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ELEIÇÕES EUA

Quais as consequências da eleição de Trump para a economia brasileira?

Um terremoto atingiu o mundo nessa terça feira. Contra todos os prognósticos da burguesia internacional que estava abertamente apoiando Hillary Clinton, Donald Trump, foi eleito para presidente dos Estados Unidos, na posição de maior poder do mundo. O ambiente de incerteza domina e o Brasil pode ser profundamente impactado por essa mudança, comprometendo os frágeis sinais de melhora da economia brasileira.

segunda-feira 14 de novembro| Edição do dia

Os analistas da burguesia buscam entender a profundidade do fenômeno expresso na votação de Trump como um questionamento do establishment político. Tanto Hillary Clinton como Barack Obama fizeram discursos pedindo unidade “do povo americano” para garantir a governabilidade, após essa eleição inesperada. O próprio Donald Trump, no seu discurso logo após o resultado eleitoral, buscou um tom menos agressivo, ao contrário daquele que vinha utilizando durante a campanha.

Ainda há bastante incerteza em relação a quais medidas serão ou não adotadas pelo presidente eleito, sua própria equipe econômica começa a ser formada agora. No entanto, a aposta, pelo discurso amistoso realizado por Trump, é que ele suavizará seu discurso populista de direita e não manterá algumas das suas propostas mais polêmicas, tais como: a taxação das exportações chinesas para os Estados Unidos em 35% - fato que certamente levaria a um acirramento das tensões interestatais com resposta do governo chinês-, bem como a proposta xenófoba de construção de um muro separando os Estados Unidos do México – fato que poderia levar a uma instabilidade do ponto de vista das relações interestatais e também da luta de classes, com protestos contrários.

No entanto, a aposta do mercado, sinalizada pelo próprio discurso de Trump, é que ele dê início a um plano de infraestrutura nos Estados Unidos, com o objetivo de aumentar o emprego e o crescimento do país, e também que aumente os gastos militares. Uma política desse tipo certamente levaria a um aumento da inflação e, consequentemente, forçaria o Federal Reserve (Fed) a ter que aumentar o nível da taxa de juros do país. Este aumento das taxas de juros seria uma modificação profunda que impactaria todos os países do mundo, em particular, os países dependentes e semicoloniais como o Brasil.

Um pequeno exemplo disso pode ser visto nessa sexta-feira, quando, diante dessas projeções, o dólar valorizou em relação às moedas estrangeiras dos países emergentes. No Brasil, o Banco Central teve que intervir no mercado negociando e contendo a desvalorização do real. No entanto, ainda assim, a moeda brasileira fechou perto de R$3,40, sofrendo a maior desvalorização entre os países emergentes.

As relações entre Brasil e Estados Unidos

O presidente golpista Michel Temer apressou-se em parabenizar Trump por sua vitória, assim como o fez o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, afirmando que “o jogo começa agora”. O governo golpista assumiu uma política de maior realinhamento do governo brasileiro com o imperialismo norte-americano, leia-se uma maior dependência do Brasil em relação ao capital dos Estados Unidos, favorecendo-o com projetos de privatizações em diversos setores no país. Não esqueçamos que logo que assumiu como presidente, Michel Temer apressou-se em viajar aos Estados Unidos, em Nova York, para apresentar os planos de privatização do país.

Outro exemplo é a mudança na exploração do pré-Sal, permitindo que empresas estrangeiras tenham acesso à exploração da reserva de petróleo brasileira: a multinacional Shell anunciou na última semana um investimento de US$ 10 bilhões de dólares no Brasil.

Embora não esteja entre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, o Brasil depende bastante das relações com o imperialismo norte-americano. Os EUA representam cerca de 12,4% das exportações brasileiras, sendo o segundo principal parceiro comercial do país (dados de Funcex, com uma pauta que inclui produtos manufaturados como máquinas, aeronaves, ferro e aço, além de produtos como café e carne bovina (com menor importância da pauta de exportação).

No total importações brasileiras, os EUA representam 17,1%; sendo o país do qual importamos o maior volume de produtos tendo como itens principais maquinário, produtos químicos e plástico. Além disso, segundo os dados da Cepal, do ponto de vista do investimento estrangeiro direto realizado no Brasil, o capital norte-americano representou 14% dos IED realizados no país durante o ano de 2015.

