar com o PT na oposição, convivendo pacificamente com a burocracia da CUT nos sindicatos e movimentos sociais.
Antes desse giro, quando as mobilizações de massas entre 2013 e 2014 levantaram a possibilidade de um processo de ruptura em massa com o PT que seria capitalizado pelo PSOL, nós do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) propusemos entrar neste partido para se fundir com aquelas tendências lutando por um programa e estratégia revolucionária. Isso, enquanto criticavamos publicamente a política de conciliação dos parlamentares do PSOL no Esquerda Diário que atinge milhões em todo o país, fomos rejeitados. Mas conseguiram permanecer no PSOL aquelas correntes que aceitavam que os parlamentares dirigissem a política pública do partido para a conciliação de classes diretamente de suas bancadas, limitando-se às críticas internas. Como se a propaganda para pequenos círculos – por mais “vermelha” que seja – pudesse criar forças materiais capazes de enfrentar burocracias políticas, partidárias e sindicais firmemente fincadas em suas poltronas. Não seria o ensinamento de Lenin. Agora, não devem se surpreender quando, impotentes, são notificados da integração na aliança do PT com Alckmin e da união com Marina Silva pela grande mídia e caminham para uma Conferência Eleitoral com cartões marcados.

A estratégia de aceitar a política de conciliação de classes das figuras públicas do partido e convivência pacífica com as burocracias sindicais em troca da possibilidade de obter cargos parlamentares já teve sua trágica expressão no Brasil na experiência da chamada "esquerda do PT", que ao longo do processo de constituição do PT, teve em seu interior a coexistência de correntes de origem trotskista. Alguns, como o PSTU, que rompeu no início dos anos 1990. Outros, como as que fundaram o PSOL, romperam no primeiro mandato de Lula, entre 2003 e 2005. O que faz com que a atual impotência das correntes que rejeitam o acordo do PSOL com Alckmin e Marina, depois de repetirem os mesmos erros, ganhe conotações de farsa. Pelo menos isso serve para tirar conclusões.

A crise aberta na esquerda com a diluição do PSOL em uma aliança com Alckimin e Marina Silva marca uma virada na esquerda brasileira. Nesse quadro, o Polo Socialista e Revolucionário (PSR) proposto pelo PSTU para coordenar as tendências que pretendem lutar pela independência de classe tornou-se uma potencial força unificadora para os setores que resistem a seguir o caminho escolhido pelo PSOL. No quadro das divergências públicas que mantemos contra a adaptação do PSTU ao golpe judiciário-parlamentar, nós do MRT aderimos à construção do PSR e aceitamos a proposta de filiações democráticas oferecida pelo PSTU para que possamos intervir no processo eleitoral apesar da legislação proscritiva do país. No espírito de construção de uma coalizão de independência de classe, propomos eixos de agitação política para enfrentar a extrema direita bolsonarista e com o propósito de administrar o legado golpista com a lista Lula-Alckmin. No espírito de q’ue seja uma coalizão de diferentes tradições, oferecemos a candidatura de Marcelo Pablito, militante do movimento operário e do movimento negro, para acompanhar a candidatura presidencial da camarada Vera do PSTU como vice-presidente.

Para avançar nessa direção, temos chamado os e as camaradas que não querem fazer parte da engrenagem com Alckmin e Marina Silva a que rompam com o PSOL. Não é possível defender a independência de classe com um pé no Polo Socialista Revolucionário e outro no PSOL, como acontece atualmente com os camaradas da CST. Os votos conquistados com essa aliança, por mais que sejam com um discurso mais de esquerda, estarão fortalecendo o objetivo de administrar o legado golpista representado pela coalizão Lula-Alckmin. A ilusão vendida pelos lulistas-alckimistas do PSOL de que após as eleições as figuras mais direitistas do partido entrarão no governo e deixarão um espaço vazio para ser ocupado pelos defensores da "independência organizativa" numa quimera. Desde quando os vencedores dão aparato de presente aos perdedores?

Por outro lado, por que os e as camaradas que simpatizam com a CST, AS e SoB no PSOL reivindicam uma frente de independência de classe com os neostalinistas do PCB e da Unidade Popular? Como é possível que correntes que defendem o nacionalismo burguês, os governos da China, Rússia e Coreia do Norte, assim como os crimes de Stalin e Mao, possam contribuir para a construção de uma força política de esquerda? O fato de hoje essas correntes se oporem à aliança do PT com a direita golpista neoliberal possibilita a unidade na ação nas ruas e nas lutas sindicais e populares, mas não deve apagar que suas concepções que de fundo não são diferentes daquelas que conduziram o PSOL à crise atual.

Vendo a necessidade de criar um espaço de diálogo entre os companheiros do Polo Socialista e Revolucionário e os que rompem com o PSOL, colocamos a disposição o Esquerda Diário como ferramenta de debate.

Acreditamos que a Frente de Esquerda dos Trabalhadores-Unidade (FIT-U) da Argentina oferece uma experiência para aprender pela sua construção de um programa e uma agitação política de independência de classe comum entre as diferentes tradições, mantendo o debate livre sobre os pontos de divergências políticas na imprensa partidária. Infelizmente, a CST e a AS, que na Argentina defendem a tradição da FIT-U, no Brasil parecem concordar mais com aqueles que a atacam. Por que a FIT-U se consolidou como uma força reconhecida em todo o país por estar do lado dos trabalhadores e levantar propostas anticapitalistas enquanto os "partidos amplos" (como o PSOL) sem delimitação programática que existem em vários lugares estão sendo liquidados ou passam por graves crises?

Não se pode perder mais nem um segundo na construção de uma alternativa de independência de classe. Mas que não seja meramente organizativa, mas que lute pela independência política da classe trabalhadora em todas as áreas: na batalha eleitoral, nas lutas em curso, e também na luta contra as burocracias dentro dos sindicatos e movimentos sociais. As eleições no Brasil e os rumos da esquerda no país certamente terão impacto em nível internacional, o que torna essa batalha mais importante.




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