Teoria

50 ANOS DA MORTE DE CHE GUEVARA

Qual a ideia de Che Guevara sobre a relação entre Medicina e Revolução?

Discurso de Che Guevara aos estudantes cubanos de medicina

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 29 de novembro| Edição do dia

Algum tempo depois da tomada do poder em Cuba, Che Guevara pronunciou um discurso em encontro de estudantes de medicina cubanos. Reproduzimos aqui [abaixo] seu discurso, para conhecimento mais geral. Pensamos que se trata de não apenas ampliar o conhecimento sobre o próprio Che mas também contribuir ao debate da relação medicina-sociedade.

Entre outras ideias, além de examinar a sua própria evolução pessoal em seus tempos de médico, recém-graduado, quando buscava ver como desenvolver alguma pesquisa ou contribuição médica importante para a humanidade na base do esforço pessoal, ele repensa o momento em que se deu conta, no real, das barreiras contra seu projeto.

Viu-se diante da miséria, da fome da população, pobreza e privações da classe trabalhadora, dos camponeses pobres, causas banais de doenças letais, que roubam vidas inocentes e qualidade de vida.

Dali - ele conta - passou a questionar a medicina como ferramenta capaz de mudar a saúde pública. Foi formulando algumas ideias que são de absoluta importância quando se avalia não só o papel do médico, o papel do estudante de medicina, mas também a relação da medicina com a sociedade, e a [in]capacidade da medicina de engendrar, amplamente, saúde pública.

Che também se dirige aos estudantes de medicina procurando refletir sobre a difícil mas necessária tarefa de cada ser um arquiteto de si próprio, arquiteto da própria consciência, portanto sujeito histórico.

Em determinado momento – ele segue argumentando - precisou fazer um balanço de projeto de vida. Balanço que tinha a ver com a sua percepção inicial de imaginar poder ajudar o próximo, ajudar às massas, mesmo na condição de pesquisador, mesmo na condição de médico. Ele toma consciência da contradição deste argumento.

A barreira social, termina por tornar a própria medicina e os próprios médicos impotentes para mudar a realidade social e sua área de trabalho, a saúde pública.

Naquele seu balanço crítico, de vida, se coloca diante do dilema que ele chama “difícil ciência de ser revolucionário”, inclusive revolucionário de si próprio, a partir do questionamento da capacidade do médico de ser um construtor da saúde pública. Ou, nos termos em que ele formula ao final do discurso: a maior obra da medicina social é a revolução; sem a revolução não existe medicina social; e seu primeiro dever era ser um médico revolucionário, e a primeira tarefa “médica”, a revolução.

Neste ponto, dialogando consigo próprio, entende que enfrentar as necessidades da sociedade na condição de médico não era um projeto possível de ser construído a partir do esforço pessoal individual; por maior que seja o esforço pessoal do médico, individualmente, ele jamais vai conseguir produzir a saúde pública efetiva e de massas; nem a medicina de fato preventiva. As condições de privações e de má qualidade de vida das massas o impedem.

Argumenta também que, no início de uma carreira médica, pessoas sensíveis tentam aquele esforço solitário/individual, muito mais por sua condição de filhos do medo do que por conta de um projeto que possa vir a ser eficiente. E que o ideal que ele teve na juventude, fosse na condição de médico ou de pesquisador médico, só poderia ser alcançado [e também que a saúde coletiva somente poderia ser alcançada] na medida em que se tornasse uma tarefa coletiva da sociedade agindo sobre a própria sociedade.

Na nossa perspectiva, este é o ponto alto do seu discurso.

Neste caso, assumindo seu engajamento revolucionário, o médico então passa a ser uma mediação, sim, mas que só vai ser traduzida em forma de saúde pública de fato, na medida em que esta se converta em uma tarefa de todo o coletivo social em função de todo o coletivo, social.

E o papel da medicina? Será, diz ele, o de ajudar as pessoas a prevenir as doenças. A verdadeira saúde pública somente pode ser uma tarefa social, do coletivo social. É missão das massas organizadas.

Ao médico cabe ensinar o que souber de prevenção e somente medicalizar casos extremos, especiais.

Esse teorema final é uma reflexão de vida e também a concepção, agora como revolucionário, de qual deveria ser a primeira tarefa do médico. E o quanto isso implica naquela crise de crescimento em que o próprio indivíduo se torna arquiteto de um novo indivíduo, dá origem a um novo ser, arquiteto consciente da sua condição, agora de sujeito político.

Che conclui, argumentando que o médico realmente esforçado em contribuir para o bem-estar da humanidade se transforma em revolucionário a partir da percepção de que a saúde pública é filha da revolução não pode ser alcançada a não ser pela luta comum de todos juntos, ombro a ombro com a classe revolucionária e somente quando isso se der de forma coletiva e revolucionária.

[A tradução foi gentilmente realizada pela professora Maria Auxiliadora Cesar/UnB/CEAM/Nescuba]
Nota: Não temos em mãos a data exata desse discurso, presumivelmente seria de 19/8/1960.

