Juventude

PUC-RIO

Quais são os desafios dos estudantes para transformar a PUC-RIO?

Com um programa que de fato responda à crise capitalista podemos enfrentar o racismo, a precarização do trabalho dos funcionários na universidade, e ser parte importante do processo de transformar a realidade do Rio de Janeiro e do país.

terça-feira 12 de junho| Edição do dia

A PUC-RIO, por incrível que pareça, não é uma bolha que flutua sobre a realidade. A PUC-RIO, ao contrário, representa a realidade. A realidade do capitalismo e a relação que cria com as pessoas, que devem se subordinar a ele e aos detentores do capital. Colocando em contraste com outras universidades, públicas e privadas, e principalmente quando os problemas concretos da realidade material se apresentam aos estudantes - e para os quase 50% de bolsistas, esses problemas se apresentam diariamente -, vê-se que a universidade não é tão distante assim do mundo real.

A instituição vem mudando seu caráter ao longo dos últimos anos com a entrada de um número muito maior de bolsistas, o que representou uma grande inflexão na forma em que a política e os problemas profundos da realidade brasileira penetram no cotidiano da universidade. Em 2016, nós, estudantes, ocupamos a universidade e fomos parte de uma enorme onda nacional que contou com mais de mil instituições de ensino ocupadas. Lutávamos contra a PEC 55, a reforma do ensino médio e pela resolução das questões mais candentes da realidade dos estudantes da PUC-RIO.

Os problemas que nos assolam na PUC hoje, entretanto, não são distintos de 2016: ela continua sendo uma universidade elitista, racista e excludente. O revoltante exemplo de racismo recentemente nos Jogos Jurídicos é a materialização, no ambiente universitário, de contradições profundas de uma sociedade calcada na exploração e na opressão; é mais um absurdo exemplo do quanto ainda temos a avançar para uma universidade que sirva de fato aos trabalhadores e ao povo pobre. A perda de direitos de trabalho dos seus funcionários com a implementação da reforma trabalhista indica para que lado a instituição está rumando, chegando mais perto, pela via da precarização, de outras universidades que têm como seu fim o lucro.

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A PUC-RIO é uma instituição filantrópica. Apesar de contar com os programas do MEC, ProUni e Fies (este, até 2017), grande parcela das bolsas são concedidas pela própria universidade. No entanto, o fato de a PUC-RIO ser uma universidade filantrópica não mascara o fato de ser mantida por entes privados, que direcionam as verbas para onde bem entendem e são subordinados às grandes empresas que pinçam o conhecimento ali produzido. Apesar do alto número de bolsas, a faculdade continua a ser amplamente excludente por meio do filtro social do vestibular, alinhado a altas mensalidades e um frágil programa de permanência estudantil, o FESP (que deve ser reivindicado como conquista, mas enxergando suas contradições), além de um bandejão que custa R$9,00. São dilemas latentes que impedem que a universidade de fato sirva para os trabalhadores e o povo pobre.

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Os problemas na instituição hoje são sentidos em uma escala especialmente mais penosa para os bolsistas. O estágio de degradação social a que chegou o Rio de Janeiro impõe enormes desafios para essa camada de estudantes que não tem oportunidade de estudar a 20 minutos da universidade, e ainda é obrigada a lidar com a relação de subordinação que a universidade ‘filantrópica’ mantém com quem entra por concessão de bolsas na universidade. Para entender esse processo e termos clareza real de como intervir precisamos levantar elementos de como chegamos até esse ponto, tanto no Rio, quanto no país e na própria PUC-RIO.


Imagem: Ocupa PUC-RIO/Facebook

Um breve histórico da grave crise dos últimos anos no Rio de Janeiro

A crise no país atingiu com mais força o estado do Rio de Janeiro do que todos os outros estados. A Petrobras, que representava 1/3 do PIB do estado foi desmontada e privatizada sistematicamente após 2014, com a operação Lava-Jato, a queda nos preços do barril de petróleo e com o capital imperialista diretamente interessado em se apropriar da descoberta do pré-sal. O Rio perdeu 10% de seu PIB, e o desemprego aumentou 157% entre 2014 e 2017.

