Política

A QUE SETORES O PSOL ESTÁ ABERTO?

Pupilo de Eduardo Campos deve entrar no PSOL, mas o MRT encontra resistência

Val Lisboa

Rio de Janeiro

sexta-feira 4 de setembro de 2015| Edição do dia

Negociações bem adiantadas indicam que o deputado federal Glauber Braga, do PSB do Rio de Janeiro, deve entrar no PSOL nas próximas semanas. Sem qualquer pronunciamento da direção do partido negando, tudo indica que o negócio já está selado entre a direção do partido e o deputado. A revista Época afirma: “Ao PSOL interessa que Braga se junte ao grupo. É que o partido volta a ter os chamados instrumentos de liderança, como tempo maior de fala, o direito de interromper a sessão para se manifestar em nome da bancada, encaminhar projetos e, não menos importante, o direito de indicar mais 17 cargos na Câmara.”

O parlamentar iniciou sua militância no PSB, tendo sido presidente do partido no Rio de Janeiro. Seu reduto eleitoral é a cidade de Nova Friburgo, onde foi secretário municipal quando sua mãe era a prefeita. Um discípulo de Eduardo Campos, ex-candidato a presidente pelo PSB, morto em agosto do ano passado, apoiou a candidatura de Marina Silva, que mostrou sua aliança com os banqueiros e propostas reacionárias. À época o deputado Glauber declarava que Eduardo fez uma declaração clara de que a política pode ser diferente […]. Agora esse legado passa a ser conhecido pelo Brasil todo, e isso será fundamental para a nossa candidatura. No Rio, Marina teve votação histórica nas últimas eleições. Ela tem tudo para levar o legado dele adiante.”

Com a vergonhosa derrota de Marina Silva, a eleição do senador Romário, e os planos deste para ser o candidato a prefeito do Rio nas eleições de 2016, o parlamentar perdeu a presidência do partido e, sem Eduardo Campos, já não tem espaço político no PSB para seus projetos pessoais e carreiristas. Ele precisa de um partido para seus projetos, a direção do PSOL deseja mais um deputado para ganhar mais espaço na Câmara Federal. Diante disso, estamos vendo se realizar o ditado popular “junta-se a fome com a vontade de comer”.

A negociação com o deputado passa por cima de questões programáticas

A direção do PSOL terá muita dificuldade de explicar quais os acordos políticos, programáticos e de princípios que permitem a entrada deste parlamentar no partido. Fica claro que essa “negociação” não atende aos interesses políticos defendidos pela maioria do partido, inclusive questões estatutárias como a “fidelidade partidária”. O caso do cabo Daciolo já demonstrou, na prática, o significado de filiações de carreiristas que nada têm a ver com as propostas de programa e princípios da esquerda classista e revolucionária.

Politicamente, o deputado tem toda sua história no PSB, partido que foi o mais fiel apoiador dos dois mandatos do governo Lula e da primeira metade do governo Dilma. Eduardo Campos, para Lula, foi um dos “melhores ministros”. No Rio de Janeiro, nas eleições passadas, apoiou para governador o senador Lindberg Farias, do PT, que foi corretamente nomeado pelo candidato do PSOL Tarcisio Motta como um dos quatro “cabrais”. Para a direção do PSOL pode entrar no partido a turma dos “quatro cabrais”?

O deputado Glauber não tem acordo nenhum com o ponto programático do PSOL contra o financiamento privado nas eleições e o poder econômico de empresas e empresários, que garante campanhas milionárias para alguns poucos candidatos dos partidos burgueses, enquanto os candidatos socialistas e operários disputam sem recursos. Na eleição passada o deputado declarou arrecadação de R$ 562 mil e gastos de R$ 557 mil. A mineradora Pedrinco, de Nova Friburgo, tem sido grande financiadora do deputado. Uma campanha de empresário e não de “socialista”. Como esse deputado pode entrar no PSOL que está em campanha no site corretamente denunciando que “Empresa não doa, empresa investe”?

A defesa do meio ambiente contra a sede de lucro das empresas, tema programático caro a muitos militantes ecologistas do PSOL, também está sendo relegada pela direção do partido que, com certeza conhece a vida pregressa e as relações do deputado Glauber com empresas e empresários. Como a direção do PSOL pode aceitar um parlamentar que tem como principal financiador a Pedrinco, empresa condenada em ação do Ministério Público Federalpor exploração mineral sem licença, usurpação de minério (propriedade da União), degradação ambiental e desmatamento?

Apenas nos remetendo a essas poucas e importantes questões, pode-se concluir que a entrada do deputado Glauber Braga contraria o caminho de um partido que tem as melhores condições para cumprir o papel de uma verdadeira alternativa de esquerda, da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres e de todos os que lutam contra a exploração capitalista e suas mazelas ambientais e humanitárias. O MRT se propõe a entrar para fazer parte da batalha por um PSOL que seja socialista e enraizado na classe trabalhadora para lutar contra toda a classe capitalista – não apenas alguns “setores” –, que atue consciente e firmemente para forjar uma enorme força militante capaz de impedir que a crise do petismo, combinada com a crise econômica e política seja capitalizada pela direita neoliberal e reacionária.

Ao contrário, direção executiva do PSOL resiste à entrada do MRT no partido

Enquanto um deputado oportunista e carreirista que nada tem a ver com o socialismo e a classe operária encontra os braços abertos da direção do PSOL, o MRT sofre a resistência da Executiva Nacional que definiu debater a possibilidade de nossa entrada apenas depois do congresso previsto para o final do ano e condicionando à “aceitação do programa” que os congressistas aprovariam sem sequer nos permitir participar dos debates, apresentar ideias e propostas, críticas e sugestões.

Dessa forma, a Executiva contraria até mesmo uma grande parcela de militantes, correntes internas e personalidades do partido que já demonstraram com declarações e outras formas total apoio à entrada do MRT porque, sem desconsiderar as diferenças políticas, compreendem que nossa força militante e nossas ideias e prática política – nacional e internacional, como se pode comprovar na Argentina com o PTS na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT, pela sigla em espanhol) – contribui e soma para construir uma esquerda classista e revolucionária em combate ao capitalismo e imperialismo.

No Esquerda Diário pode-se ver que diversas regionais do PSOL, constituídas pelas diversas correntes internas, têm nos convidado para participar de suas plenárias de debate congressual, como em Santo André no ABC paulista, demonstrando que, ao contrário da Executiva Nacional do partido, apostam no debate fraternal e franco entre os militantes socialistas revolucionários e no fortalecimento do partido numa perspectiva classista e revolucionária, não como “mais um partido qualquer” deste regime apodrecido da democracia para os ricos.

A Executiva nacional, confirmada essa negociação de entrada do deputado Glauber e a resistência à entrada do MRT no partido, contraria toda essa gama de militantes que, no sentido do dito pelo intelectual e professor de Economia da Unicamp Plínio Arruda Sampaio Jr. (Plininho), segue lutando para que o PSOL cumpra seu projeto de partido amplo e seja generoso com os revolucionários e duro com os oportunistas. A Executiva está sendo dura com os revolucionários do MRT, enquanto, pelo que tudo indica, a direção do PSOL é muito generosa com carreiristas e oportunistas que, diante da crise política e dos partidos, principalmente o PT, buscarão neste partido um refúgio para seus projetos burgueses.




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