O discurso de Ernesto Che Guevara

Companheiros:

Este ato modesto, mais um entre as centenas de atos em que o povo cubano festeja dia a dia sua liberdade e o avanço de todas suas leis revolucionárias, o avanço pelo caminho da independência total, é, todavia, interessante para mim.

Quase todo mundo sabe que iniciei minha carreira como médico há já alguns anos. E quando me iniciei como médico, quando comecei a estudar medicina, a maioria dos conceitos que hoje tenho como revolucionário estavam ausentes no armazém de meus ideais.

Queria triunfar, como quer triunfar todo mundo; sonhava ser um pesquisador famoso, sonhava trabalhar infatigavelmente para conseguir algo que podia estar, em definitivo, colocado à disposição da humanidade, mas naquele momento era um triunfo pessoal. Era, como todos somos, um filho do medo.

Depois de ter me formado, por circunstâncias especiais e talvez também por meu caráter, comecei a viajar pela América Latina e a conheci inteira. Com exceção do Haiti e da República Dominicana, todos os demais países da América Latina foram, de alguma maneira, visitados por mim. E pelas condições em que viajei, primeiro como estudante e depois como médico, comecei a entrar em estreito contato com a miséria, com a fome, com as doenças, com a incapacidade de curar a um filho por falta de meios, com o embrutecimento que provocam a fome e o castigo contínuos, até parecer que para um pai perder um filho seja um acidente sem importância, como acontece muitas vezes nas classes golpeadas de nossa pátria latino-americana.

E comecei a ver que havia coisas que, naquele momento, me pareceram quase tão importantes como ser um pesquisador famoso ou como fazer algum aporte substancial para a ciência médica: e era ajudar a essa gente.

Mas eu seguia sendo, como sempre o seguimos sendo todos, filho do medo e queria ajudar a essa gente com meu esforço pessoal. Já havia viajado muito – estava, naqueles momentos na Guatemala, a Guatemala de Arbenz – e havia começado a escrever umas notas para normatizar a conduta do médico revolucionário. Começava a investigar que coisa era o que se necessitava para ser um médico revolucionário.
Entretanto, veio a agressão, a agressão que desencadearam a United Fruit Company, o Departamento de Estado, Foster Dulles – na realidade são a mesma coisa –, e o títere que haviam posto, que se chamava Castillo Armas – assim se chamava! –. A agressão teve êxito, uma vez que aquele povo todavia não havia alcançado o grau de maturidade que tem hoje o povo cubano, e um belo dia, como tantos, tomei o caminho do exílio, ou pelo menos tomei o caminho da fuga de Guatemala, já que não era essa minha pátria.

Então, me dei conta de uma coisa fundamental: para ser médico revolucionário ou para ser revolucionário, a primeira coisa que há que se ter é revolução. De nada serve o esforço isolado, o esforço individual, a pureza de ideais, o afã de sacrificar toda uma vida ao mais nobre dos ideais, se esse esforço se faz só, solitário em algum rincão da América Latina, lutando contra os governos adversos e as condições sociais que não permitem avançar. Para fazer revolução necessita-se isto que há em Cuba: que todo um povo se mobilize e que aprenda, com o uso das armas e o exercício da unidade combatente, o que vale uma arma e o que vale a unidade do povo.

E então já estamos situados, sim, no núcleo do problema que hoje temos por diante. Já então temos o direito e até o dever de ser, acima de todas as coisas, um médico revolucionário, isto é, um homem que utiliza os conhecimentos técnicos de sua profissão a serviço da Revolução e do povo. E então voltam a se colocar as interrogantes anteriores. Como fazer, efetivamente, um trabalho de bem estar social, como fazer para relacionar o esforço individual com as necessidades da sociedade?

E há que fazer, novamente, um balanço da vida de cada um de nós, do que se fez e se pensou como médico ou em qualquer outra função da saúde pública, antes da Revolução. E fazê-lo com profundo afã crítico, para chegar então à conclusão de que quase tudo o que pensávamos e sentíamos, naquela época já passada, deve ser arquivado e deve se criar um novo tipo humano. E se cada um é o próprio arquiteto desse novo tipo humano, muito mais fácil será para todos criá-lo e que seja o expoente da nova Cuba.

É bom que a vocês, os presentes, os habitantes de Havana, se reitere esta ideia: a de que em Cuba se está criando um novo tipo humano, que não se pode apreciar exatamente na capital, mas que se vê em cada rincão do país. Os que de vocês estiveram pelo 26 de julho [1] na Sierra Maestra, terão visto duas coisas absolutamente desconhecidas: um exército com “el pico y la pal”, um exército que tem por orgulho máximo desfilar nas festas patrióticas na província do Oriente, com “su pico y su pala” [2] em riste, enquanto os companheiros milicianos desfilam com seus fuzis.

Mas terão visto também algo ainda mais importante, terão visto umas crianças cuja constituição física fará pensar que tem 8 ou 9 anos, e que, no entanto, quase todos eles contam com 13 ou 14 anos. São os mais autênticos filhos da Sierra Maestra, os mais autênticos filhos da fome e da miséria em todas as suas formas; são as criaturas da desnutrição.