Esse cenário apontou para que o governador Pezão descarregasse a crise nas costas dos trabalhadores e da juventude. Com seu pacote de maldades atacou fortemente os servidores, privatizou a CEDAE e assinou um pacto mortífero com Temer para congelar os gastos sociais no estado. Essa aliança maldita colocou o Rio de Janeiro na mira de suas chantagens condicionando a mísera “ajuda” do governo federal à aprovação de todos os ataques neo-liberais na Alerj. Se utilizaram da Lei de Responsabilidade Fiscal para impor um Regime de Recuperação Fiscal como base para um verdadeiro arrocho que colocou os servidores para passar fome sem receber seus salários e para afundar a UERJ em uma situação de degradação sem precedentes, incluindo aí o corte de bolsas, adiamento por semanas do início das aulas, com o bandejão fechado, e aumento dos cortes sistemáticos no orçamento.

No inicio desse ano, Temer impôs uma intervenção federal ao Rio de Janeiro, numa medida de tentar deixar esquecida sua derrota para passar a Reforma da Previdência. A maior repressão que a operação prega só fez aumentar a violência no Rio, com aumento dos tiroteios, balas perdidas, mortes e casos de chacinas. Assassinaram a vereadora negra Marielle Franco e, junto com sua morte, trouxeram a insatisfação social expressa nos milhares que se levantaram depois de sua morte.

A agonizante situação nacional

Esse contexto de crise no Rio se soma a um golpe institucional que colocou Temer no poder a fim de que sejam os trabalhadores os que paguem pela crise. Os ajustes fiscais bilionários que Dilma começou a implementar não eram mais suficientes para os capitalistas com que o PT se aliou por tanto tempo, por isso o golpe. Fazer um balanço sério do período, que leve a conclusões estratégicas e não só discurso, se faz necessário. Não podemos ficar à mercê de repetir suas experiências, como vem fazendo o PSOL, que recentemente assinou um manifesto com PDT, PCdoB, PSB e PT.

Precisamos remarcar que o PT construiu a desmoralização no movimento operário e estudantil, se adaptando ao teto baixo de expectativas que a burguesia impõe à população. Com sua política de conciliação abriu espaço para a direita se instalar no poder, aprovar uma série de ataques, como a reforma trabalhista e a PEC 55, além de a CUT, maior central sindical da América Latina, trair duas greves gerais (30 de junho e 5 de dezembro) que poderiam ter arrancado Temer do poder, além de não organizar uma resistência séria nem mesmo quando seu principal dirigente é preso arbitrariamente pelas mãos da Lava Jato.

A adaptação petista como partido da ordem se deu nos marcos do quanto podia suportar o imperialismo: ele nunca ousou ultrapassar essa barreira. Sua política de campeãs nacionais viu-se encurralada pela Lava Jato. A operação carrega em seio o interesse imperialista de substituir essas empreiteiras, mineradoras, agroexportadoras bancadas pelo BNDES e que estão no olho do furacão nesse momento por uma burguesia internacional no vácuo deixado pela “burguesia nacional” (nem tão nacional assim) fomentada pelo PT.

O mais importante “vácuo” criado pela operação, porém, foi a própria Petrobras. A nacionalização de seus campos de exploração e de suas empresas subsidiárias é o maior alvo do imperialismo. A empresa foi também centro do debate nas últimas semanas com a crise dos combustíveis, a greve dos petroleiros e a queda de seu presidente, Pedro Parente. O ocorrido nas últimas semanas colocaram no centro novamente a capitulação petista, que precisamos profundamente debater pois a inércia que prega e pregou por tanto tempo em nome de todo peso às eleições, e de suas conciliações de todos os tipos, fizeram com que seja a direita que capitalize o descontentamento popular.

A paralisação de caminhoneiros, que movimentou o Brasil nas últimas semanas, trouxe o apoio de distintas frações da burguesia, atrás de maiores subsídios e diminuição de impostos para os seus negócios. Não à toa só arrancaram reivindicações que interessam somente aos patrões, como a diminuição do PIS/COFINS (imposto que vai para saúde e seguro desemprego) e outros tributos no preço do Diesel, a desoneração da folha de pagamento, o subsídio governamental para as concessionárias das estradas privatizadas, entre outras medidas que ao todo somam 10 bilhões que serão retirados dos contribuintes para as mãos dos empresários beneficiários dessa paralização. O movimento de caminhoneiros levantava a bandeira de "intervenção militar" e "Bolsonaro 2018", além de que tinha como direção a patronal e um programa reacionário. É preciso desmascarar o que estava por trás desse movimento.