Ou seja, uma política protecionista nos Estados Unidos, a qual Trump teria relativa independência do Congresso norte-americano para aplicar, pois o poder executivo pode impor a taxação de até 15% nas importações por 150 dias, certamente impactaria a frágil economia brasileira, principalmente porque este vem sendo um dos poucos países para os quais o Brasil mantém uma exportação de produtos manufaturados. O próprio ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse estar preocupado com o protecionismo que afetaria a exportação brasileira.

Fim de um “interregno benigno”?

O último Relatório de Inflação divulgado pelo Banco Central brasileiro em setembro deste ano, sugere que os países ditos emergentes vivem um “interregno benigno”, no qual ainda há incertezas, mas que tais países possuem uma conjuntura mais favorável com uma trajetória de crescimento do fluxo de capitais, bem como o aumento do preço das commodities. Além disso, aponta que a conjuntura brasileira é de estabilização da atividade no curto prazo e possível retomada gradual do crescimento ao longo dos próximos meses.

Está certo que no Brasil observamos algumas melhoras como queda da taxa de juros, valorização da moeda brasileira, melhora dos indicadores do mercado como o índice Ibovespa, além de melhoras no índice de confiança dos empresários e consumidores (como pode ser visto nesta apresentação divulgada pelo BC). Contudo, ao contrário da exaltação desses números que faz a mídia burguesa, as melhoras são bastante superficiais e estão longe de significar uma mudança na trajetória de crescimento do país.

O mercado interno está fortemente impactado, com a taxa de desemprego atingindo 11,6% que é o equivalente a 11,8 milhões de desempregados no país, segundo a pesquisa PNAD 2016 realizada pelo IBGE. Essa mesma pesquisa mostra que a renda dos trabalhadores ocupados também teve uma queda de 3% no segundo trimestre deste ano, em comparação ao mesmo período em 2015.

O Boletim de Balanço dos Dissídios do primeiro semestre deste ano, publicado pelo Dieese, mostra ainda que houve um aumento no número de trabalhadores que receberam apenas a reposição da inflação e ainda, de categorias que tiveram diretamente arrocho salarial. Além disso, aumentou também o número de decisões de dissídios na justiça, por não haver acordo entre os sindicatos e os patrões.

Ao mesmo tempo, o endividamento e a inadimplência dos brasileiros aumentaram, segundo pesquisa da CNC, 58% das famílias brasileiras se declaram endividadas, e 24,4% das famílias entrevistadas diz que mantém contas em atraso, sendo que 9,8% declararam que não tem condições de pagar suas dívidas.

Por outro lado, do ponto de vista dos empresários, a Formação Bruta de Capital Fixo do Brasil, índice que traduz o investimento das empresas mostra um leve crescimento de 0,4% no último trimestre, que reverte a trajetória de números negativos vistos no ano passado e no primeiro trimestre desse ano, mas não é suficiente para sustentar uma retomada de crescimento, especialmente devido à grande capacidade ociosa de setores importantes para o país como o automotivo.

O ambiente internacional também vem mostrando um frágil crescimento, impactado pela redução do ritmo de importações da China, principal destino das exportações brasileiras. A eleição de Trump nos Estados Unidos coloca mais um componente de instabilidade nesse cenário. Disso advém que não será fácil a saída para um novo ciclo de crescimento brasileiro e que as medidas protecionistas, associadas a uma política de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, se concretizadas, podem ter um impacto significativo no Brasil. Isto poderia significar o fim desse “interregno benigno” caracterizado pelo BC, com uma desvalorização do real, queda nas exportações, saída de capitais estrangeiros, maior desemprego, num cenário mais sério de depressão no país.

O governo brasileiro obviamente não vem falando nessa possibilidade em público, o próprio presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, afirmou que o ocorrido na última sexta-feira foi apenas um realinhamento nas expectativas dos investidores Ainda assim utilizou esse fenômeno para reafirmar a necessidade das reformas com corte de direitos.

A juventude que ocupa escolas e os trabalhadores podem se preparar, que o cenário pode ser de aprofundamento da crise e a linha do governo certamente será de aprofundar ainda mais as políticas de cortes dos direitos e austeridade que o governo golpista já tenta implementar. Nesse sentido, é urgente a organização da juventude e dos trabalhadores. Os jovens estão na linha de frente, resta aos trabalhadores assumirem o papel que lhes cabe, e se colocarem também a frente dessa luta.




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