Nesta pequena Cuba, de quatro ou cinco canais de televisão e de centenas de canais de rádio, com todos os adiantamentos da ciência moderna, quando essas crianças chegaram de noite pela primeira vez à escola e viram os focos de luz elétrica, exclamaram que as estrelas estavam muito baixas essa noite. E essas crianças, que alguns de vocês terão visto, estão aprendendo nas escolas coletivas, desde as primeiras letras até um ofício, até a dificilíssima ciência de ser revolucionários.

Esses são os novos tipos humanos que estão nascendo em Cuba. Estão nascendo em um lugar isolado, em pontos distantes da Sierra Maestra, e também nas cooperativas e nos centros de trabalho.

E tudo isso tem muito a ver com o tema de nossa fala de hoje, com a integração do médico ou de qualquer outro trabalhador da medicina, dentro do movimento revolucionário, porque essa tarefa, a tarefa de educar e alimentar as crianças, a tarefa de educar o exército, a tarefa de repartir as terras de seus antigos amos absenteístas - pois quem fazia era quem suava todos os dias, sobre essa mesma terra, sem recolher seu fruto -, esta é a maior obra de medicina social que se fez em Cuba.

O princípio em que deve se basear o ataque às doenças, é criar um corpo robusto; mas não criar um corpo robusto com o trabalho artístico de um médico sobre um organismo débil, mas criar um corpo robusto com o trabalho de toda a coletividade, sobre toda essa coletividade social.

E a medicina terá que converter-se um dia, então, em uma ciência que sirva para prevenir as doenças, que sirva para orientar a todo o público para seus deveres médicos, e que somente deva intervir em casos de extrema urgência, para realizar alguma intervenção cirúrgica, ou algo que escape às características dessa nova sociedade que estamos criando.

O trabalho que está encomendado hoje ao Ministério de Salubridade, a todos os organismos desse tipo, é o de organizar a saúde pública de tal maneira que sirva para dar assistência ao maior número possível de pessoas, e sirva para prevenir todo o previsível em relação a doenças, e para orientar o povo.

Mas para essa tarefa de organização, como para todas as tarefas revolucionárias, necessita-se, fundamentalmente, do indivíduo. A Revolução não é, como pretendem alguns, uma padronizadora da vontade coletiva, da iniciativa coletiva, mas todo o contrário, é uma liberadora da capacidade individual do homem.

O que sim é a Revolução é, ao mesmo tempo, orientadora dessa capacidade. E nossa tarefa de hoje é orientar a capacidade criadora de todos os profissionais da medicina dirigidas a tarefas da medicina social.

Estamos no final de uma era, e não aqui em Cuba. Por mais que se diga o contrário, e que alguns esperançosos pensem assim, as formas de capitalismo que temos conhecido e nas quais nos temos criado, e sob as quais temos sofrido, estão sendo derrotadas em todo o mundo.

Os monopólios estão em derrota; a ciência coletiva assinala, dia a dia, novos e mais importantes triunfos. E nós temos tido, na América Latina, o orgulho e o sacrificado dever de ser vanguarda de um movimento de libertação que se iniciou há tempo em outros continentes submetidos da África e da Ásia. E essa mudança social tão profunda demanda, também, mudanças muito profundas no contexto mental das pessoas.

O individualismo como tal, como ação única de uma pessoa colocada só em um meio social, deve desaparecer em Cuba. O individualismo deve ser, no dia de amanhã, o aproveitamento cabal de todo o individuo em benefício absoluto da coletividade. Mas, ainda quando isto já seja entendido , ainda quando se compreendam estas coisas que estou dizendo, e ainda quando todo o mundo esteja disposto a pensar um pouco no presente, no passado e no que deve ser o futuro, para mudar de maneira de pensar, há que sofrer profundas mudanças interiores, e assistir a profundas mudanças exteriores, sobre tudo sociais.

E essas mudanças exteriores estão se dando em Cuba todos os dias. Uma forma de aprender a conhecer esta Revolução, de aprender a conhecer as forças que o povo tem guardadas em si, que há tanto tempo tem estado adormecidas, é visitar toda Cuba; visitar as cooperativas e todos os centros de trabalho que estão sendo criados.

[fonte: F = http://studylib.es/doc/7045920/discurso-a-los-estudiantes-de-medicina-y-trabajadores-de-..].

NOTAS:
[1] O 26 de julho foi um movimento revolucionário cubano, fundado em 1954 por Fidel Castro e seus companheiros, contra o ditador Fulgencio Batista. Os principais objetivos do movimento foram a distribuição da terra aos camponeses, a nacionalização dos serviços públicos, a industrialização, as eleições honestas e a reforma educacional em larga escala. O nome do Movimento 26 de Julho originou-se do ataque ao Quartel Moncada, uma instalação do exército na cidade de Santiago de Cuba, em 26 de julho de 1953. (Nota da tradutora)

[2] A expressão "pico y pala" se refere ao trabalho pesado de um operário, daí a menção dos instrumentos para escavar ou demolir – picareta e pá. É utilizada para outros contextos, como nesta alusão ao trabalho do exército cubano. (Nota da tradutora)




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