A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.11

Quais as raízes da I Guerra Mundial?

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 25 de janeiro| Edição do dia

É possível constatar, na evolução do capitalismo desde a consolidação da revolução industrial inglesa, uma lenta curva histórica ascendente de desenvolvimento da economia mundial.

Esta curva abarca desde 1783 até 1873 quando se estabelece uma grave crise, logo superada; dali em diante, aquela curva, de crescimento orgânico das forças produtivas no capitalismo, retoma sua linha ascendente, agora com um diferencial: acelera-se. Aquela crise, no período 1873 a 1894, tem a ver com as “dores do parto” ou transição aguda para a era dos monopólios capitalistas de peso mundial.

Chegará rapidamente ao seu auge, de 1894 a 1914.

A economia mundial vive ali sua belle époque, uma dinâmica, como sempre, de crescimento e crise na qual, no entanto, a curva de crescimento supera amplamente seus momentos de resfriamento e recessões, mesmo – vale repetir - que aqui se leve em conta aquela grande crise de 1873.

O capitalismo dos oligopólios, uma vez conformado, rapidamente alcança a total partilha do mundo, com as corporações dos países mais ricos colonizando a periferia, dominando mercados e fontes de matérias-primas pelo mundo afora. O capitalismo “pacífico” foi substituído por um capitalismo, antes de mais nada, belicista e catastrófico (LENIN, 1969: 12).

Eclode a I Guerra.

Os Estados dos grandes monopólios capitalistas se enfrentam em campo de batalha. Está dada a largada para a maior carnificina bélica jamais vista.

Pensando dialeticamente, sabemos que o momento do auge vem a ser o próprio momento do início do declínio. Aquele conflito militar, de disputa catastrófica entre os grandes oligopólios [e seus Estados] é revelador do quanto o capitalismo acabara de esbarrar em seus próprios limites.

Os grandes monopólios privados e seus Estados estavam protagonizando ali, naquela grande conflagração, sua guerra comercial, de áreas de investimento e mercados, à esfera da guerra total, com grande devastação econômica e social. A política por outros meios [Clausewitz]. Com isso, também estava aberta toda uma época com potencial para convulsões e revoluções sociais, sendo a primeira delas a ser vitoriosa, a Revolução Russa de 1917.

Os antecedentes

Naquele período anterior à Guerra, do ascenso mundial do capitalismo, o mercado mundial se expandiu e se intensificou como nunca .

E a velha ordem mundial britânica viu-se diante da realidade de que “seu” espaço mundial estava sendo ocupado por rivais econômicos não apenas europeus, mas também norte-americanos. A economia, aquela massa de capitais em busca de lucro, não cabia mais na nação.

Assim como a Inglaterra e seus capitais necessitam do controle da Europa e das colônias para sua reprodução, para a acumulação do capital inglês, também seus rivais como a Alemanha (como império unificado desde 1871) se colocam na mesma perspectiva. Em rápida industrialização, os grandes capitais da Alemanha precisam germanizar a economia europeia como base para o seu desenvolvimento.

Está armado o cenário. A era imperialista mostra as caras.

Cada economia avançada vai demarcar seu território: a França constrói um império na África e Vietnã, a Bélgica se apodera do Congo, parte da África é tomada pela Alemanha, os Estados Unidos arrancam os últimos pedaços do império espanhol na América Latina (Cuba, Havaí e Porto Rico são alguns exemplos).

A concorrência entre oligopólios, ao eclodir, agora na esfera internacional, o fará arrastando as proporções destrutivas da crise para uma escala bem mais devastadora, o tsunami agora será mundial.

Já tinha havido uma e outra escaramuça: o “conflito russo-japonês pela redivisão da Manchúria, que provocará a guerra russo-japonesa de 1905; o conflito germânico-inglês pela partilha da Turquia e dos países árabes do Oriente Médio; o conflito russo-austro-húngaro pela redivisão dos Balcãs. Estes dois últimos conflitos acenderão finalmente o pavio que provocará a guerra de 1914.

O imperialismo é a política de expansão internacional e econômica do capitalismo dos monopólios e conduz às guerras imperialistas” (MANDEL, 1972: 70). É a política do grande capital financeiro internacional.

Tomando esse processo em escala secular, décadas depois, o mercado mundial irá fechar-se momentaneamente na I Guerra, mais adiante novamente, durante a Grande Depressão, para reabrir-se e intensificar-se mais que antes na era do pós-II Guerra e, muito mais ainda, na época da globalização financeira após os anos 1970 (ou segunda globalização).

Mas será ali, com a I Guerra, que se encerrará toda uma época. E estará aberta a era do imperialismo, com seu rosário de carnificinas, reação em toda linha, convulsões, crises e revoluções. Ingressamos, portanto, ao mesmo tempo, na era da revolução proletária.

LENIN, V.I., 1969. Prefácio a O imperialismo e a economia mundial, 2ª. ED, Bukharin, Rio de Janeiro, Laemmert, p. 9 a 5.
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economia marxista. 2 vols. México: Ediciones Era.

Imagem [modificada]: www.io9.gizmodo]

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas]. Continua na nota n.12.




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