No momento seguinte se deu a greve dos petroleiros convocada desde o começo de maio e traída pela FUP, da CUT. Em meio à absurda repressão da justiça, o PT se adaptou e chamou uma greve de aviso de apenas 3 dias que não parou a produção. Além de tudo, convocou um programa adaptado ao regime, pedindo apenas a mudança na política de preços e a saída de Pedro Parente.

Nenhuma das duas saídas que o PT levantou para a greve tira os tentáculos do imperialismo do nosso Petróleo. No lugar de Parente, entrou Ivan Monteiro, seu braço direito e outro privatista da direita que inclusive já ocultou informações sobre a privatização de 90% do gasoduto Nova Transportadora do Sudeste para a gigante estrangeira, Brookfield. O PT também quer que a mudança da política de preços mude, querendo retomar o que foi na época do governo Lula. A nefasta política de preços de Temer perde por pouco para o que foi a do PT, que não é nenhuma solução para a Petrobras. A política de preços petista foi muito mais benéfica aos empresários do que aos trabalhadores e à classe média. A política de subsídios levada ao NAFTA, a empresas estrangeiras e aliada ao não investimento em refino do petróleo nacional faz do Brasil extremamente dependente apesar de produzirmos um enorme número de barris por dia.

Nesse contexto, qual a responsabilidade dos estudantes da PUC-RIO?

Os estudantes da PUC-RIO precisam defender o programa por uma Petrobras 100% estatal sob gestão operária e controle popular. Somente assim poderemos dar uma saída de fundo que tire das mãos imperialistas o nosso petróleo. Entendendo o quanto o Rio de Janeiro depende umbilicalmente dos recursos advindos daí, essa tarefa toma um teor de importância. Isso deve se ligar a um conjunto de medidas anti-capitalistas. Nós lutamos contra a PEC 55 em 2016 mas ela, ao fim, passou. Uma PEC que serve para congelar os gastos em saúde e educação em 20 anos e dar prioridade total para a irrefreável dívida pública. Nós, estudantes da PUC-RIO, precisamos rechaçar o pagamento dessa verdadeira bolsa-banqueiro que consome metade do orçamento federal anualmente.

Os estudantes da PUC-RIO precisam se organizar para combater os ataques

Se concordamos que são os alunos bolsistas os que sentem mais diretamente na pele a dinâmica da desigualdade social, deveríamos chegar à conclusão de que estes também seriam os que mais reivindicariam participação política da e na universidade.

Esse, no entanto, não é o caso. Diz-se que a PUC-RIO é uma bolha: da parte dos alunos da Zona Sul, porque não são prejudicados economicamente pelas contradições do capitalismo; e sobretudo da parte dos alunos bolsistas porque, na condição de bolsistas, estes não deveriam ter do que reclamar - a dinâmica da filantropia é cruel porque coloca os beneficiados sempre na posição de subordinação ao capital que os sustenta. Dessa forma, é esperado desses alunos que sejam obedientes; que tenham bom desempenho acadêmico; que se comportem. Afinal, se conseguiram algo ou alguém que os patrocinasse, é porque, pretensamente, poderia-se pensar que o sistema funciona, é bondoso e, de fato, meritocrático, uma falácia em si mesma.

É necessário desmascarar essa lógica à medida que não representa a realidade e coage a participação política dos estudantes em prol de uma sociedade verdadeiramente solidária.

Nas últimas semanas o movimento estudantil da PUC-RIO deu um salto de qualidade com relação à passividade que primava no período anterior. Os dois atos que aconteceram na quinta-feira (7) mobilizaram os estudantes contra o racismo e a precarização do trabalho. É preciso manter esse marco de mobilização e aprofundá-lo. É urgente uma juventude que esteja ao lado dos trabalhadores; é essa aliança revolucionária que reivindicamos como a herança mais latente de Maio de 68 e que devemos buscar retomar para dar uma saída coerente e eficaz às contradições do sistema.

A PUC-RIO não é uma bolha desconectada do contexto do país; ela é o país tanto quanto qualquer outra instituição de ensino. O que se faz necessário é quebrar certas lógicas que impedem a ação consciente e politizada dos alunos. Precisamos de uma faísca que desperte no alunato o desejo de mudanças ao entender que a realidade extrapola os muros da universidade, extrapola o bairro da Gávea.




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